“Living Heritage is Our Future: Global ICH Cases and Practices” (em tradução livre: “Patrimônio Vivo é Nosso Futuro: Estudos de Casos e Práticas dos Membros ICH) é a mais recente publicação do Inter-City Intangible Cultural Cooperation Network (ICCN), uma organização não governamental e sem fins lucrativos internacional credenciada  pela UNESCO.

 

A ICCN é  constituída por meio da cooperação entre autoridades locais e demais agentes em diversos locais do mundo com o propósito de preservar e promover o Patrimônio Cultural Intangível em escala global.

O livro é uma coleção de referências de estudos de caso para auxiliar leitores, pesquisadores, profissionais do setor cultural e desenvolvedores de políticas. Oferece um profundo olhar retrospectivo de como o patrimônio cultural vivo pode ser transmitido de geração para geração para que a história e o espírito humano possam ser escritos e vividos pelas gerações futuras.

A ArteSol fica orgulhosa por participar desta seleção composta por estudos de caso de 16 dos 39 membros que compõem o ICCN e que documentam, promovem e salvaguardam o Patrimônio Cultural Imaterial.

 

A publicação é inteira em inglês e você pode baixar em duas versões: apenas com o trecho da ArteSol ou completa (quando abrir a nova janela, clique em “fazer download”).

Confira a seguir o capítulo sobre a ArteSol em português:

 

“Tecendo” Redes para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial

 Por Antonio Augusto Arantes e Josiane Masson

Quem somos

 

Organização social não governamental criada em 1998 com o objetivo de contribuir para a salvaguarda e o desenvolvimento do artesanato de tradição em localidades brasileiras com baixo índice de desenvolvimento humano. Com o apoio de diversos parceiros, ArteSol desenvolveu cerca de 100 projetos em 17 dos 26 Estados brasileiros. Esses projetos têm beneficiado aproximadamente 5.000 artesãos e suas famílias, produtores de cerâmica, tecelagem, renda e bordados, escultura em madeira e em argila, instrumentos musicais e brinquedos entre outros artefatos confeccionados principalmente por mulheres.

 

 “Tecendo” Redes para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial

 

O patrimônio cultural imaterial de modo geral, e o artesanato em particular, são recursos de significação especial em termos da história, das visões de mundo e da organização social de seus praticantes e detentores. São recursos potencialmente disponíveis para a maioria, senão para todos os integrantes das comunidades culturais, respeitadas as diferenças de gênero, idade e outras formas de diferenciação social, que são críticas no que diz respeito à sua prática e transmissão. Por essa razão, eles são utilizados por essas comunidades e sua salvaguarda e desenvolvimento sustentável podem contribuir decisivamente para o aumento da renda familiar, o fortalecimento da autoestima e a promoção do acesso à direitos de cidadania.

 

Inicialmente, ArteSol identificou núcleos produtores de artesanato de tradição que se encontravam em situação de pobreza. Buscou compreender o modo de vida dessas pessoas, entender de que forma essa atividade participava da vida social e do orçamento familiar, o que significava para seus praticantes e para o público em geral. Planejou ações que contribuíssem para a salvaguarda desse saber-fazer, inclusive sua recuperação, fortalecimento e desenvolvimento. Nessa etapa, as principais metas foram contribuir para o autoconhecimento dessas comunidades, valorizar o seu saber-fazer, auxiliar na formação de associações, colaborar no redesenho de produtos – se necessário – respeitando o gosto e as técnicas tradicionais, contribuir para a formação de preços e o estabelecimento de relações tão diretas quanto possível com o mercado.

 

 

Tecnologia social

ArteSol desenvolveu métodos de tecnologia social através do contato próximo e respeitoso com os artesãos, guiada pela pesquisa antropológica e com o apoio de diversas parcerias técnicas construídas ao longo de sua trajetória. Essa tecnologia foi orientada pelos seguintes princípios de ação:

 

 

Empowerment of the artisans

A solidariedade – e não a caridade – é um modo eficiente de combater a pobreza e a exclusão social.

Os artesãos são os protagonistas de suas atividades; eles devem estar no centro dos processos de tomada de decisão.

Empowerment depende da formação de associações e parcerias.

