Associação Comunitária dos Quilombos de Barra de Aroeira

Localização Povoado Barra De Aroeira, S/N, Barra De Aroeira - Santa Tereza Do Tocantins/TO - CEP 77615-000

As mãos que criam, criam o que?

Me fizeram escravo
quiseram que eu desse meu sangue, eu dei.
Quiseram que guerreasse, guerreei.
Agora, com as mãos emaranhadas no ventre dessa terra,
deixo que se vá toda dor, todo sofrer
também eu me vou nas asas das araras que colorem
a terra onde deitei meu buriti.
Poema em homenagem a Félix José Rodrigues

Os fios de capim dourado são costurados com a fibra fina das folhas de buriti, ambas espécies nativas do Brasil, próprias do cerrado. Dessa forma, as artesãs produzem grande diversidade de peças, como chapéus, cestos, vasos, mandalas, bandejas, biojoias, abajures e outros. A tradição do artesanato com o capim dourado, o “ouro do Jalapão”, foi passada pelos índios da etnia Xerente que no começo do século XX saíram caminhando pelo lado do Rio Araguaia e passaram pelo povoado quilombola Mumbuca e ensinaram alguns moradores a “costurar capim” com a seda de buriti. Desde então, esse saber se difundiu pela região, chegando a outras comunidades, como em Barra do Aroeira.

A partir desse saber-fazer, as comunidades têm criado novas coleções com inovações de produtos e inserção de novos materiais, como sementes, peças em coco, e novas técnicas também tradicionais, como o tingimento natural da linha da seda do buriti. Assim, as artesãs que antes produziam com a técnica do trançado das fibras do capim e do buriti objetos que estavam presentes em seu dia-a- dia, como os chapéus que protegiam os lavradores na roça, cestos entre outros utensílios, agora produzem as mais variadas peças.

Onde criam?

Barra de Aroeira, ou Barra do Aroeira faz referência ao córrego Aroeira que atravessa a comunidade, mas há moradores, ainda, que se referem ao povoado como Barra da Aroeira, em menção à madeira que no passado foi abundante na região. O povoado quilombola, hoje distrito do município de Santa Tereza do Tocantins, foi fundado por Félix José Rodrigues que recebeu de Dom Pedro II, em 1871, uma extensão de terras em recompensa pelo bom desempenho na Guerra do Paraguai. Félix escolheu uma área na região do Jalapão, próxima à atual cidade de Lagoa do Tocantins. Hoje, vivem no Povoado cerca de 90 famílias herdeiras de Félix José Rodrigues que morreu em 1915. A ocupação do local pelos “Pretos da Barra”, como eram conhecidos os moradores do Povoado, é bem anterior à da Vila de Santa Tereza e sua demarcação foi feita pelo ex combatente com o plantio de fileiras de buritis. Motivados pelo risco de expropriação em função de um conflito de terras, a comunidade se organizou para recuperar o documento que comprova a doação da área para o antepassado Félix. Desde 1950 empenhados nessa missão, a comunidade não conseguiu recuperar o documento, mas meio século mais tarde se organizaram para obter o reconhecimento de comunidade quilombola.

Barra do Aroeira se encontra exatamente na entrada para o Deserto do Jalapão, uma Unidade de Conservação Ambiental com mais de 34 mil quilômetros de área desertificada que envolve os municípios de Lagoa do Tocantins, Lizarda, Mateiros, Novo Acordo, Ponte Alta do Tocantins, Santa Tereza do Tocantins e São Félix do Tocantins. O Jalapão é um lugar cheio de encantos, chapadões e serras que compõem a paisagem de cerrado e savana, com gigantescas dunas costuradas por rios e cachoeiras. O nome, Jalapão, vem de uma planta abundante na região, a Jalapa, também conhecida como batata de purga.

Quem cria?

A Associação foi criada em 2004 com o objetivo de buscar reconhecimento enquanto comunidade quilombola, o que aconteceu em 2006, por meio da Fundação Cultural Palmares. A presença das mulheres no grupo é uma marca importante que reflete seu envolvimento com as questões comunitárias e coletivas, estando também à frente dos ventos religiosos e políticos. O grupo, além de se responsabilizar pela compra da matéria-prima, uma vez que não possuem campos de capim dourado no local e pela organização das artesãs, também atuam junto à comunidade, acompanhando as mulheres gestantes e as famílias que passam por questões graves financeiras ou de saúde. Fazem também articulações com entidades, sindicatos, organizações não governamentais, entre outras formas de mobilização social, visando a criação de estratégias para garantir a dignidade e a possibilidade de melhoria para todos do Povoado.

Saiba Mais:

- Dissertação de Rebeca Verônica Viana, pela Universidade de São Paulo: “Diálogos possíveis entre saberes científicos e locais associados ao capim-dourado e ao buriti na região do Jalapão, TO”, 2013.

- Tese de Luciene de Oliveira Dias, pela Universidade de Brasília: “Não vê que neste mundo não tem cabaça: especialidades e Identidades em Barra de Aroeira – TO”.

- Artigo “A cultura Xerente e seu artesanato dourado. Patrimônio, memória e registro
na região do Jalapão – Tocantins”

- Reportagem

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