05.03.2013

Foto ArteSol: Gigi Neves, Sonia Quintella e Sheila Maiorali com grupo de Pitimbú-PB.

Com o objetivo de observar de perto as associações e cooperativas de artesãos e a fim de traçar novos diagnósticos para atualizar ações e projetos, o Artesol, representado por Sheila Maiorali e Sonia Quintella de Carvalho, visitou em janeiro grupos de artesãos dos estados de Pernambuco, Paraíba e Alagoas.

Esta visita também teve a presença de Gigi Neves, representando nosso Parceiro Mantenedor Iguatemi. A parceria ArteSol & Iguatemi que acontece desde o ano de 2012, ganha novos contornos depois desta viagem de campo realizada conjuntamente.

Além de visitar associações/cooperativas de artesãos – que foram formadas e capacitadas pelo ArteSol entre os anos de 1998 à 2010 – também foram visitados eventos locais como feiras e espaços destinados a exposição e comercialização do artesanato.

As associações/cooperativas visitas:

  • Associação de Artesãos de Riacho Fundo| Boneca Esperança/Paraíba
  • Grupo Trançados de Pitimbú/Paraíba
  • Companhia de Bordados de Entremontes – Piranhas/Alagoas
  • Cooperativa dos Artesãos de Ilha do Ferro – Pão de Açúcar/Alagoas
  • Casa do Labirinto – Marechal Deodoro/Alagoas
  • Associação das Mulheres rendeiras de São Sebastião – São Sebastião/Alagoas

Feiras, museus e espaços expositivos:

  • Alto do Moura: Centro de Artes Figurativas das Américas – Caruaru/Pernambuco
  • Museu Mestre Vitalino – Alto do Moura – Caruaru/Pernambuco
  • Feira dos Municípios Alagoanos no Centro Cultural e Exposições Ruth Cardoso – Maceió/Alagoas
  • Casa dos Bonecos Gigantes – Olinda/Pernambuco
  • 17º Salão de Artesanato da Paraíba – João Pessoa/Paraíba
  • Centro do Artesanato de Pernambuco – Recife/Pernambuco

 

Viagem de Campo: Lições de vida

Começando pela Paraíba as visitas aconteceram nas cidades de Esperança e Pitimbu.
“Esperança é uma região castigada pela seca, mas mesmo assim não perdeu sua beleza”, diz Sheila. Sítio Riacho Fundo, onde a sede da Boneca Esperança está situada, é um povoado pequeno, mas com muito charme e particularidades, como por exemplo, a semelhança entre as casas. Hoje, o grupo é formado por 20 artesãs e aponta que o melhor meio de venda tem sido as feiras, que é de onde vêm à maioria das encomendas, entretanto, as feiras precisam ser subsidiadas pelo governo para que consigam participar e obter algum lucro.

O saber-fazer da boneca foi passado pela mestre Socorro, tia de Núbia, uma das artesãs da associação. Este saber-fazer está vivo a mais ou menos 60 anos e faz 13 anos que as artesãs estão na Casa da Boneca em Esperança, produzindo as bonecas e conservando este saber.

Em Pitimbú, situado no litoral sul da costa paraibana, o artesanato é produzido com a fibra de coco. Hoje o grupo conta com mais ou menos 40 artesãs, dividas em dois grupos, um que está situado no centro de Pitimbú e o outro que fica na zona rural, no assentamento Apaza. É um grupo grande e que possui jovens que querem continuar com este ofício. Na visita a Pitimbú também encontraram a mestre Maria José de Nascimento, a Zefinha, que ao longo de sua vida produziu o trançado de fibra de coco e passou os seus conhecimentos para as artesãs mais novas.

Sheila ainda contou que foi uma lição de vida conhecer a mestre Zefinha “uma mulher que criou os filhos com a venda do artesanato.”

Já em Alagoas, a visita de campo aconteceu em Piranhas, Marechal Deodoro e Pão de Açúcar.
Na cidade de Piranhas, às margens do Rio São Francisco, localiza-se a Cia dos Bordados Entremontes, onde 43 artesãs produzem o bordado redendê. O bordado é feito com os tecidos Panamá, Linho e Cambraia, pois são mais finos para bordar. O ofício foi passado para as artesãs pelas mãos da mestre Iracema e a associação existe há 11 anos.

Ainda a beira do Rio São Francisco se localiza a comunidade de Ilha do Ferro, no município de Pão de Açúcar e é lá que está a Cooperativa dos Artesãos de Ilha do Ferro – Art Ilha, onde as artesãs fazem o bordado Boa-Noite. Hoje há 22 artesãs trabalhando na cooperativa e também são participantes ativas das feiras da região. “A Dra. Ruth Cardoso conseguiu um local para a formação da cooperativa e também fez doações de linhas”, disse a artesã Iraci, que contou com orgulho ter conhecido a Dra. Ruth Cardoso. Sheila disse que em todas as comunidades em que visitou sentiu que as artesãs tem um grande prazer em produzir o artesanato e que mesmo com poucas vendas, elas não têm a intenção de parar de produzir e passar adiante este saber-fazer.

