Fundação Casa Grande: uma história de valorização da cultura pelo viés da arqueologia mitológica.

Texto: Raquel Lara Rezende
 

Foto Samuel MacedoFoto: Samuel Macedo
“A Casa Grande de Nova Olinda é uma coisa que veio pra ficar! Porque ajuda o povo de Nova Olinda, porque ela chama a atenção dos turistas. Os turistas vêm pra Nova Olinda, passam um dia, dois dias três dias e com certeza tá gastando um dinheirinho na cidade. Se nós não tivesse a Casa Grande, não tinha esse ponto turístico. E pra Espedito Seleiro, que sou eu que tô falando, a Casa Grande me ajudou bastante no início da coisa, quando a gente começou, e ainda hoje tá ajudando!”. Seu Espedito Seleiro, mestre artesão.

Era uma vez um lugar muito especial, conhecido como Casa Grande. Suas paredes bem coloridas espalham alegria pela cidade de Nova Olinda, no Cariri cearense. Por ali já passaram muitas crianças da cidade. Elas foram entrando na Casa de mansinho e ficaram. Escolheram aquele lugar tão lindo para ser a sua Casa, onde tudo é possível: todo sonho, todo canto, todo encontro e toda brincadeira.

 

Mais ou menos assim, começa a história da Fundação Casa Grande, fundada pelo casal de músicos, pesquisadores e arqueólogos: Alemberg Quindins e Roseane Lima Verde, falecida em março de 2017. A iniciativa do casal é reconhecida hoje em todo o Brasil, pelos impactos na vida das crianças, de suas famílias e de toda a comunidade de Nova Olinda, onde também se encontra o mestre Espedito Seleiro, cuja história se cruza muitas vezes com a da Fundação.

Nova Olinda se encontra no Vale do Cariri, no sul do Ceará. O Vale é rodeado pela Chapada do Araripe que desenha toda a paisagem da região, possui uma influência central no ciclo das chuvas e dá origem a centenas de fontes, formando um dos mais importantes aquíferos do país. São quase 40 mil hectares de floresta que guarda em seu sistema os biomas da Mata Atlântica, do Cerrado e da Caatinga. Além disso, é ali entre pedras e nascentes da Chapada, que se passam os mitos kariris que compõem sua complexa e bela mitologia.

Quando a Mãe D’água fez dormir o oitavo lago, Vapabussú, abriu-se o portal. O peixe kari subiu a terra e a habitou em forma humana, com o nome de Manaká, denominando-se de “Terra de Itaperabussú”. Manaká, de suas entranhas, tirou uma semente e a semeou, brotando uma mulher, e a denominou Jurema. Manaká e Jurema formaram então a sua tribo, dando origem ao povo Kari-ri. A Mãe D’água encantou o reinado de Itaperabussú e fechou o portal do tempo, deixando suas ruínas esculpidas em pedra que, nas horas mortas e em noites de lua cheia, desencanta e apresenta todo o esplendor de Vapabussú (Mito Kariri).

No vale existiu há mais de 100 milhões de anos um grande lago. Com a separação dos continentes, toda a região foi invadida pelo Oceano, o que aumentou a salinidade da água, matando milhões de peixes, animais e vegetais. Seus fósseis foram conservados em ótimo estado, por muitos milênios, por conta da capacidade preservativa do sal. Por conta disso, hoje a região funciona como um grande laboratório, onde pesquisadores do Brasil e do mundo podem estudar e observar todas as fases de vida do continente sul-americano.

Alemberg e Roseane foram pioneiros na pesquisa etnomusical, em busca dos mitos e das lendas da etnia kariri que habitavam a região. Em suas andanças, acabaram recebendo das pessoas que visitavam cacos de panela indígena, utensílios de pedra, entre outros objetos que eram encontrados nos roçados. Aos poucos, os dois foram reunindo peças arqueológicas, registros fotográficos de sítios arqueológicos que também são considerados por eles lugares mitológicos, além de gravações da tradição oral da região. Esse material passou a ser procurado por professores e estudantes, como fonte de pesquisa sobre a cultura kariri.

Movidos pela necessidade de reunir em lugar mais adequado o acervo que foram formando e disponibilizá-lo ao público, Alemberg decidiu reformar uma antiga casa abandonada, e com fama de mal-assombrada, que se encontrava em posse de sua família desde 1832.

A casa escolhida possui grande importância histórica, pois foi construída no início do século XVIII, em plena expansão colonial pelo sertão nordestino, ao lado de uma capela e um cemitério, dando origem ao povoado de Tapera, mais tarde chamada de Nova Olinda. A Casa Grande simboliza, assim, a ocupação portuguesa dos sertões nordestinos, a opressão e dizimação das etnias indígenas da região e o início do ciclo do couro, no nordeste.

