20.01.2012

O designer Marcelo Rosenbaum criou o projeto de pinturas de casas na periferia de São Paulo, no bairro de Capão Redondo. O projeto que deu certo chega em sua segunda edição, que acontece na Chapada Araripe, uma das regiões com menor índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil, localizado no Estado do Piauí.

O artesanato é um dos principais trabalhos da população da Chapada do Araripe, no Piauí (Foto: Tatiana Cardeal/Divulgação)

O objetivo de Marcelo Rosenbaum com este projeto é transformar a realidade de uma pequena comunidade que vive de artesanato. “É uma comunidade que se pode dizer que está no século retrasado. Não tem saneamento básico, falta água, crianças trabalham na roça, mas ao mesmo tempo tem pessoas incríveis, de talento”, disse Marcelo a Época.

O projeto funcionará em duas frentes: designers vão trabalhar em conjunto com a população local para valorizar o trabalho de artesanato e gerar renda, e estudantes vão tentar resolver alguns dos problemas da região por meio de técnicas de permacultura, que consiste em construir usando materiais existentes no local em que a construção será erguida.

Marcelo Rosenbaum: “queremos fazer o artesanato brasileiro entrar nas casas das pessoas”.

A ideia do projeto é ajudar a comunidade a criar um produto, aliar as técnicas de artesanato e a visão dos designers, para ser exposto em Milão (Itália). O projeto prevê a vendas destes objetos  com valor agregado nas principais regiões do país, assim gerará renda e desenvolvimento a comunidade de Chapada Araripe.  Este projeto tem apoio do Sebrae Piauí , que dará suporte na qualificação da população e na continuidade do programa.

Entrevista feita por  Bruno Calixto da Revista Época.

ÉPOCA – O que é o projeto “A Gente Transforma”?
Rosenbaum –
É um projeto que resume tudo o que eu acredito, e é também um momento de amadurecimento do nosso trabalho. Faz alguns anos que estamos trabalhando com comunidades, ONGs, fazendo sempre uma ponte para levar qualificação e um outro olhar para comunidades. Queríamos dedicar nosso tempo e talento para gerar renda para as comunidades. E foi assim que surgiu o projeto “A Gente Transforma”.

ÉPOCA – Que está na segunda edição, certo? Como foi a primeira edição?
Rosenbaum –
A primeira aconteceu no Parque Santo Antonio, no Capão Redondo, ano passado. Houve capacitação e criação de produto, mas o pilar, o mote da mobilização foi a pintura das casas do entorno do campo de futebol, pensando em conectar e empoderar a comunidade. Era uma comunidade com vários problemas, do saneamento básico ao tráfico, a realidade de uma favela de metrópole brasileira. E esse projeto teve um bom retorno, muito resultado, inclusive para a equipe, para os estudantes que participaram e aprenderam muito com a comunidade. Com isso, o Ministério da Integração Nacional nos convidou a expandir o projeto em outras áreas. Nós paramos para olhar as áreas de interesse do ministério, e logo nos chamou a atenção a Chapada do Araripe. A chapada tem um dos piores índices de desenvolvimento humano do país, mas é também um lugar cheio de talentos, com recursos para o artesanato. O artesanato que existe hoje é produzido por eles para eles mesmos, um consumo utilitário. Por exemplo, fazem cópias de chinelo Havaiana com borracha de pneu. Só que fazer uma borracha de pneu se transformar em uma sandália é uma escultura, um talento gigante. Por que não reaproveitar esse talento e criar um outro produto, que possa ser exportado, usado em grandes centros, comercializado, gerar renda? Outro exemplo é o trabalho com a palha de carnaúba, matéria-prima riquíssima, que eles fazem para vender na feira livre. Esse produto, com o olhar de pessoas que conhecem o mercado, pode ganhar um novo valor, e de repente esse produto está na Oscar Freire, Na Visconde de Pirajá, na praia de Boa Viagem, ou até em Milão.

ÉPOCA – Vocês visitaram a comunidade?
Rosenbaum –
Nós conhecemos a região. Fizemos uma parceria com o Sebrae do Piauí, que tem um levantamento de comunidades que teriam potencial de artesanato, com produtos da região. A ideia é Chapada do Araripe mesmo, Piauí. Essa região pega a divisa de Pernambuco, Ceará e Piauí. Fizemos uma viagem inicial em várias comunidades, e a comunidade que teria mais condição de receber o projeto era Varzea Queimada. É uma comunidade que se pode dizer que está no século retrasado. Não tem saneamento básico, falta água, crianças trabalham na roça, mas ao mesmo tempo tem pessoas incríveis, de talento, tem matéria-prima. Acho que com visão, com um trabalho de troca de experiências, informações, integração, a gente consegue levar desenvolvimento para lá. Esse é o nosso grande desafio.

ÉPOCA – E vai ser criado um produto na comunidade?
Rosenbaum –
Isso. Vamos levar dois grupos de design, um é liderado por uma designer carioca, Amanda Bernardes, que já trabalha com esse movimento de levar inclusão e auto-estima pelo design. Vamos levar também dois designers portugueses, da Universidade de Lisboa, que trabalham com o resgate da cultura popular portuguesa. Esse produto que vamos criar, será levado para Milão. O ponto final do projeto é fazer o artesanato ser valorizado como um produto de design. Estar em Milão é uma forma de valorizar esse produto, para que volte ao Brasil com uma posição de destaque. Será o olhar, a orientação dos designers, aliado ao saber e à tradição da comunidade. Na outra parte do projeto estamos selecionando 15 estudantes para pôr a mão na massa e trabalhar com a técnica de permacultura, uma técnica de construção com a própria natureza dos materiais que existem no local. E vamos tentar resolver alguns dos problemas que existem, por exemplo de saneamento básico, iluminação, levar um pouco de conforto e bem-estar para as pessoas da comunidade.

ÉPOCA – Quando o projeto começa?
Rosenbaum –
Já começou. Vamos para lá no dia 1º de fevereiro e, na primeira parte ficamos até o dia 15 de fevereiro. Mas mesmo depois disso o projeto terá continuidade, com o apoio do Sebrae no trabalho de capacitação e produção. Estamos nos conectando também com um grupo de venda online, para fazer a distribuição dos produtos. E trabalhar com a divulgação, levando o produto pra exposições, para Milão, fazendo contato com decoradores para o artesanato entrar como um elemento de valorização para a decoração brasileira, especialmente para as pessoas que estão comprando, decorando casas.

ÉPOCA – Vocês já fazem planos para expandir o projeto para outras comunidades da região?
Rosenbaum
– Eu não quero parar mais de fazer isso! Mas precisamos de apoio, até do governo. Eu vejo um grande sucesso no projeto e, tendo sucesso, terá interesse de outros. Queremos continuar esse caminho: levar desenvolvimento para a comunidade, e fazer o artesanato entrar na decoração brasileira com o seu valor, e multiplicar isso com os estudantes. Estamos indo de coração aberto e vamos trabalhar com muito cuidado e com muito afinco.

Entrevista feita por ÉPOCA. Fonte original clique aqui.

Saiba mais sobre o projeto feito em São Paulo no bairro de Capão Redondo.

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