A última comunidade a ser visitada foi Marechal Deodoro, que fica próxima a capital Maceió. Lá está localizada a Casa do Labirinto, que fica dentro do prédio da Secretaria da Cultura. A artesã Maria Cícera contou que há 12 anos o ArteSol esteve lá e com a ajuda da mestre Meire fizeram o resgate da técnica do bordado labirinto. Antes da formação da Casa do Labirinto havia a cooperativa das bordadeiras que nasceu em 1967.  Hoje há poucas artesãs que produzem o bordado no local. “O bordado labirinto é muito demorado, tem peça que leva quatro meses para produzir”, disse a artesã.  Este é um dos motivos que as artesãs preferem produzir a renda filé, que é de mais fácil elaboração. O bordado labirinto é feito sempre por encomenda. As artesãs mais antigas produzem o bordado labirinto, já as mais novas preferem produzir o filé.

Um dos pontos destacados por Sheila é que as artesãs com idade mais avançada continuam a produzir o artesanato de suas casas, e também continuam com o desejo de passar adiante este saber para as mais novas.

Foto ArteSol: Alto do Moura – PE

Em visita as feiras e espaços expositivos, também encontraram alguns grupos como o de São Sebastião, o qual o ArteSol realizou projeto com a associação entre os anos de 2002 e 2003. Hoje o grupo tem 32 artesãs que produzem a renda de bilro. A Prefeitura local e o grupo de São Sebastião criaram um projeto dentro de uma escola, onde crianças acima de 10 anos podem aprender o saber-fazer da renda de bilro. Já há 10 meninas aprendendo este ofício que é passado por Julia dos Santos, professora e também artesã do grupo. Julia aprendeu a renda com a família de seu pai, no caso sua avó e falou com muita emoção e orgulho de poder passar este ofício para suas alunas. Hoje a prefeitura tem esta atividade na grade escolar para os jovens que quiserem aprender este valioso saber.

Em Pernambuco, o grupo visitou a comunidade de Alto do Moura, em Caruaru. Lá se encontra o Museu do Mestre Vitalino e uma das cerâmicas mais expressivas do Brasil. Único artista vivo da geração de mestre Vitalino, o Sr. Manuel Eudócio Rodrigues está com 81 anos e começou a fazer peças de cerâmica para brincar, quando pequeno. O Alto do Moura é reconhecido pela UNESCO como o maior centro de arte figurativa das Américas.

Veja fotos da Viagem de Campo: clique aqui.

Dificuldades e inspirações

Após esta viagem de campo podemos ressaltar alguns fatos que nos fazem pensar em novas ações e projetos para estes grupos de artesãos:

Podemos destacar como um dos principais dados desse estudo que a questão da comercialização dos produtos ainda continua sendo um dos principais problemas. Os grupos apontam queda significativa nas vendas, ressaltando que as mesmas acontecem por conta das feiras. Isso significa que o apoio dos governos locais e mesmo do governo federal para a promoção de feiras é fundamental e deve contemplar uma gama maior de grupos participantes. Os grupos sentem que houve um desaquecimento no apoio de ONGs e mesmo de programas governamentais ao segmento do artesanato nos últimos anos.

Por outro lado, é inspirador constatar que mesmo com poucas vendas, as artesãs continuam produzindo, porque esse fazer é parte de suas vidas, da cultural local e é por essa identidade, por esse bem cultural que se faz necessário não perder a atividade artesanal brasileira de vista. Há uma ameaça em movimento em alguns grupos de artesãos, pois atualmente não é tão comum  o interesse dos jovens pelo fazer artesanal, portanto, com o envelhecimento das artesãs (os), os grupos estão diminuindo e esse repasse do saber corre risco de desaparecer.

Notou-se que as associações visitadas estão relativamente organizadas, com procedimentos estruturados de controles, produção e relacionamento interpessoal. A maior dificuldade está nos aspectos de comunicação e divulgação de seus trabalhos, o que dificulta o acesso das próprias associações ao mercado. Nesse sentido as associações ficam passivas no processo, esperando um convite para feira ou que clientes antigos continuem fazendo pedidos. Não há computadores nas sedes, o acesso à internet é limitado e as artesãs têm o foco na produção que é o que gostam e sabem fazer. A visão empreendedora por mais que haja capacitações nesse sentido ainda é um ponto  pouco desenvolvido.

Outro importante aspecto discutido com as artesãs foi a compreensão do mercado quanto a atividade artesanal de tradição. Uma toalha de renda leva 4 meses para ser produzida, ou seja, é um processo complexo. Um pote de barro também tem o seu tempo de secagem, há perdas na queima, ou seja, trabalhar com o artesanto é trabalhar também no ritmo da natureza e esse é um problema quando estamos falando da lógica do mercado.

Devido a complexidade e também pela beleza única das peças, o artesanato de tradição  não pode ser “baratinho”, essa visão também exigida pelo mercado é algo que desqualifica o artesanato brasileiro e esse é um foco fundamental a ser trabalhado. Temos que pensar que a produção não é “limitada” e sim “exclusiva”, pois limitada nos lembra “deficiência” e exclusivo nos remete a algo “especial”. O artesanato brasileiro deve ser visto como algo exclusivo e muito especial.

Quanto aos espaços de exposição e venda do artesanato o destaque fica para o Centro de Artesanato de Pernambuco, um espaço arejado, bem estruturado, com produtos diversificados e de qualidade. Um espaço que dimensiona o artesanato como um produto especial, com valor cultural e social agregado.

Podemos dizer que foi uma viagem especial e agora ArteSol e Iguatemi  amadurecem novas ideias que visam dar continuidade as ações de promoção e salvaguarda do artesanato brasileiro e acima de tudo para proporcionar condições dignas de vida aos artesãos e suas famílias.

Texto: Ananda Moraes, Josiane Masson e Sheila Maiorali (Equipe ArteSol)

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