A partir de 1992, entretanto, ela passou a ser um museu bem vivo: o Memorial do Homem Kariri. Logo chegaram as crianças, curiosas com a nova casa que ressurgia tão cheia de vida. Alemberg e Roseane passaram a brincar com elas e a contar as histórias do homem Kariri, a partir do acervo do Memorial. As crianças se apropriaram das histórias e logo já estavam recontando aos visitantes que chegavam. Como novos donos da Casa, assumiram funções de gestão do lugar, como diretores de cultura, de pesquisa e manutenção, entre outros. As crianças começaram a levar outras crianças e elas mesmas criaram outras funções para as novas que chegavam.

A Casa Grande abraçou as crianças e o desafio de proporcionar a elas atividades educativas que as colocassem em uma relação mais profunda com sua própria história, enquanto povo daquele lugar, ampliassem seu repertório cultural e gerassem perspectivas e oportunidades de inclusão social e profissional. Com esse norte, Alemberg e Roseane criaram alguns núcleos pelos quais todas as crianças passam: Memória, Identidade, Patrimônio, Mitologia, Arqueologia, Gestão Cultural, Meio Ambiente, Arte, Cidadania, Turismo Comunitário e Sustentabilidade.

A Casa foi crescendo junto com as crianças, ganhando novos espaços, como o teatro Violeta Arraes que já recebeu inúmeros artistas da região e do Brasil e os laboratórios de rádio FM, TV, internet e uma editora para a produção de materiais educativos.

Também foi inaugurado, em dezembro de 2014, o Museu do Couro, um antigo sonho do Mestre Espedito Seleiro que em parceria com a Casa Grande, se tornou realidade. Reformaram uma casa que fica ao lado da oficina do artesão e deram vida a uma parte da história do couro, das boiadas e vaquejadas do sertão, a partir da própria história de seu Espedito. O museu reúne fotografias, ferramentas antigas e algumas peças, como a sandália de Lampião, feita pelo pai de seu Espedito, Raimundo, o primeiro baú confeccionado por seu Espedito, quando criança e a famosa sandália que o artesão criou para Alemberg que encomendou dele uma no modelo da que o Lampião usava.

Seu Espedito, nascido em 1939, no sertão dos Inhamuns, filho e neto de vaqueiros e seleiros, se mudou para Nova Olinda ainda quando criança, fugindo com sua família da seca que castigava sua terra. Seguiu os passos de seu pai, na lida com o couro e inspirado nos ciganos, vaqueiros e cangaceiros, criou uma estética própria, investigou formas de tingir o couro com raízes e plantas da região e imprimiu novas formas e novos usos para a arte do couro que se difundiu pelo Brasil. Seu Espedito, assim, é conhecido como um grande responsável pela difusão do trabalho com o couro para além das fronteiras nordestinas.

Quando chegam turistas, estudantes e professores na Fundação Casa Grande, seu Espedito é um dos pontos de parada, assim como outros mestres da região que recebem com seus causos e sabedorias aqueles que chegam com abertura para ouvir e conhecer o Cariri profundo. Todas as ações, parcerias e projetos desenvolvidos pela Fundação Casa Grande, seguem o que Roseane chama de arqueologia inclusiva que “serve para desenvolver a comunidade. Então, a arqueologia, na Fundação Casa Grande, ela não é um fim em si mesma, apenas na sua produção científica. Mas ela é um processo que ela faz com que uma comunidade se desenvolva. Ela traz benefícios turísticos, sócio-econômicos, de formação cultural pra toda uma comunidade. Então esse é o perfil da arqueologia que nós queremos, que nós desejamos e que nós da Fundação Casa Grande nos empenhamos para desenvolver aqui na região do Cariri”. doutora, pela Universidade de Coimbra, em Portugal, onde apresentou a tese com o título “Arqueologia Social Inclusiva”, que aborda a arqueologia pelo aspecto humano.

Dessa forma, a Fundação Casa Grande conseguiu desenvolver um trabalho sólido que integra a arqueologia com a mitologia, colocando esses saberes e vestígios do antigo homem que ali vivia no presente das crianças e jovens que aprendem a olhar seu passado com orgulho e a se sentir pertencentes a uma cultura e uma história muito grande e rica. A possibilidade de um novo olhar sobre si mesmos que foge da imagem da seca e da miséria, trouxe para eles a confiança que precisavam para criar projetos de música, teatro, produção audiovisual, fotografia, turismo, entre tantos outros, com responsabilidade e sem perder nunca a alegria de poder viver a potência de ser criança. Essa mudança também tem grande impacto na forma como se relacionam com suas famílias, com a cidade e com os mestres do saber popular, como seu Espedito. Muitos jovens da Fundação trabalham no museu, recepcionando os visitantes que chegam, junto a outros estudantes das Faculdades do Crato, cidade vizinha.

 

Saiba mais:

http://caririrevista.com.br/terra-de-cabinha/

https://memorialdohomemkaririfcg.wordpress.com/

Tese de Roseane Lima Verde: https://blogfundacaocasagrande.files.wordpress.com/2017/06/tese-compressed-3.pdf