Mestras do Encapoeirado

Localização Bairro do Encapoeirado - Apiai/SP - CEP 1832000
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As mãos que criam, criam o que?

da Serra do Mar, Mãe de mil rios,
alcanço o céu, desnudo e profundo...
mergulho na mata, indomavelmente viva
me perco entre suas figueiras
para ser iniciada em seu coração ancestral
guarani, kaingang, terena.
Raquel Lara Rezende

A cerâmica produzida no Vale do Ribeira tem origem guarani, etnia indígena presente na região. O lugar permaneceu isolado socialmente e economicamente do restante do estado de São Paulo, até meados do século XX, o que fez com que o saber-fazer ancestral da cerâmica, entre outros, seguisse fortemente presente no cotidiano das pessoas. A produção da cerâmica é feita com a técnica de rolinho, rolete ou cordel. Os rolinhos, feitos a partir da manipulação do barro, são sobrepostos de acordo com o formato da peça que se deseja e depois são alisados com as mãos e ajuda de utensílios. Depois de moldadas, alisadas e secas, as peças são decoradas com a pintura feita de barro, de várias cores, e vão ao forno para queimar. Graças às Mestras da região, o modo de fazer cerâmica ancestral foi preservado, sendo passando de geração em geração. A técnica da cerâmica que antes era utilizada para a produção de panelas para o preparo do alimento, cuias para beber água, reservatórios de alimentos e água, urnas funerárias, ganhou com o tempo outros usos, sendo produzidas outras peças utilitárias, como gamelas, moringas e vasos, além de peças de decoração. O barro utilizado na produção das peças é retirado em barreiros da região, havendo uma preocupação em recuperar os barreiros para preservar o meio ambiente.

Onde criam?

O bairro do Encapoeirado pertente ao município de Ipiaí que está localizado na microrregião de Capão Bonito, no Vale do Ribeira. O Alto Ribeira é marcado pela presença da Serra do Mar e por uma paisagem montanhosa e exuberante, com a presença da Mata Atlântica. Hoje, a região do Vale do Ribeira, de modo geral, guarda cerca de 20% do que resta do ecossistema no território brasileiro, sendo, assim, a maior área contínua de Mata Atlântica preservada do país. Por sua importância, em 1999, a Reserva de Mata Atlântica do Sudeste, que abarca 17 municípios do Vale do Ribeira, foi considerada pela Unesco Patrimônio Natural da Humanidade. Nas 24 Unidades de Conservação que estão inseridas no Vale encontram-se espécies como o cedro, a juçara, canela, araucária, caxeta, entre outras.

O Vale do Ribeira é historicamente uma das regiões mais pobres de São Paulo e Paraná, apresentando baixo índice de escolaridade, emprego e renda, em relação às demais regiões desses estados. As principais atividades econômicas giram em torno da cultura do arroz, café e da banana. Nas últimas décadas, o turismo tem despontado como importante geração de renda e emprego, ganhando mais investimentos do poder público. No Alto do Vale do Ribeira, uma das atrações mais procuradas é o conjunto de mais de 200 cavernas calcárias catalogadas, entre elas as cavernas do Diabo, Santana, Morro Preto, Água Suja e Casa da Pedra.

Na região se encontra o maior número de comunidades remanescentes de quilombos de todo o estado de São Paulo, além de comunidades caiçaras e guarani, o que colore ainda mais o Vale do Ribeira com a diversidade cultural ancestral. São cerca de 80 comunidades caiçaras, cujas vidas se guiam pelos ciclos da Mata e seus recursos. As comunidades indígenas encontram-se em dez aldeias Guarani formadas por famílias dos subgrupos Mbyá e Ñandeva que vivem dentro ou próximas das Unidades de Conservação. Seu modo de vida é marcado pela relação Sagrada com o local que sustenta e constrói a ética com que se relacionam com os recursos naturais. A principal atividade econômica no Alto Vale do Ribeira é o cultivo de banana, chá e tomate, este último, em Apiaí, principalmente. Entretanto, a falta de investimentos para o pequeno produtor agrícola, tem colocado o turismo como importante setor econômico nos últimos anos. É necessário, no entanto pensar o desenvolvimento do turismo de maneira consciente, pois sua expansão tem trazido problemas no que diz respeito ao meio-ambiente e às comunidades tradicionais que vivem nas áreas protegidas ou próximas a elas. Nesse contexto econômico a produção tradicional de cerâmica do Alto Vale do Ribeira desponta como uma atividade de baixo impacto ambiental que traz autonomia e reconhecimento para as comunidades.

Quem cria?

A Mestra Custódia Jesus da Cruz é lembrada pelas Mestras do bairro Encapoeirado que aprenderam com ela a arte da cerâmica. Nas mãos que moldam o barro está presente a sua memória e seu legado. A pintura feita com outros tons de argila é feita com os dedos, como aprenderam com suas antepassadas, dando uma aparência rústica às peças.

O desejo de que a cerâmica tradicional siga ainda por muito tempo presente no cotidiano de seus descendentes é uma das principais motivações para os ceramistas do Vale do Ribeira. A maior organização e articulação dos grupos de ceramistas do Vale do Ribeira é fruto de um projeto do Instituto Meio com o apoio da Prefeitura de Apiaí e patrocínio do Instituto Camargo Côrrea da Associação que estimulou o intercâmbio entre as artesãs e os artesãos e centralizou a comercialização na Casa do Artesão, em Apiaí. Foram oferecidas oficinas de produção comunitária e introduzidos novos equipamentos que trazem melhores condições de trabalho, sempre com o cuidado de não interferir nas principais características do artesanato. Essas mudanças incentivam novas gerações de ceramistas, incluindo homens que têm se interessado em participar de todas as etapas da produção. Hoje, são mais de 60 artesãos dos municípios de Itaoca, Barra do Chapéu e Apiaí que se unem, formando o Polo Cerâmico do Alto Vale do Ribeira. A união dos quatro grupos de ceramistas deu origem ao “Polo Cerâmico do Alto Vale do Ribeira”, e da “Rota da Cerâmica”.

Saiba mais:

www.ceramicaaltovaledoribeira.com.br/

www.quilombosdoribeira.org.br/vale-do- ribeira

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