Se uma pessoa despertasse de um coma, após 20 anos, encontraria um Brasil totalmente transformado: crescimento forte; redução da pobreza; emergência do bem-estar social e surgimento de uma considerável classe C que redesenha a pirâmide social brasileira. Foi assim que a professora visitante da Cátedra Jorge Paulo Lemann para Estudos do Brasil da Universidade de Harvard, Frances Hagopian, iniciou sua palestra no Centro Ruth Cardoso, na última quinta-feira (29). Após a palestra “Partidos programáticos, democracia participativa e mudança na política social do Brasil”, Hagopian contou com a interlocução do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, num debate moderado pelo cientista político Eduardo Graeff.

Diante de um auditório lotado, Hagopian falou sobre as mudanças na democracia brasileira nos últimos 15 anos, o crescimento econômico e a adoção de novas políticas sociais no combate à pobreza e a fome no País. “Para uma geração de cientistas sociais americanos – a minha geração -, Ruth e Fernando Henrique Cardoso têm um papel proeminente na transformação da sociedade: ele, com sua atuação no Governo, e ela, a partir de um projeto próprio de transformação da sociedade”, ressaltou a pesquisadora.

Clientelismo x corporativismo
Para Hagopian as melhorias na política e no bem-estar social se devem, principalmente, às novas lideranças criadas a partir de mudanças na governança e na concorrência entre alguns partidos, além da organização efetiva da sociedade civil para exigir melhores condições. “Juntos, estes fatores tornaram o clientelismo uma estratégia eleitoral menos eficaz e viável, transformando um ciclo vicioso em um círculo virtuoso.”

Aberto ao debate, o assunto gerou opiniões diversas na plateia. “Muitos achavam que não havia possibilidades de mudança para o Brasil e que o País estava condenado ao fracasso”, explicou a cientista. Ao ser questionada sobre a exposição de um cenário diferente da realidade no País, Hagopian ainda completou: “Hoje em dia o Brasil é visto no mundo todo como uma sociedade de sucesso, como um País que está crescendo em bases sensatas. Sei que ainda há muitas questões a serem melhoradas, mas as mudanças positivas que aconteceram até aqui são reais e efetivas.”

Para o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso, convém chamar a atenção para uma ampla organização da sociedade, conquistada por meio da democracia. FHC alertou para o risco da substituição do antigo clientelismo por um corporativismo muito forte, que paralisa medidas de interesse geral.

“O problema de ambos é que eles dificultam que o Estado funcione como deve e que olhe o interesse conjunto, passando a ser segmentado. E isso está crescendo no Brasil. Temos que ter cautela quanto às consequências futuras dessas transformações. A sociedade aprendeu e agora tem seus instrumentos – internet, redes sociais. Eu confiaria mais na capacidade de pressão difusa da sociedade do que na iluminação dada pelos partidos políticos, que às vezes ainda é meio fraquinha”, apostou o ex-presidente.

Fonte: Frances Hagopian e Fernando Henrique Cardoso discutiram a democracia participativa e os avanços da política social brasileira / Priscila Pires e Carolina Gutierrez (Assessoria de Comunicação | Alfasol)

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