24.11.2011

No último dia 21 de outubro foi lançado o livro Ruth Cardoso: obra reunida no Centro Ruth Cardoso, onde familiares, amigos, autoridades públicas, ex-alunos e o público em geral celebraram a obra da antropóloga.

Com a presença da organizadora Teresa Pires do Rio Caldeira, ex-aluna de Ruth Cardoso e docente na Universidade de Berkeley, EUA, e das co-autoras Esther Hamburger, Eunice Durham e Helena Sampaio, o lançamento contou com depoimentos e lembranças emocionadas sobre a vida e obra de Ruth Cardoso.

Ruth Cardoso: obra reunida desvela, assim, tais memórias: a base intelectual por trás da ação inovadora de Ruth Cardoso. Publicado pela Editora Mameluco e organizado por o livro reúne textos acadêmicos de Ruth Cardoso, distribuídos em oito partes temáticas cronologicamente organizadas.

Além de uma amostra dos grandes pensamentos e mais de meio século de produção acadêmica como antropóloga, os 41 textos reunidos demonstram, sobretudo, o modo moderno pelo qual a autora entendia a sociedade e a política social do país.

“Ruth Cardoso sempre esteve pessoal e politicamente atenta às dinâmicas de gênero. Ela nunca se pensou como uma política e jamais quis assumir cargos políticos. No entanto, para Ruth, o trabalho intelectual não se dissociava da intervenção no debate político, no qual se engajava como antropóloga”, destaca Teresa Caldeira na apresentação do livro – Ruth Corrêa Leite Cardoso: a intelectual e seu tempo.

O livro é resultado de três anos de pesquisas para a seleção dos textos, sendo o mais antigo datado de 1959 e o mais novo de 2004. Segundo Jorge Caldeira, sociólogo, historiador e sócio-fundador da Mameluco, a maioria dos textos compilados foi produzida nas décadas de 1970 e 1980. Na ocasião da morte de Ruth Cardoso, os escritos ficaram aos cuidados de Jorge, que digitalizou todo o acervo da antropóloga. O trabalho resultou na descoberta de diversos cadernos que traziam anotações de suas pesquisas de campo. Teresa Caldeira organizou os textos, separando versões preliminares das finais. Segundo Teresa, como o objetivo do livro era justamente apresentar o pensamento crítico de Ruth, não estão contempladas as produções da época em que a antropóloga ocupou o posto de primeira-dama.

Ruth Cardoso: ideia e ação social

O primeiro capítulo – “Migrantes japoneses: integração e mudança” – reúne um conjunto de três textos parte de um estudo pioneiro e original sobre a imigração japonesa no Brasil, também tema da tese de doutorado (1972) de Ruth. O capítulo 2 – ”A aventura antropológica I – buscas” – traz cinco artigos, dos quais três foram escritos em parceria com a antropóloga e cientista política Eunice Ribeiro Durham, sobre o trabalho de campo e as investigações sobre subcultura, urbanidade, participação social, migração etc.

A cumplicidade entre Ruth e Eunice pode ser claramente percebida no segundo texto do livro, em um depoimento tocante de Eunice Durham. Em “Ruth Corrêa Leite Cardoso: minha parceira intelectual”, Eunice relata como se deu a formação e bases das ciências sociais no Brasil. A amiga Ruth, “que conhecia o marxismo bem melhor que eu”, realizou – com sucesso, segundo Eunice – “o casamento da sociologia com a ciência política.”

“Ruth fez um trabalho maravilhoso ao estudar problemas político-antropológicos não falsificando conceitos da antropologia nem conceitos da ciência política. Nós utilizamos conceitos como movimentos sociais, como ideologia, representações, participação social. Esse casamento foi extremamente frutífero”, explicou Eunice, durante o evento de lançamento do livro.

Da mesma forma, Teresa Caldeira, completou: “Todo mundo pensa na Ruth e na Eunice, com razão, como as grandes fundadoras da antropologia urbana moderna do Brasil. Mas a maior parte da produção de Ruth não foi sobre a antropologia urbana, mas sobre a ação política. Foi quando o casamento dela com a ciência política ficou muito claro. Ela estava interessada em entender quais eram os mecanismos simbólicos que formavam a ação política.”

Os capítulos seguintes, (3) “Favelas: através dos fragmentos”; (4) “A aventura antropológica II – críticas”; (5) “Movimentos sociais, Estado e democracia”; (6) “Mulheres, direitos e democracia”; (7) “Mídia e juventude”; e (8) “Pobreza, políticas sociais e o terceiro setor”, expõem os temas e reflexões que pontuaram a vida intelectual de Ruth.

O livro ainda brinda o leitor com seis textos do livro são inéditos em português, produzidos no período de exílio no Chile e na França.

Para Teresa, ao compilar décadas de estudo e dedicação, o livro revela ao leitor uma coerência incrível na maneira pela qual Ruth Cardoso foi construindo e transformando seus interesses, pensamentos e contribuição intelectual. “Quando você lê tudo, alguns fatores ficam bem claros: a atitude moderna, o jeito de ser crítico e tomar tudo como objeto de pensamento e reflexão. Ruth não conseguia ser dogmática com teorias. Ela era crítica, antes de mais nada.  Se pegava uma coisa para ler, imediatamente criava uma distância, uma crítica, colocava em comparação com algo. Isso está expresso nos textos dela. Seu pensamento estava sempre em movimento. Além disso, Ruth tinha um estilo de ser intelectual absolutamente peculiar. Ela acreditava que o trabalho intelectual é um trabalho coletivo. Por isso ela tem tantas co-autoras, por isso ela sempre trabalhou em equipe. E ela nos fez todos antropólogos”, afirmou Teresa.

Texto: Carolina Gutierrez | AlfaSol
Fotos: Ney Messi

 

Como Apoiar?

×