Rede ArteSol articula intercâmbio internacional e participa do desenvolvimento de peças exclusivas do Vale do Jequitinhonha

Comunicação ArteSol

Intercâmbio de Saberes – Residência Internacional ArteSol + MADE foi o primeiro programa de residência internacional desenvolvido pela ArteSol em cooperação com: MADE – Mercado, Arte, Design; Beleza Design & Art e Livable Products. O projeto resultou na criação de peças exclusivas tematizadas como coleção Caro Barro, cocriada pelo designer Sep Verboom e pelas artesãs Adriana Gomes Xavier, Juditi Dias de Souza, Luiza Gomes da Silva, Neuza Gomes dos Santos e Vilma Gomes dos Santos, todas integrantes Associação de Artesãos de Coqueiro Campo, região do Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais.

A cerâmica secular do Vale do Jequitinhonha é feita com o barro encontrado na região e segue um processo próprio, feito com materiais completamente naturais. As peças são pintadas com barros de diferentes tonalidades, que mudam de cor ao serem cozidos em um forno de baixa temperatura, geralmente construído na propriedade das próprias artesãs: cada um possui o seu. Todo o processo de modelagem, oleamento, pintura e cozimento é um processo tradicional da região e exige das artesãs profundo conhecimento para que o resultado desejado seja alcançado. Atualmente, o Vale do Jequitinhonha passa por um forte período de seca, que atinge a todo o Estado de Minas Gerais. No caso do Vale, a situação é agravada pela ação das empresas madeireiras e carvoeiras e pelas florestas de eucaliptos. Há regiões nas quais o abastecimento apenas é possível por meio de caminhões-pipa. O artesanato é uma das fontes de renda que se mantém viáveis na região, pois a argila ainda está disponível na natureza.

A jornalista e curadora Elien Haentjens, à frente da Beleza, Design & Art e o curador Waldick Jatobá, idealizador e diretor artístico da MADE convidaram o designer belga Sep Verboom a conhecer e trabalhar com a comunidade. A proposta de Sep e sua marca, Livable Products, é realizar trabalhos com artesãos de diversos países e técnicas.

Sep aceitou a proposta e passou um mês vivendo e trabalhando na comunidade mineira para o desenvolvimento dos objetos com as artesãs, acompanhado pela designer brasileira Camila Pinheiro, representante da ArteSol neste projeto. Sensibilizado com a seca e com o cuidado das artesãs no manejo ambiental da matéria prima, o designer desenvolveu, conjuntamente com as artesãs, a coleção Caro Barro, que une a linguagem artística das artesãs aos elementos regionais usados pelas artesãs: os filtros de água, os corpos das bonecas e as referências das telhas das casas.

A coleção foi exposta e vendida durante a MADE 2016, na qual também foi realizado um bate-papo sobre o projeto entre a presidente da ArteSol Sonia Quintela, Elien e Sep, que contaram ao público detalhes do projeto.

Conheça também o trabalho realizado pela ArteSol em Coqueiro Campo.

 

 

Mestre é aquele que sabe entrar e sair

Camila Pinheiro, designer brasileira que acompanhou
o Intercâmbio de Saberes por meio da ArteSol.

 

No coração do Vale do Jequitinhonha, nordeste de Minas Gerais, descobrimos duas comunidades que, através de seus moradores, nos ensinaram durante esse intercâmbio muito sobre “o que é ser Brasil”.

Ambas as comunidades são marcadas pela conhecida complexidade socioeconômica da região – que esteve por anos entre os piores Índices de Desenvolvimento Humano do país – também carregam seu grande tesouro cultural: reveladoras mestras ceramistas.

Naqueles dias, entreguei minha alma ao sertão mineiro. Foi viagem sem volta.

Eu nunca tinha estado debaixo de um céu tão vivo como o daquela roça. Era como se ele, num ato de altruísmo, quisesse chegar bem perto e dar as mãos ao solo seco.

A riqueza sobrevoava a pobreza e as pessoas entre aqueles dois extremos carregavam na pele o contraste: as vigas no rosto marcadas pelo sol e seca e o brilho da alegria nos olhos, que parecia refletir das estrelas.

Eu ainda acho que é a constelação que inspira as artesãs a criarem os tantos detalhes na pintura de suas peças de barro.

O fazer vem de muitas gerações. Dona Vitalina, a artesã viva mais antiga da região, nasceu em 1910 e nos contou que aprendeu o ofício com sua avó. No Museu Antonio Preto, uma casinha singela e local da primeira escola da comunidade, vimos algumas peças antigas de cerâmica. Não são as pioneiras, mas já são completamente diferentes das atuais. As bonecas esculpidas hoje são idênticas a Jaqueline e Marcilene, filhas das artesãs Anísia e Deuzani. Já as bonecas que estão no museu têm feição indígena. O autorretrato nunca esconde a origem do artista!

