Diário de bordo: um indígena do sertão no maior centro urbano do país

Laís Domingues

Duante a produção de uma série de documentários para o registro de salvaguarda de mestres pernambucanos, tive o privilégio de conhecer, documentar e comparilhar a história de Mestre Audálio, um mestre da etnia Kapinawá, que vive em terras que se estendem entre os municípios de Buíque, Tupanatinga e Ibimirim, na área de transição entre o Agreste e o Sertão de Pernambuco, no Vale do Ipanema, ou sertão do Moxotó. Lá ele acumula os ofícios de artesão, curandeiro, rezador e apicultor, um multi-artista cercado da beleza, dos desafios e das possibilidades infinitas da caatinga. 

A produção documental sobre o mestre chegou ao conhecimento de uma programadora do Sesc Vila Mariana, a sensível da Priscilla, que foi tocada pela habilidade de Mestre Audálio com a fibra do caroá. A partir do registro de salvaguarda do mestre, ela vislumbrou a presença dele em um evento Indígena e entrou em contato conosco. Iniciei essa ponte entre Audálio e o Sesc Vila Mariana e fui encarregada de realizar a produção executiva e assessorá-lo em todo o processo de pré-produção e produção de sua vivência em São Paulo. 

Em seguida, o Sesc Jundiaí também se interessou pelos conhecimentos do Mestre e, assim, planejamos uma jornada de oficinas e bate-papo no estado de São Paulo, levando um pouco da cultura indígena sertaneja para o maior centro urbano brasileiro. Essa aventura teve início ainda na caatinga, onde foram extraídas as fibras de caroá necessárias para as atividades. Ao todo, vivenciamos um mês de trabalho ativo, entre extrair a fibra no momento e na lua certa, bater, esperar secar e confeccionar centenas de cordinhas.  

Para ajudá-lo na pré-produção, houve algumas idas e vindas na Aldeia Malhador, onde ele vive, e muitas trocas. Entre amigos próximos, nos reunimos e aprendemos como extrair e bater a fibra, a fazer cordinhas e trabalhar a matéria-viva bruta em uma imersão marcante junto ao mestre. Com muita dedicação, seu Audálio finalizou todas as etapas de organização e voou para São Paulo acompanhado do amigo e professor João do Vale. Eu já os esperava no Aeroporto para seguirmos para Jundiaí. No caminho, pela Marginal Pinheiros, Mestre Audálio reconheceu o trem que sempre pegava na década de 80 para trabalhar, também apontou e reconheceu edificações que ajudou a levantar e construir. 

Parecia outra vida, completamente distinta da que vive atualmente entre abelhas e a caatinga. Ele contou que passou alguns anos em São Paulo trabalhando para criar os filhos. Lembrava nomes de bairros, praças e estações com muita clareza, parecia ter sido ontem que vivera ali. Chegamos em Jundiaí, descansamos e no dia seguinte seguimos rumo ao Sesc para iniciar a vivência com a fibra de caroá, com o intuito de confeccionar pulseiras e compartilhar um pouco do ser indígena sertanejo. Mestre Audálio que também é rezador, curandeiro e apicultor compartilhou seus saberes ancestrais com generosidade e por 2 dias a sala se encheu de cantigas, rezos, receitas, pulseiras e afetos. 

Nos despedimos ao som de uma cantoria de viola que acontecia na praça de eventos, findando nossa passagem pela cidade e seguindo rumo à capital paulista.  Diferentemente de Jundiaí, nos hospedamos na agitada Avenida Vergueiro, onde a sensação de estar fora de casa se acentuou. Entre metrôs e infinitas escadas rolantes, Mestre Audálio brincava com a falta de sentido que algumas dinâmicas e regras de megalópoles nos impõe. Em alguns momentos ele dizia: "me solte na mata e eu me encontro, mas aqui, minha filha…". As memórias de sua vivência na década de 80 finalmente pareceram distantes. 

Mestre Audálio definitivamente não estava mais adaptado ao ritmo acelerado de São Paulo e suas infinitas demandas, mas aproveitou todos os dias, entre museus, parques, centros culturais, com espírito de contador de histórias, onde cada vivência serve de enredo para o próximo roteiro.

 

Foram quatro dias de vivência no Sesc Vila Mariana voltados para confecção de um pequeno aió(bolsinha) de caroá e 1 dia de bate-papo com público aberto na praça de eventos. A rotina de rezas e receitas outra vez se fez presente, todo dia um ritual para concentrar e imergir nas fibras, em si e no compartilhar com o outro. Ao fim do processo, muitos presentes, olhos lacrimejando, propostas futuras e afetos trocados. Via nos olhos de Mestre Audálio a satisfação de tarefa cumprida, realizada. 

Também percebi a importância de quebrar a lógica aparentemente óbvia de quem está acostumado a viver em grandes centros urbanos, onde os sentidos muitas vezes parecem invertidos e por estarmos imersos, nem sequer percebemos. Olhar São Paulo através dos olhos sertanejos de Mestre Audálio foi provocador, uma pausa no barulho constante, um desvio na rotina e na lógica de todos que participaram da vivência. 

 

 

 

 

 

 

Sobre o autor

Laís Domingues

Laís Domingues é arte educadora, artista visual e têxtil e produtora cultural pernambucana. Desenvolve suas pesquisas sobre memória e tramas sociais através da fotografia, do vídeo e da cultura popular desde 2016. É também idealizadora do projeto "Bordando o Feminino", financiado pelo Funcultura da Secult-PE, através do qual viveu por 5 meses em Passira, no agreste pernambucano, compartilhando saberes e recebendo aulas com mestras do bordado de Passira.
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