EntreMeadas: linhas, expressão e cidadania

A exposição com curadoria da jornalista Adélia Borges privilegia peças que entrelaçam artesanato, design, cultura e a convivência de mulheres em associações e coletivos paulistas Por Camila Fróis


Adélia Borges e a artista têxtil Lucinda Bento na abertura da mostra. Foto: Mariana Chama
 

Aberta ao público até fevereiro de 2020 no SESC Vila Mariana, a mostra EntreMeadas revela criações manuais das mulheres artesãs paulistas que se expressam através do bordado, da tecelagem, da renda, dos trançados e de outras técnicas tradicionais aprendidas e transmitidas pela oralidade. 

Essas obras selecionadas pela especialista são assinadas por artesãs cujo trabalho artesanal é um meio de expressão intelectual e manual, de afirmação de identidade e também de geração de renda, ressaltando, assim, o papel dessa atividade para a inclusão social e cidadania das mulheres.“Eu gostei muito da definição de renda que eu encontrei e que está no texto expositivo: são tecidos elaborados com fios contínuos ou entrelaçados uns aos outros, se sustentando mutualmente. É um pouco do que a gente está fazendo hoje, se entrelaçando para nos sustentar mutuamente”, afirmou Adélia na noite de abertura, dia 15 de outubro, quando reuniu na capital paulista  450 pessoas, entre elas mulheres de quase todos os grupos e associações do estado com peças incluídas na exposição.
 

Meadas tramadas por Lucinda Bento. Foto; Mariana Chama

Uma das presenças marcantes da noite foi da artista têxtil Lucinda Bento, escolhida para falar em nome das artesãs. O trabalho de Lucinda que integra a mostra é criado a partir da tecelagem de lã de ovelha, mas seu repertório de criações envolve a trama das mais diferentes fibras como fibra de bananeira, a palha da costa, a taboa, a juta e outras, sempre valorizadas em trabalhos inventivos de tapeçaria com cores vibrantes. Ex-empregada doméstica, ela se tornou Mestra do seu ofício de artesã e ensinou as técnicas de fiação, tecelagem e tingimento para mais de 100 pessoas em Américo Brasiliense (SP). Durante a noite, ela foi homenageada e recebeu com entusiasmo o afeto do público.

Pouco mais de um mês após a abertura da exposição, Lucinda faleceu, vítima de câncer no pulmão, aos 78 anos de idade. “Lucinda foi uma guerreira, uma mulher extraordinária. Ela entendia o artesanato como uma expressão cultural e era uma ativista da área, promovendo colegas e criando uma associação de artesãos em sua cidade. Quantas outras Lucindas, sem acesso a espaços de valorização do artesanato, morrem sem o devido reconhecimento ao seu trabalho”, disse a curadora Adélia Borges sobre o falecimento da mestra.
 

Esteiras tramadas com palha de milho pela Associação de Mulheres de Guapira  e flores de palha de milho criadas por Jorlene Rosa e Esperança Rosa, do Quilombo Sapatu, no Vale do Ribeira, 

As diferentes faces do artesanato paulista

Para além do artesanato tradicional representado em peças como as meadas de Lucinda ou em seleção de rendas sofisticadas como a renda renascença, nhanduti e frivolité, outras criações da Mostra ressignificam técnicas historicamente associadas a uma feminilidade reclusa, conforme reflexão trazida no texto da exposição.  È o caso do trabalho do grupo “Piradas no Ponto", coletivo de mulheres de diferentes idades e profissões da capital paulista que usa o bordado para criar narrativas diversas que variam entre denúncias ambientais, a estética da cidade ou o acervo de plantas do parque Trianon, onde elas se reúnem para bordar juntas.  
 

Peças de renda renascença das Rendeiras da Aldeia, de Carapicuíba. Foto: Mariana Chama

Outras peças são de autoria de grupos estruturados para a inclusão produtiva em bairros periféricos, como a Associação das Artesãs da Linha 9, formada por mulheres do conjunto habitacional Cingapura Madeirite, em São Paulo-SP, ou para atividades terapêuticas, como o grupo da ACTC Casa do Coração, que reúne mães de pacientes que acompanham o tratamento de coração de seus filhos também na capital paulista. Há coletivos ainda que têm nos seu trabalho uma estratégia para trazer à tona a discussão sobre a destinação de resíduos, como o Grupo Mulheres Artesãs da Enseada da Baleia (Cananeia), que atua com a reutilização de redes de pesca de camarão. Na mostra também se destacam grupos quilombolas do Vale do Ribeira e  indígenas como os Guarany Mbya, que têm na confecção dos cestos com fibra de taquara a materialização da ancestralidade presente em sua etnia que habita a Mata Atlântica há milênios.

A diversidade de grupos e motivações para a criação das peças dá, portanto, a dimensão de todos os campos econômicos, artísticos e psicossociais que o fazer artesanal envolve  pelo caráter de transformação social ou cultural que imprimem em suas localidades.


Cestos Guarani das irmãs Poty Justina  Ara Florinda. Foto: Mariana Chama

Oficinas têxteis




Foto: Bruna Valença / Divulgação

Como complemento à exposição, até o final do mês de dezembro (8, 15 e a 22/12 | domingos | 11h às 18h), o Sesc Vila Mariana está oferecendo oficinas artísticas relacionadas a técnicas têxteis gratuitamente. As oficinas trabalharão com bordados coletivos, construção de tessituras em mini tear de papelão, construção de tramas espaciais, fotografia bordada, tapeçaria com restos de retalhos de tecido e outras técnicas. Laís Domingues, quem conduzirá as atividades, é artista visual e criou o projeto “Bordando o Feminino”: um intercâmbio cultural no agreste de Pernambuco com mulheres bordadeiras da AMAP (Associação de Mulheres Artesãs de Passira). Para saber mais e se inscrever, acesse o  site.


Adélia Borges já realizou exposições  sobre  o design e o artesanato em 21 país do mundo, além do Brasil. Em seu currículo acumula 40 exposições e 16 livros, entre eles "Design + Artesanato: O Caminho Brasileiro (2012)", no qual traça um panorama da revitalização recente do objeto artesanal brasileiro. Clique aqui para adquirir o livro e confira aqui entrevista com a curadora. 

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