Campo Alegre

Em 1999 Marina Mello e Sousa e eu fomos designadas pelo Artesol –Artesanato Solidário a verificar como se encontravam as comunidades de Campo Alegre e Coqueiro Campo, ambas situadas nas proximidades de Turmalina, médio Jequitinhonha, estado de Minas Gerais.

Tratava-se de diagnosticar a situação das comunidades sob diferentes focos e isso era um potente trunfo que trazíamos na bagagem, um olhar aberto ao ambiente como um todo, sem o recorte do artesanato especificamente, ainda que fosse nossa missão gerar nas localidades melhores condições de distribuição e comercialização da produção artesanal tradicional da região.

Se conseguíssemos ampliar a imagem das inúmeras peças de artesanato em barro com pigmentos naturais, tradição sem tempo de mensuração, uma vez que é parte da história da vida destas comunidades; e se conseguíssemos abrir um canal de comunicação entre o artesanato e o público-alvo, teríamos contemplado a meta de gerar renda nas comunidades através do próprio trabalho.

É simples explicar a natureza perene do barro na região. Numa área de solo pouco fértil, clima com temperaturas altas no verão e no inverno, com acesso difícil à água,e terra seca. A solução tinha de ser criativa: transformar a terra do barranco com um pouco de água, secar e fazer um jarro capaz de armazenar água. Nasce o jarro. Objeto transportável aos braços humanos.

Do jarro as assinaturas com marcas que pudessem diferenciar cada um. Personalizando com aquilo que as mulheres – em sua maioria – viam em seu entorno. Sempre experimentando as “terras” e encontrando cores, começaram a “olear” com o auxílio de penas de galinha e sabugos de milho.

Neste processo de retroalimentação da natureza, o animal de criação que alimenta proporciona o “pincel de penas”, a agricultura na sobra do sabugo um potente “alisador” da terra então já configurada em barro.

A aplicação dos elementos decorativos florais em tonalidades diferentes – todas extraídas da terra – são composições fazem a marca do Jequitinhonha.

As cerca de 1 mil peças cerâmicas originais expostas na Casa da Cultura de Minas Novas, registro que chega aos anos 1950, configuram a autenticidade e riqueza desta arte popular.

A forma matricial jarro se desdobra em outros objetos utilitários como panelas e moringas. Peças que manuseadas pelas mãos criativas das artesãs dão origem a bonecas e a um grande conjunto de novas peças salvaguardando a técnica primordial.

A equipe técnica de Consultoria, em diálogo permanente com a Coordenação do Artesanato Solidário, compreendeu que problemas estruturais de baixa qualidade relacionados à infraestrutura se sobressaíam como entrave no quesito comunicação além dos limites territoriais do Vale do Jequitinhonha.

Havia que se buscar água. Construir cisternas, permitir acesso e proximidade a estas comunidades e beneficiar a comunicação.

Ir atrás de uma linha de telefone comum aos moradores era essencial para que se pudesse começar a pensar em romper com as fronteiras básicas.

Foram inúmeras as reuniões com as mulheres dessas comunidades. Sempre dentro de Capelas ou Igrejas, lugares onde eram permitidos os contatos e onde havia espaço para um número expressivo de participantes.

Recordo-me que quando chegávamos à localidade pela manhã – sempre com agendamento prévio – uma moradora soltava um rojão para o alto, o forte ruído chegava à casa das demais mulheres. Tinha sido dado o sinal de que estávamos por lá e a reunião começaria em seguida.

O processo de amadurecimento e fortalecimento do grupo foi se dando pouco a pouco e por aí se passaram 12 meses de trabalho.

As peças artesanais foram gradualmente sendo estudadas para que pudesse fosse feito o registro capaz de fornecer ingredientes para a realização de um Catálogo completo com todas as variações ali encontradas. Cada peça foi medida e pesada. Nunca havia sido feito um trabalho tão detalhado, e nem as próprias artesãs tinham conhecimento de tamanho ou peso de suas peças autorais. Essas informações estruturais em nada intervinham no objeto em si, no entanto aferia a eles a rara oportunidade da requalificação.