Fortalecimento do respeito aos conhecimentos e aos valores estéticos tradicionais.

A transmissão de valores e de knowhow depende do diálogo e do bom entendimento entre mestres e aprendizes, o que implica em incluir criativamente as realidades da vida contemporânea.

Os agentes econômicos e o público devem conhecer os sentidos e significados que os artefatos e performances tradicionais possuem para os seus detentores e praticantes, assim como sua contribuição para a criatividade e a diversidade cultural.

O diálogo entre conhecimentos artísticos, acadêmicos e tradicionais e a colaboração entre especialistas desses três universos contribuem para se enfrentar os desafios à sobrevivência do artesanato de tradição e do patrimônio cultural intangível em geral.

Promoção do desenvolvimento sustentável

Ações e planos de salvaguarda devem incluir a problemática da sustentabilidade dos recursos naturais necessários à continuidade do artesanato e das práticas culturais tradicionais de modo geral.

Mudanças no artesanato de tradição devem observar os limites e interdições estabelecidos pela organização social e pela visão de mundo de seus praticantes e detentores.

Estabelecimento de práticas do comércio justo.

Luta contra o trabalho infantil e desigualdade de gênero.

Transparência e accountability na gestão da produção e das vendas.

Preço justo e estímulo a negociações diretas entre produtores e consumidores

 

As ações são articuladas da seguinte maneira :

 

A tecnologia social desenvolvida pela Artesol contribuiu efetivamente para a salvaguarda de expressões do patrimônio cultural intangível brasileiro em situação de risco, como os modos de fazer renda irlandesa em Divina Pastora (Estado de Sergipe), viola de cocho em Corumbá e Ladário (Estado do Mato Grosso do Sul) e panelas de barro em Goiabeiras (Estado do Espirito Santo). Esses três elementos culturais fazem parte hoje do Patrimônio Cultural Brasileiro, oficialmente protegido pelo IPHAN. Além disso, esta abordagem pode oferecer contribuição importante a projetos de desenvolvimento sustentável como ocorre, por exemplo, no projeto Polo Veredas (Estado de Minas Gerais).

 

Projeto Polo Veredas – fiar o presente, tecer o futuro.

Quase não chove na região noroeste de Minas Gerais, no Brasil central, a 700 km de distância da capital, Belo Horizonte. O índice de desenvolvimento humano – IDH é baixo, há poucas oportunidades de emprego, o trabalho está vinculado à agricultura familiar. A tecelagem, tarefa compartilhada por mulheres e crianças, é atividade complementar e que supria, tradicionalmente, a necessidade das roupas para uso próprio e para a casa, em uma economia quase sem moeda.

 

A tecelagem é também importante culturalmente ao promover o encontro e convívio social, reunindo as mulheres para fiar, rezar e cantar. Nos tempos antigos quando uma mulher não conseguia produzir, as outras organizavam um “mutirão”, chegavam de surpresa, soltando foguetes, com suas cardas e rodas de fiar, além de mantimentos para terem o que comer durante o dia de trabalho coletivo. Misturavam-se então, as tarefas de descaroçar, cardar e fiar o algodão, com o preparo da comida. Ao final do dia, o encontro se transformava em festa, com a participação dos maridos, bebidas, música e danças típicas.

 

O tempo e melhores caminhos facilitaram o acesso a cidades para comprar tecidos industrializados. O plantio do algodão diminuiu e a tradição perdia-se, restando peças tecida por gerações passadas, guardadas em baús, com as memórias da família. Os “mutirões” também foram deixando de acontecer e as cantigas e danças perdiam-se no tempo.

 

Corria o ano de 2001, quando os consultores da Artesol foram de casa em casa nos vilarejos, divulgando sua missão de resgatar os saberes tradicionais e revitalizar a tecelagem para a geração de renda e melhoria da qualidade de vida dos moradores. Reuniram cerca de 200 mulheres de cinco povoados, que foram estimuladas a voltar a produzir, numa rede solidária de trabalho e a valorizar essa atividade como um patrimônio cultural da região. As oficinas de capacitação promoveram o desenvolvimento humano e técnico das mulheres, dissiminando a cultura de trabalho colaborativo e beneficiando a comunidade.

