A equipe ArteSol visitou entre os dias 07, 08 e 09 de janeiro algumas associações/cooperativas e artesãos em Pernambuco e Maranhão para conhecer melhor o trabalho desenvolvido por eles e a história de vida de cada um.

Com o intuito de promover o trabalho artesanal destes artistas e apoiar a comercialização de uma forma indireta, onde o artesão aprende a desenvolver suas aptidões, a ArteSol tem se comprometido em estimular as vendas diretamente com os consumidores, por meio do projeto Rede ArteSol que tem o objetivo de salvaguardar as técnicas de tradição, estimular os artesãos a atuarem como protagonistas na valorização do seu ofício e fortalecer o movimento do comércio justo.

A visita aconteceu em grupos já capacitados pela ArteSol e seus antigos parceiros, como é o caso da Associação dos Mamulengeiros de Glória do Goitá, em Glória do Goitá/PE, como também por aqueles que a ArteSol conheceu em feiras de artesanato no ano de 2013.

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Mestre artesão Zé de Vina

A primeira visita foi à cidade de Glória do Goitá, localizada a 65 km de Recife, que é conhecida como o berço dos mamulengos. A Associação dos Mamulengeiros de Glória do Goitá tem sua sede no Museu do Mamulengo. Lá encontramos com os artesãos: Maurício Mamulengueiro, Edjane Maria Ferreira Lima (presidente da associação), Jacilene (tesoureira) e o mestre artesão Zé de Vina e sua esposa.

Entre os anos de 2002 e 2003, a ArteSol, juntamente com seus parceiros, desenvolveu o projeto Mamulengo – o Boneco Brasileiro, que teve como coordenador o pesquisador e bonequeiro Fernando Augusto Santos. O projeto tinha o foco no resgate do saber, na preservação e geração de renda para a comunidade, através de oficinas de repasse do saber do brinquedo mamulengo.  Zé Lopes, mestre artesão que trabalha com o teatro de mamulengo e na produção dos bonecos, participou da criação do Museu do Mamulengo de Glória do Goitá e também no projeto Mamulengo – o Boneco Brasileiro, ministrando oficinas de confecção de bonecos.

O Museu do Mamulengo tem sua sede instalada dentro do antigo mercado municipal da cidade. O espaço é aberto gratuitamente à visitação.

Hoje a associação é formada por 14 sócios, 10 deles se revezam para tomar conta do Museu do Mamulengo, onde preservam sua identidade com um acervo de bonecos e tordas (casinha do teatro de mamulengo) e também comercializam os brinquedos.

Um dos mestres mais antigos é Zé de Vina, um senhor de 74 anos, que nos contou sobre seu trabalho que começou aos 10 anos de idade. O aprendizado se deu por diversos mestres e foi aos 12 anos que fez sua primeira apresentação com o teatro de mamulengos. Seu Zé de Vina manipula e dá vida aos bonecos e ensinou muitos jovens da associação por meio de oficinas. Hoje, o artesão conta que trabalha mais com o teatro de mamulengo e apresenta-se no Sesi Bonecos do Mundo, em Pernambuco.

O teatro que possui diversos contos e seus personagens como: Catita, Catirina, Quitéria, Mateus, Simão, entre outros; também tem improvisações do cotidiano vivido pela comunidade.

A matéria prima utilizada na produção dos brinquedos é a madeira “mulungu”, uma árvore da região e que os artesãos conseguem na zona rural, quando a árvore morre. A madeira muito leve é de fácil manuseio e é cortada para que os rostos sejam esculpidos com faca. A vestimenta é feita com chita.

Os artesãos contaram que a comunidade não valoriza o trabalho artesanal do mamulengo e que as vendas não são expressivas na cidade, o comércio é mais forte em Recife e Rio de Janeiro, onde expõem os bonecos. O dinheiro da comercialização é uma renda extra para os artesãos.

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Miro dos Bonecos

À tarde seguimos até a cidade de Carpina, Pernambuco, para conhecer o artesão Ermírio José da Silva, conhecido como “Miro dos Bonecos”. Seu Miro fez seu primeiro boneco aos sete anos de idade, utilizando o cabo de uma vassoura. Nunca passou por capacitação, apenas observava outros artesãos trabalharem. Com muita criatividade o artesão produz mamulengos, ventríloquos, marionetes, entre outros bonecos de pequeno e grande porte, com a ajuda de cinco familiares, entre eles seus dois filhos.

Seu Miro não sabe dizer qual o valor da renda mensal vinda da venda do artesanato, mas é com esta renda que sustenta a família e paga a faculdade dos dois filhos. Também nos contou que tem o sonho de ter um espaço, onde possa dar oficinas de repasse do saber artesanal a crianças e adolescentes e quer realizar este sonho na sua cidade. O artesão participa de muitas feiras de artesanato a convite do Estado e já apresentou seu trabalho internacionalmente.

No dia seguinte visitamos o artesão João Dias Vilela Filho, filho do bonequeiro João Dias Vilela, que era conhecido por Julião das Máscaras. O repasse do saber veio pelo seu avô, que ensinou seu pai e então ensinou Julião e seus irmãos. Devido ao apelido dado ao seu pai, João é conhecido como Julião Filho.

