Mestre José Luis (José Luis de Sousa)

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As mãos que criam, criam o que? 

“Crispim cabeça de cuia
Vive ainda a procura
Das sete Marias virgens
Cumprindo sua desventura
Rio abaixo e rio arriba
Em noite clara ou escura”
(A Lenda do Cabeça de Cuia, Literatura Popular do Repente, autor: Pedro Costa)
 

Um jovem garoto de família muito pobre que morava nas margens do rio Parnaíba. Conta a lenda que certo dia, sua mãe lhe serviu uma sopa rala, com ossos, pois faltava carne. Ele se revoltou, e na discussão com a mãe, atirou-lhe o osso, atingindo-a na cabeça. Antes de morrer, sua mãe lhe amaldiçoou: ficaria vagando no rio, dia e noite, com a cabeça enorme em formato de uma cuia. Só se libertaria após devorar sete virgens de nome Maria. Numa mistura de medo e ódio, correu ao rio e se afogou. Seu corpo nunca foi encontrado e, até hoje, os mais antigos proíbem suas filhas virgens de nome Maria de lavarem roupa ou se banharem no rio em épocas de cheia. Alguns afirmam que ele também assassina banhistas e vira embarcações. Outros asseguram que ele procura as mulheres por achar que elas são sua mãe, vindo ao rio para lhe perdoar. Mas, ao notar outra mulher, ele se irrita e acaba por matá-la. Até hoje não conseguiu devorar nem uma virgem de nome Maria. A lenda, uma das mais conhecidas do Piauí, é contada pelas mãos de Mestre José Luis há mais de 40 anos. Da literatura de cordel que ouvia, ainda criança, narrada pelo tio Francisco, marceneiro, anunciou-se a grande inspiração do futuro escultor.

Quem cria?    

Filho de pais lavradores, Luis trabalhava “de roça” com o pai. Desde lá, quando via uma raiz, um galho seco, vinha-lhe o impulso de tentar transformá-lo em alguma cosia: uma cobra, um jacaré, algo que estivesse em sua imaginação. O pai brigava, não entendia nada: “Era um dom que eu tinha, fui autodidata, sou do interior”. Por volta dos anos 70, aos 14 anos, inspirado pelas escutas do cordel na infância, Luis arriscava, timidamente, as primeiras esculturas do Cabeça de Cuia. Em madeira. Escondido do pai que o queria ajudando na roça. “Cuia era o que a gente usava pra comer, antigamente não existia prato, existia cuia”. Luis esculpia por diversão, até que foi descoberto por um viajante e então não parou mais. Só se profissionalizou seis anos mais tarde, em 1974, ao começar a vender suas esculturas.

Certo dia um diretor do Programa de Desenvolvimento do Artesanato Piauiense (PRODART) viu suas peças e o convidou a trabalhar com ele em Teresina. Ele tinha 15 anos e aceitou o desafio. Fez muita cabeça de cuia. Teve inclusive uma grande encomenda delas para o programa de auditório da Rede Globo Cassino do Chacrinha, um dos mais populares programas da televisão brasileira. Foi criando cada vez mais, aprendendo, se aprimorando e aperfeiçoando as peças. Na década de 1980, o artista já conhecido pelo público, foi escolhido pela União Brasileira de Escritores (UBE) para produzir a encomenda de troféus no formato do Cabeça de Cuia para os intelectuais dos anos 1980-1981 no II Encontro de Escritores em Teresina. Considerado o primeiro piauiense a esculpir imagens da lenda piauiense, Mestre Zé Luis, como é mais conhecido hoje, após meio século de vida dedicada a sua arte, também esculpe nos estilos santeiro e regional, e é bastante conhecido por seus anjos. Também ministra aulas de artesanato no interior do Piauí. 

Onde criam?

José Luis de Sousa é nascido em São Félix, zona rural de Teresina, em 1955. Nasceu menino de sítio e permanece até hoje. Toda sua madeira vem de lá. Trabalha com cedro de lá mesmo, do Piauí: “O pessoal faz muita roça, colocam fogo, e o cedro é muito frágil pro fogo, morre e a gente tenta aproveitar”. Sempre que “os meninos”, seus aprendizes, encontram alguma madeira, avisam o mestre: “Vi lá no chão uma madeira seca” ou “O povo matou pra fazer roça”. E voltam lá pra pegar. Respeitoso com a natureza, o mestre afirma com rigor: “Eu nunca matei cedro nenhum nessa vida pra fazer arte. Graças a Deus não matei nenhum pezinho de cedro”. E se a madeira acaba ou falta madeira no sítio, encontrada pelo chão? Deixa de fazer o trabalho, porque não tem material. Às vezes passa tempo até sem conseguir produzir por falta de madeira.

No sítio onde foi foi criado, volta todo domingo. É onde todos os irmãos moram, também o tio. Gosta muito de lá, a família é próxima, as outras pessoas que vão chegando se incorporam, tem sempre gente querendo aprender. E ele ensina. Lá Mestre José Luis trabalha. Senta-se em um banco debaixo de um pé de manga, e ensina os “meninos”. Garante que já tem artesão bom que ele ensinou. E quanto a ele, afirma: “Aprendi mesmo, lá no meio o mato. Deus me iluminou para ser um mestre de arte e consegui viver do meu trabalho. A sala da aula é muito importante mais o mais importante é se dedicar a alguma coisa que você sabe fazer. Eu não ganhei muita coisa, mas o que eu sou hoje é suficiente”.

Fonte:  Artesanato Piauense / Museu de Folclore  / Geleia Total 

Saiba: Museu do Folclore - A Lenda do Cabeça de Cuia