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Tesoura, linha agulha e banquinho: uma história de aprendizado da renda irlandesa, em Divina Pastora

Para Maria José de Souza, atual presidente da Associação das Rendeiras de Divina Pastora, “falar de renda irlandesa é falar das mulheres de Divina Pastora”. Isso porque a cidade é […]

Raquel Lara Rezende


Para Maria José de Souza, atual presidente da Associação das Rendeiras de Divina Pastora, “falar de renda irlandesa é falar das mulheres de Divina Pastora”. Isso porque a cidade é o principal ponto de produção da renda que constitui importante atividade econômica, social e cultural para as mulheres locais.

A técnica da renda têm origem europeia, no entanto, ganhou novas formas, novos pontos e novos sentidos sociais e culturais na região. Cocada, aranha, abacaxi, boca de sapo são os nomes de alguns dos pontos que mostram a conexão do fazer com a realidade e os costumes das rendeiras. A técnica que lhe deu origem é a mesa da renda renascença, muito presente na região nordeste, de forma geral. As mulheres de Divina Pastora, entretanto, modificaram o material usado na produção, adotando o cordão de lacê em lugar do fitilho, utilizado na renda renascença. Essa inovação conferiu características únicas à renda irlandesa que se apresenta mais encorpada, com mais relevos e mais brilho. O modo de fazer das rendeiras de Divina Pastora foi considerado pelo IPHAN, em 2008, Patrimônio Cultural e Imaterial Brasileiro.

Foi ali em Divina Pastora quesse patrimônio se consolidou enquanto ofício popular depois de muito tempo ser comum apenas às mulheres da aristocracia do Nordeste. A 39 quilômetros da cidade de Aracaju, a cidade de Divina Pastora se encontra na microrregião do Cotinguiba, rio que atravessa o município. Sua paisagem mescla os campos de várzeas com os velhos engenhos, muitos desativados com a decadência da agroindústria do açúcar que deixou como rastro as ruínas dos canaviais. Fora dos canaviais, muitas mulheres encontraram na atividade da renda uma possibilidade de sustento da família.

As referências europeias

A técnica da renda renascença foi difundida no Brasil, principalmente a partir do século XIX, por freiras vindas de diferentes países da Europa e por mulheres da aristocracia. Em muitos lugares da região nordeste, as freiras irlandesas tiveram um papel central na educação das mulheres locais a quem ensinavam trabalhos manuais. Assim, a renda renascença também ficou conhecida como renda irlandesa.

Muitas rendeiras se mantinham ocupadas por longos meses na tarefa de produzir o enxoval das noivas da aristocracia brasileira. Entre 1950 e 1980, principalmente, o enxoval era uma espécie de dote, em que o volume, mas, principalmente, a riqueza e o requinte dos tecidos, adereços, bordados e das rendas indicavam se a família tinha posses e bom gosto. Assim, as peças de renda irlandesa eram elementos cobiçados pelas noivas sergipanas, como a toalha de mesa e a colcha da cama de casal.

Em Divina Pastora, é atribuída às três irmãs, Marocas, Dina e Sinhá, a responsabilidade pela grande difusão da renda irlandesa. Dona Sinhá, a mais nova das irmãs, começou a produzir renda, aos 15 anos, por volta dol ano 1926, seguindo ativa por mais setenta anos. Ao longo de sua vida, ensinou muitas mulheres o ofício de rendeira, tendo sido considerada uma grande mestra.

Divina Pastora contou com a dedicação de muitas outras mestras, como dona Sinhá. Maria José Souza conta que era em torno das rendeiras mais velhas que as jovens divinenses aprendiam a arte de rendar.

”A gente ia para as casas das rendeiras mais antigas, das rendeiras mais respeitadas que tinham encomenda e sabiam fazer a renda com mais detalhe, mais acabamento. Então a gente passava as tardes com elas. Cada um recebia uma tesoura, agulha, uma cadeirinha ou um banquinho, pra gente se sentar próximo à rendeira, nossa mestre. Isso era bem comum na minha época. Hoje, nem tanto, mas ainda acontece”.

Ainda crianças, a partir dos 7 anos de idade, as meninas que já estavam acostumadas a brincar nas barras das saias de suas mães, enquanto elas faziam renda, passavam a aprender com as mestras, adquirindo, aos poucos, seus instrumentos de trabalho. Através da tradição oral, as mestras partilhavam com as crianças suas histórias e valores, como senso de solidariedade, respeito e cooperação. Em grupo, meninas, jovens e mulheres de Divina Pastora aprendem, a partir das linguagens do afeto e da tradição das agulhas, o ofício de rendeiras, tomando em suas mãos a possibilidade de tecerem seus próprios destinos.

Raquel Lara Rezende é colaboradora da Artesol. Formada em Comunicação Social, tem doutorado em Educação e transita entre as mais diversas possibilidades de expressão da cultura popular, seja como pesquisadora, artista ou jornalista.

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