Colecionismo de arte: formas de dedicação ao sensível

De Mário de Andrade a Lina Bo Bardi, são muitos colecionadores de arte popular que contribuíram para a construção de um imaginário sobre a brasilidade. Hoje, muitas pessoas comuns adentram o envolvente mundo do colecionismo, projetando luz sobre autores ainda desconhecidos e influenciando a agenda de museus, do mercado de arte, da mídia e até do poder público
Nei Vargas

 

Coleção de Lina Bo Bardi na Casa de Vidro. Foto: Marina Lima / Instituto Bardi / Divulgação

As coleções, como conjunto simbólico, são dotadas de personalidade própria que se ajusta aos esforços dos colecionadores em constituir uma história subjetiva, muitas vezes com o intuito de sociabilizá-la na esfera pública ou influenciar na agenda de museus e galerias. Para além de grandes nomes do circuito formal das artes que ajudaram a construir um imaginário sobre nossa própria identidade cultural, porém,  muitas pessoas comuns têm se aventurado nesse mundo do colecionismo particular com os mais diferentes propósitos. Muitas vezes, são motivadas simplesmente pela admiração ou mesmo paixão por trabalhos artísticos que traduzem emoções, memórias e histórias com as quais eles se identificam.

Com interesse em entender as características e contribuições do colecionismo para o desenvolvimento do sistema da arte no Brasil, durante um ano tive a oportunidade de desenvolver uma pesquisa de campo para entender como um grupo de pessoas coleciona arte contemporânea no país. A proposta era desnaturalizar estigmas redutores da obra de arte como simples objeto de fetiche de uma classe social privilegiada e refletir sobre a subjetividade de pessoas comuns que estabelecem relações profundas com as obras e os artistas que admiram. Muitas vezes, elas contribuem, inclusive, para conferir novos sentidos aos seus trabalhos.

Ao todo, foram 19 cidades de 16 estados percorridos durante meu doutoramento em Artes Visuais, com ênfase em História, Teoria e Crítica de Arte, orientado pela pesquisadora Maria Amélia Bulhões, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, estado onde nasci. Convidado pela Artesol para falar desta experiência, a seguir abordo algumas questões que alteraram as noções que eu tinha sobre colecionismo de arte e o próprio conceito de arte contemporânea.  
 

Coleção de arte popular do cenógrafo Flávio Império, pertencente ao Instituto de Estudos Brasileiros - IEB / USP

Para começar, vale mencionar que a pesquisa foi embasada em uma metodologia qualiquantitativa, cujas entrevistas transcritas somaram mais de mil páginas. De posse deste vasto material, entendi que havia uma modelagem conceitual para pensar o procedimento colecionista, dividido em três vetores: aquisição, gerenciamento e empresariamento das coleções.

Sinteticamente, utilizei o conceito de aquisição para discutir as formas de construção cognitiva e sensorial ao longo dos tempos históricos, que tanto geraram o desenvolvimento dos processos seletivos quanto a capacidade de produção simbólica. Avancei no termo para falar da importância da exposição às expressões culturais nas fases iniciais de vida, como forma de ampliar o aparato sensível e influenciar no gosto pela fruição da arte, assim como a aquisição como toda forma de entrada das obras no processo de colecionismo já na fase adulta. O gerenciamento diz respeito a tudo que trata da obra depois de adquirida: as estratégias de catalogação, conservação, regulação fiscal, entre outros temas. Por fim, o gerenciamento abarca ações como ajuda a artistas, empréstimos de obras, colaboração em instituições públicas e privadas, chegando ao que se pode chamar de ápice do colecionismo: a institucionalização da coleção com a abertura do museu próprio.

Bancos da Coleção BEI que compuseram a exposição Bancos Indígenas do Brasil,no Museu Teien, em Tóquio (Japão). Foto: divulgação

Um dos mais significativos resultados do estudo diz respeito à abrangência da prática de colecionar arte entre distintas escalas de poder econômico. Para se ter ideia, 26% dos entrevistados consomem até 10 mil reais por ano e 29% até 50 mil. Isto leva a crer que mais da metade do público atingido pode optar pela aquisição de obras com tickets mais baixos. Na outra ponta, em 1% das respostas encontra-se quem investe mais de um milhão por ano. Estes dados fazem cair por terra a noção segundo a qual o colecionismo de arte está circunscrito a um seleto círculo social inacessível pelo seu alto poder aquisitivo. 

Por decorrência, ficou evidente nas respostas das pessoas entrevistadas que a questão do valor financeiro da obra recai em outro tema relevante, que justamente trata do conceito de arte.

 

Acredito que este problema evoca interrogações sempre atuais no campo das artes visuais, especialmente no colecionismo. Quais são os parâmetros de qualidade para que uma obra seja colecionável? O que torna uma pessoa colecionadora? Quando um conjunto de obras passa a ser uma coleção? E afinal, o que é arte?

 

Fenômeno de grande relevância cultural e abrangência social, o colecionismo de arte tem passado por redefinições nos seus processos de condução e desenvolvimento articulados às alterações pelas quais passam as sociedades em distintos tempos históricos. Nas últimas décadas, um dos principais desafios impostos a quem coleciona partiu exatamente da arte contemporânea, que passou a ser elaborada de forma mais permissiva na construção de narrativas, em um pluralismo de meios, provocadora de rompimentos e propositora de renovações institucionais.

Ex votos esculpidos em madeira. Foto: Laís Domingues

A dissolução das fronteiras conceituais contribuiu para que propostas enquadradas em categorias outrora alijadas dos cânones, agora se estabelecesse como arte consagrada. Este fenômeno vem ocorrendo em escalas muito distintas e em consonância com o modo como se desenvolve o mercado e o colecionismo de arte. No Brasil, como em outros países em desenvolvimento, ele é predominante local.  

É equivocado fazer afirmações categóricas, mas ajuda a pensar que tem ocorrido uma aceitação crescente de novas propostas inseridas no consumo de objetos artísticos, alterando a noção de colecionismo e da compreensão sobre o que é ou não é arte. De fato, atualmente, estes processos estão mais democratizantes em decorrência, também, da uma pauta institucional promotora de reparação histórica, que ajuda a operar mudanças na percepção e no gosto de um público cada vez mais amplo.

Neste contexto, em muitas regiões do país observa-se a entrada de proposições artísticas chamadas de “arte popular” nas coleções de arte contemporânea, enriquecendo o conjunto dos acervos ao estabelecer novas leituras e possibilidades reflexivas no campo da arte. A principal delas é colocar em xeque o termo “arte popular”, que no meu entendimento é datado e perdeu a validade. No entanto, este é um assunto para os próximos textos,com mais análise e reflexão.

Sobre o autor

Nei Vargas

Nei Vargas da Rosa é doutor em artes visuais, com ênfase em história, teoria e crítica. Atua como curador e pesquisador de arte e art adviser de arte contemporânea no Brasil
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