Nas ruelas verdes empoeiradas da roça, muitas mulheres.

Nas duas associações de artesanato visitadas, cerca de 50 associadas em cada. Só mulheres.

Das peças produzidas; bonecas, noivas, grávidas, amamentando, colhendo, esculpindo, trabalhando, vivendo, de mãos dadas.

Mulheres.

Naquele momento eu enxerguei a força do feminino, ativa numa realidade muito distante da minha, até então.

A consciência do valor do grupo, do cooperativismo, de como juntas somos mais resistentes. Dos nossos múltiplos papéis. Da nossa graça. Criou-se ali o primeiro laço de afeto. Respirei fundo e me senti parte.

E a receptividade ao Sep Verboom– homem, branco, loiro, estrangeiro, falante de uma língua completamente estranha – me provou o quanto aquele povo é, acima de tudo, uma família que aceita as diferenças.

E onde estavam os homens?

Isso entendemos mais tarde, conversando com um deles, que quando criança também aprendeu a mexer no barro com a mãe. E que, se pudesse, “viveria disso porque faz bem pra cabeça”.

O cultivo de eucaliptos por uma grande empresa exportadora de celulose, madeira e carvão é hoje a mais marcante atividade econômica da região. Essa ação quase não usa mão de obra humana após um grande processo de mecanização e impactou todo o ecossistema local: cada pé de eucalipto demanda muita quantidade de água, esgotando sua disponibilidade para a população em um cenário hídrico já naturalmente problemático; as árvores também liberam substâncias químicas que reduzem a fertilidade do solo e afetam a diversidade das espécies de flora e fauna local.

Resultado: migração.

Para longe, para a terra dos outros, sem refúgio. À procura de sobrevivência e outras fontes de renda.

Foi no meio dessa realidade socioeconômica e de tanta riqueza cultural que o nosso designer convidado Sep tirou inspiração para cocriar suas peças.

O trabalho desenvolvido pelas ceramistas do Vale do Jequitinhonha ganha ainda mais valor diante desse cenário. A representatividade do serviço da mulher aumenta a cada dia, dentro de um contexto de forte migração sazonal masculina, no qual elas cuidam também da agricultura e dos trabalhos domésticos.

Entender que incentivos e ações inovadoras com o artesanato poderiam contribuir para o desenvolvimento daquela comunidade nos tirou a sensação de impotência diante de tanta injustiça social e nos fez partir para a ação.

Foi quase 1 mês de intercâmbio cultural, de saberes técnicos e principalmente, de valores. Valores transpassam idiomas, costumes e limites etnográficos. Ali trabalhamos o intercâmbio como troca humana, horizontal, na vivência local e com sentimentos à flor da pele.

Segundo Dona Isabel – mãe de nossa mãe-postiça-anfitriã Deuzani: “mestre é aquele que sabe entrar e sair”. Voltamos: eu para São Paulo e Sep à Bélgica, com essa mensagem cravada. Entramos de peito aberto, saímos com sensação de missão cumprida. E as portas estarão lá, sempre abertas para voltarmos, como numa verdadeira casa familiar brasileira.

 

 

Caro Barro

Elien Haentjens, curadora do Beleza Design & Art
“Quando for daqui uns tempos
meu sonho vou realizar
e no livro desse vale
outra história estará.”
Deuzani Gomes Dos Santos

 

Caro Barro é o resultado do processo de cocriação entre o designer belga Sep Verboom e as artesãs brasileiras de Coqueiro Campo, região do Vale do Jequitinhonha, norte de Minas Gerais. Seguindo séculos de tradição, as mulheres da região ainda produzem cerâmicas artesanais feitas com materiais completamente naturais. Com a colaboração da ONG brasileira ArteSol, nós convidamos Sep e sua marca, a Livable, especializada em trabalhos com artesãos de todo o mundo, para viver e trabalhar com as artesãs durante um mês.

Caro Barro mistura a linguagem artística das artesãs com elementos locais, como as telhas das casas, que inspiraram Sep Verboom a contar a história do Vale e de como as plantações de eucaliptos invadiram a vida das artesãs. Grandes empresas compraram a terra local a preços baixos, plantando eucaliptos que sugam toda a água do solo, causando danos irreversíveis à natureza local. Hoje, a cerâmica é uma importante fonte de renda para o povo de Coqueiro Campo. Felizmente, uma das poucas coisas que elas ainda podem obter da natureza é a argila. Sua mais doce e preciosa argila.

 

Como Apoiar?

×