Para pesar as peças tivemos que buscar emprestado no açougue local a balança de carne – os improvisos de campo!

Moringas – Coqueiro Campo

Cada foto exigia uma legenda, todo o cuidado para evitar troca de autoria – as artesãs estavam ali o tempo todo participando ativamente e só desta forma seria possível. Os pesos, as medidas toda esta empreitada foi realizada por mim e em seguida transmitida a Designer Gráfica Cláudia Zarvos que com este material organizou e criou os catálogos, uma para cada comunidade. Campo Alegre e Coqueiro Campo recebiam seus repertórios devidamente organizados.

A linha de telefone chegou e em seguida o fax.

Um mundo novo se abria e o Catálogo como linguagem e possibilidade de comunicação à distância.

Embalagens em parceria com a Klabin e suas imensas bobinas de papelão ondulado começaram a garantir que as peças não quebrassem no transporte, que começava no ônibus ou através dos Correios.

Tive a chance de acompanhar uma equipe da Universidade de São Carlos Centro Multidisciplinar para Desenvolvimento de Materiais Cerâmicos (CMDMC) sob a orientação do Professor Dr. Elson Longo.

O desafio era estudar o processo de queima das peças. Identificou-se que havia muitas perdas durante a queima, as peças saiam do forno rachadas.

Passamos uma noite inteira ao lado do forno de queima, o tradicional em forma de oca indígena.

Para as mulheres, naquele tempo havia um nome genérico para peças de barro e era “panela”. Como acharam meio estranhos aqueles imensos termômetros sendo a cada hora mensurados soltaram a frase: “Eles estão medindo a febre das panelas”. Posteriormente soube que o Professor se apropriou desta frase antológica e adotou como título do projeto.

Como complementação a todo este conjunto integrado de ações conseguiu-se dobrar os espaços onde se instalavam as Associações. Novas instalações, grandes mesas, bancos e prateleiras permitiram mais uma vez potencializar o artesanato local. Cada artesão com seu lugar de exposição.

Em janeiro de 2014 tive a oportunidade de retornar a estas duas comunidades numa nova missão, levar grupos interessados em conhecer in loco o artesanato, as artesãs, suas tradições, hábitos de vida. Vivenciar por seis dias completos, hospedados nas casas das artesãs convivendo diretamente com as famílias locais e em paralelo experimentar o processo de fazer, desde a extração do barro do barranco até o fogo final.

Para minha grata surpresa encontro as instalações realizadas em 1999 impecáveis. Limpas, conservadas, pintadas e repleta de novas imagens e peças artesanais. Nas duas comunidades, Campo Alegre e Coqueiro Campo, o número de artesãs associadas chega hoje a cerca de 200 mulheres.

Quando perguntei o motivo para este aumento – na década de 1999 não chegavam a 80 no total – escutei: “as mulheres se entusiasmaram a partir do ano 2000”.

Estava dada a resposta que precisávamos ouvir.

Já não estávamos mais lá e conseguimos que as comunidades assumissem a condução da continuidade a maneira delas. E deu certo.

Bonecas variadas, peças com inúmeros detalhamentos, casas com jardins e muita água. Telefone celular, crianças com tablets, televisões de plasma. Carros. Encontrei ali uma qualidade de vida invejável.

Não se pode dizer que estão abastados financeiramente, e nem sei se esta é a grande busca, mas pude constatar que estão felizes.

Saí de lá com lágrimas nos olhos. E me lembrei que quando foram inauguradas as novas instalações das associações fui convidada a falar. A fazer um discurso, mas não pude diante de tanta emoção e chorei diante dos moradores. Foi quando a Deusani me segurou pelo braço e disse “seu silêncio foi lindo”.

 

Por Maria Sonia Madureira de Pinho.

Arte-Educadora com Especialização em Gestão de Patrimônio Histórico e Cultural.

Vale das Videiras, 16 de junho de 2014.

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