 

Na base da metodologia desenvolvida pela ArteSol estava também a articulação de parcerias com órgãos públicos e privados locais, para a  sustentabilidade do projeto. Em 2006, com a iniciativa de um desses parceiros, a Fundação Banco do Brasil, as cinco comunidades receberam novas capacitações na técnica de bordados tradicionais. As bordadeiras foram associadas às tecelãs, integrando todos os grupos numa grande rede de produção. Umas fiam, algumas tingem, outras tecem, bordam e outras ainda produzem molduras e caixas para apresentar e embalar os produtos exclusivos desta rede. Como as comunidades estão distantes entre si, a Fundação também apoiou a criação da Central Veredas, uma associação com expertise em gestão para fortalecer a rede e promover a comercialização dos produtos, a qual vem mantendo, desde então com recursos financeiros.

 

A proposta da ArteSol foi reunir as localidades em um único polo de produção têxtil, revitalizar e fortalecer a identidade cultural local, empoderar as artesãs como agentes da preservação das técnicas e da valorização do oficio, formar agentes multiplicadores dos saberes, otimizar o processo produtivo para a geração de renda, maximizar resultados, estimular o acesso dos consumidores aos produtos e incluir as localidades no circuito turístico da região.

 

Os resultados foram muitos: criação de associações, gestão coletiva da produção, melhora das técnicas tradicionais, adequação dos produtos ao mercado, recuperação das cantigas de trabalho e da realização dos mutirões. Além do aumento da renda, o maior resultado desta ação foi a inserção social das mulheres a nível local e regional. Graças a essa tecnologia social, elas  tiveram seu trabalho reconhecido, saíram do isolamento, tornaram-se proativas, empreendedoras e participam de eventos culturais de suas localidades e fora delas.

 

Para atrair os jovens, as mulheres, em parceria com as escolas locais, estimulam os alunos a pesquisarem a cultura local, seu folclore, danças típicas, festas tradicionais e a biografia dos antigos moradores. A fauna e flora da região também são estudadas, assim como os arranjos produtivos locais e a preservação da natureza. As crianças desenham seu aprendizado, valorizam seu entorno e compartilham suas representações da realidade com as artesãs, que as reproduzem nas peças artesanais.

 

Veredas são os vales entre os morros, aonde brotam as minas de água e as palmeiras que deram origem aos primeiros fios que se trançaram na região. Esse projeto é um exemplo de como a criação de um sistema de forças coordenadas e convergentes estimula a formação de redes, o contacto e o intercâmbio entre os agentes da salvaguarda do patrimônio cultural imaterial. Um caso que revela um Brasil profundo e outros aspectos de nossa sociedade diversificada.

 

Rede Artesol

ArteSol desenvolveu parcerias visando consolidar sua atuação como aliada e provedora de insumos técnicos e, algumas vezes, materiais, aos núcleos de artesãos e contribuir para a formação de um nicho de mercado que fortalecesse a sustentabilidade da salvaguarda desse know-how tradicional.

Embora esse trabalho ainda seja realizado com núcleos incluídos mais recentemente em seus programas, desde 2012 o objetivo principal desta organização tem sido a construção da Rede ArteSol (http://www.artesol.org.br/rede). O objetivo dessa Rede é colocar em contato direto, através de um website específico, associações, cooperativas, mestres, artesãos e seus parceiros comerciais, ou seja, agentes que integram a cadeia produtiva do artesanato de tradição no Brasil, muitos dos quais vêm participando de atividades desenvolvidas por ArteSol desde 1998. Um ponto crucial dessa iniciativa tem sido fortalecer a autonomia dos artesãos na venda de seus produtos e orientar a comercialização segundo os princípios do comercio justo.

A Rede pretende incluir gradativamente, em futuro próximo, lojas, instituições de fomento e programas governamentais de apoio, por meio de um plano de comunicação que torne amplamente acessíveis essas informações e contatos. Ela não é um site de vendas, mas pretende consolidar-se como uma ferramenta efetiva para o desenvolvimento do artesanato de tradição no Brasil. Essa iniciativa tem produzido resultados muito positivos, o que nos estimula a prosseguir nessa direção.

 

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