As máscaras produzidas de papel machê por Julião Filho estão sempre espalhadas pelas ruas do Carnaval de Olinda. O artesão produz diversos tipos de máscaras como o galo, o urso e a burrinha, como também os bonecos gigantes do Carnaval. Os filhos de Julião nasceram brincando com as máscaras e quem sabe levarão o saber artesanal adiante, preservando a identidade cultural enraizada na família.

No mesmo dia visitamos Mestre Nado, que vive no bairro de Caixa D’Água, localizado na periferia de Olinda/PE. O mestre artesão que trabalha com o barro há mais de 50 anos dedica sua vida a produzir peças instrumentais de sopro e percussão, e a repassar o saber artesanal aos mais jovens em oficinas no seu ateliê. Com muita criatividade e sensibilidade, Mestre Nado descobriu formas de criar sons através de suas peças de barro e nos agraciou com uma pequena apresentação, que você pode assistir e ouvir aqui. Os filhos do ceramista ajudam na produção e no grupo musical “O Som do Barro”.

No dia 09 chegamos a Barreirinhas, localizada a mais ou menos quatro horas de distância de São Luís/MA, e porta para o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses. Organizadas na Cooperativa de Artesãs dos Lençóis Maranhenses – ArteCoop, vinte e cinco artesãs estão dividas em 12 povoados e trabalham com a fibra do buriti na produção de bolsas, esteiras, caixas, jogos americanos, entre outros itens artesanais. O artesanato com a fibra do buriti possui mais de 50 anos e as artesãs desfiam ele até ficar fino e fazem novelos com a linha para então começar a desenvolver o produto. Trabalham três tipos de pontos: macramê, malha de cofo e crochê de fibra. As cores em tons pastel são adquiridas de corantes naturais como o urucum, salsa, cebola e gengibre. Já as cores mais vibrantes são de corantes artificiais.

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ArteCoop

Visitamos a loja da cooperativa, no centro da cidade, onde a artesã Maria de Lourdes nos recebeu e contou histórias da tradição artesanal. O grupo existe há muito tempo, mas foi formalizado em 2006 com a fundação da ArteCoop. A Cooperativa faz parte do Programa Talentos do Brasil, iniciativa do Governo Federal e executado pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário, que objetiva a geração de trabalho e renda. Todo o ano uma coleção é produzida em conjunto com um designer, que leva seus conhecimentos aos artesãos. Também nos contaram que a comunidade não adquire os produtos e a maioria da venda é feita para os turistas.

Bastante comum na região, a palmeira de buriti é a matéria prima utilizada e é de onde retiram o olho da fibra de buriti e produzem o artesanato. O grupo é preocupado com a preservação da palmeira e as artesãs contaram que retiram o olho do buriti a cada três meses. Pensando no cuidado com o meio ambiente, as artesãs fazem mudas da árvore e distribuem para a comunidade plantar e também possuem plantios da palmeira.

Após a visita a loja da associação, a artesã Maria de Lourdes, nos levou a casa da artesã Maria Ducarmo Silva para podermos entender o processo do trançado com a fibra de buriti.

O trabalho das artesãs está exposto na Casa de Nhozinho, no Centro Histórico de São Luís/MA.  A Cooperativa também teve a ajuda da Promoart com condições de trabalho, máquinas de costura, panelas e fogões de barro.

 Veja o Álbum de fotos: Viagem de Campo | Pernambuco e Maranhão | Janeiro 2014

 

Visitas a centros de artesanato:

Centro de Artesanato de Pernambuco no Recife: Localizado ao lado do Marco Zero, no antigo armazém 11, no Bairro do Recife, o Centro de Artesanato proporciona um espaço de 2.511m² onde funciona uma loja, um espaço gastronômico, assim como uma galeria para exposição, auditório e o setor administrativo da unidade. Com foco na arte popular e no artesanato tradicional, já foram comercializadas 106 mil peças artesanais de todas as regiões de Pernambuco.

(Fonte: http://www.artesanatodepernambuco.pe.gov.br/?page_id=9)

Casa de Cultura, antiga Casa de Detenção do Recife e que é o maior Centro da Cultura e Arte Pernambucana, que abriga artesanato de todo o Estado. http://www.casadaculturape.com.br/aCasa.php

Mercado São José: localizado no bairro de São José, inaugurado em 1875 é o mais antigo mercado público do Brasil.

Sobrado Sete: loja de artesanato localizada em Olinda, onde há peças de artesãos como Manuel Eudocio, Dona Zezinha, Marliete, entre outros mestres.

Caso tenha interesse em entrar em contato com algum artesão ou associação/cooperativa entre em contato: institucional@artesol.org  |  (11) 3082.8681

 

Texto por Ananda Moraes | Comunicação e Difusão
Revisado por Renata Silveira | CDN Comunicação Corporativa

Crédito das fotos: Ananda Moraes

 

Divulgado em 10.02.2014

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