Projetar em co-criação: as luminárias de buriti

Autora: Beatriz Navarro, Formada em Design de Produtos no Centro Universitário Belas Artes São Paulo

 


 

Projetar um objeto é o ato de pensar um rastro inteiro daquilo que é consumido, excluído ou impulsionado ao longo de sua fabricação, uso e descarte. O produto é espelho e também pilar das formas que escolhemos e pensamos produzir.

Por articular a criação de artefatos a ciclos naturais, humanos e afetivos, a prática do artesanato tradicional é capaz de regenerar contextos locais e potencializar, ao longo de sua cadeia produtiva, recursos culturais e socioambientais. No mercado, essa capacidade do produto artesanal em abarcar histórias, olhares ancestrais e modos de produzir atentos ao tempo dos corpos e da matéria o torna também uma ferramenta potencial para abrir diálogos sobre formas de desenvolvimento mais racionais e sustentáveis

 Foi com essa visão do produto artesanal como  agente comunicador de histórias e mobilizador de afetos que nasceu da minha pesquisa de conclusão de curso e da parceria com o mestre João Gomes da Silva de Goiás, conhecido como  João de Fibra, a coleção de luminárias Buriti. O projeto veio do desejo de usar o produto como meio de evidenciar a importância e riqueza dos múltiplos patrimônios materiais e imateriais que orbitam e dependem da existência da palmeira buriti.

Recorrente nas paisagens do Cerrado, na Amazônia e no Nordeste do Pantanal, o buriti ocupa um papel vital não só nos ecossistemas onde ocorre, mas também no cotidiano, no imaginário popular e identidade cultural de diversas comunidades tradicionais e grupos indígenas. Para cada região ond existe, há uma técnica diferente de trabalhar suas riquezas e tramar suas fibras e por trás de cada jeito de tramar, há uma constelação inteira de saberes centenários, histórias ancestrais e formas de viver intimamente relacionadas à palmeira da qual tudo se aproveita.

Projetando

Dada as variedades regionais dos fazeres resultantes da interação entre diferentes culturas com a planta, a ideia foi desenvolver um produto que funcionasse também como um catálogo de potências, um mostruário de possíveis fazeres e materialidades, podendo-se incorporar a um mesmo molde diferentes técnicas de tear, macramê e trançado relacionadas às fibras do buriti. Assumir as distâncias e os custos do deslocamento do produto artesanal, foi a segunda questão principal do projeto. Na busca de reduzir o volume e consequentemente o valor do transporte das peças foram pensadas cúpulas de luminárias que pudessem ganhar volume depois de percorridos os trajetos até centros urbanos;  daí surgiu a ideia de criar “luvas” de tramas planas que vestiriam uma estrutura independente, para então ganhar volume.

A Rede Artesol, desconhecida por mim até então, me trouxe a possibilidade real de acesso a grupos e universos que antes achava inacessíveis. A possibilidade de contato direto com artesãos brasileiros através da plataforma me trouxeram um olhar inteiramente novo sobre o que seria realmente dar voz e autonomia aos artesãos. 

Foi por meio do mapeamento que tive a sorte de entrevistar o mestre João Gomes, conhecido como João de Fibra. Além de ser reconhecido pelo seu trabalho singular com o capim colonião, o mestre  é também uma biblioteca viva à respeito das mais diversas fibras da biodiversidade brasileira. Artesão desde os 13 anos de idade e experimentador e pesquisador das mais diversas fibras e formas de fazer, João, que domina a costura do capim dourado, as tranças de carnaúba, da agua pé, da palha de milho, taboa, bambu e buriti, viaja país afora como capacitador em diversas comunidades por meio de iniciativas e programas de inclusão social através do artesanato. 

Por reconhecer a importância, riqueza e capacidade transformadora de seus saberes, João afirma através do seu papel de mestre, a importância de passar adiante o patrimônio que acumulou durante décadas de pesquisa e testes diários.

“Sobre a questão do legado que a gente tem que deixar pro mundo, eu acredito que qualquer pessoa pode ser artesão. Alguns afloram, outros não. Morrem sem sentir o prazer de criar e fazer alguma coisa. Eu vejo isso como um dom e esse dom eu não acredito que eu tenha que reter, acredito que isso tenha que ser repassado. Eu vejo esses saberes como transformadores da vida humana e, por isso, é muito importante de serem repassados. Ao mesmo tempo que ensino o artesanato, vou colocando questionamentos, colocações e um treinamento para preservação”

Foi com este ideal de passar adiante o que sabe, que João me recebeu por uma semana em seu ateliê, localizado em Novo Gama, Goiás, para me ensinar os processos que envolvem as fibras de buriti. Antes de nos encontrarmos,  trocávamos fotos, desenhos e ideias sobre o produto, sobre as possíveis tramas e sua viabilidade técnica no objeto. 

João que já trabalhou com grandes marcas como Osklen e Lokalwear e fez parceria com designers como Renato Imbroisi, pode me ensinar, além dos processos e materialidades relacionados a palmeira, sobre questões importantes relacionadas ao desenvolvimento de produtos em parceria com artesãos, evidenciando que o pensamento criativo e a inteligência projetual não são privilégio apenas das pessoas com educação formal.

“A relação justa que eu acho entre o designer e o artesão tem a ver com respeito mútuo, eu preciso saber que ele tem as ideais e eu respeitar esse espaço dele porque em muitos casos eu estou trabalhando como técnico de materiais. Mas o designer também tem que respeitar muito a questão do saber fazer, do que se pode fazer e do que eu digo que a matéria permite para o projeto. Só de capim colonião, pra eu repassar tudo que eu sei, também é o tempo de uma faculdade. Então,  essa relação é justa quando o designer reconhece que ele não fez aquilo sozinho e mostra que o trabalho do artesão é muito rico e que o produto não teria o mesmo valor sem ele. A gente tem que lembrar que a maioria dos artesãos mora em periferia, mora em lugares que são esquecidos pela elite né, eu acho que talvez isso seja uma forma de chamar atenção e dizer que aqui também tem talento, que não tem talento só na capital do país; os talentos estão nos interiores. E são pessoas simples de vida humilde e poucos recursos.”

Já em Novo Gama, descobri que Joao anfitriava tão bem quanto tramava, e durante a semana toda, do processo de coleta à trama da seda e das folhas do buriti, João e Wallyson, seu filho mais novo, dividiram seu tempo, olhares, conhecimentos e formas de fazer comigo. No começo, Mestre João me contou que, de muito trançar as fibras, os dedos vão perdendo as digitais.
Depois de uma semana tramando eu entendi que quando os dedos vão ficando lisos e as tramas vão ganhando corpo, o que acontece é bem mais transferência do que perda, da identidade das mãos.

Receber de forma tão escancarada tanta riqueza, a princípio me deixou insegura, sobre como retribuir aquilo tudo que me deram de presente. Como pude, troquei fotografar as obras de João para criar um catálogo, ajudar com documentações e tarefas que demandavam conhecimento em computação. Mas acho que às vezes o melhor mesmo é vestir esse olhar de filho pequeno dos outros, dos acontecimentos e de reconhecer no fantástico que se apresenta à frente, a oportunidade de dividir e mostrar aquilo mundo afora. Não existe manual, é uma relação humana como qualquer outra, exige escuta, exige peito aberto e exige clareza.

 

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