Identidade em movimento! Entrevista com Adélia Borges

Adélia Borges é autora do livro “Design + Artesanato: O Caminho Brasileiro”, relançado em 2019 em formato ebook, e curadora com mais de 70 mostras no currículo, entre elas a recém-inaugurada “EntreMeadas”, no Sesc Vila Mariana, em São Paulo-SP. Nessa entrevista, ela fala sobre o artesanato na contemporaneidade e transita por questões como renovação das tradições, autoria e mercado. Otimista, ressalta todas as potencialidades do segmento artesanal em uma era em que o mundo se engaja no movimento "makers".

 


Cocar de canudo  de plástico feito por indígenas Kayapó. Foto: Simone Giovini / Associação Floresta Protegida 

“Todos nós, enquanto estamos vivos, estamos em movimento, nossa identidade está mudando. O que você pensava ontem é diferente do que você pensa hoje, então acho que o desejo de que o artesanato fique congelado em algum lugar é o desejo de uma nostalgia regressiva que não tem a ver necessariamente com identidade”.

Com essa provocação, Adélia Borges nos instiga a pensar sobre o direito do artesão de se renovar e reinventar suas próprias tradições sem que o seu trabalho perca a capacidade de materializar nossas identidades culturais. Sua obstinação por estudar, retratar, discutir e revelar o artesanato e o design brasileiro para o mundo a levou para 21 países e para as mais diferentes instituições e cargos no Brasil. Em mais de 30 anos de carreira, a profissional transitou por diversas áreas do design nacional e internacional, seja como escritora, editora na Revista Design&Interiores, professora da Fundação Álvares Penteado - FAAP, curadora, palestrante ou diretora de espaços culturais como o Museu da Casa Brasileira, pertencente à rede de museus do governo paulista.

Mais do que documentar o universo criativo relacionado ao artesanato e ao design no país, Adélia nos instiga a mudar a forma de pensar esses temas. Nesse sentido, sempre transcendeu a discussão sobre a forma e a estética dos objetos e se interessou pela história de quem os criou. Com a insistente pergunta sobre o nome de quem deu forma à cada artefato com que se depara, ela reivindica o reconhecimento da autoria das criações, independente do grau de instrução de quem desenvolveu uma peça, seja um artesão, um designer ou um artista visual. Nesse sentido, a autora têm um papel estratégico ao (re)construir as narrativas sobre as práticas - materiais e imateriais - que contribuem para a formação das identidades culturais do país.

No universo do artesanato é possível ser inventivo sem romper com a tradição?

Eu acho que todos nós, independentemente da classe social que a gente é, a gente tem direito à mudança e o mundo é uma eterna mudança. A vida é uma eterna mudança. Então, eu não gosto desse adjetivo “autêntico”, como ele é usado. “Isso pra ser autêntico precisa ser mantido exatamente como era”. Eu acho que o artesanato nasce dessa capacidade de lidar com matérias-primas ao redor de forma criativa. Então muitos povos indígenas usavam penas de animais, para fazer adereços de arte plumária. Hoje não é mais permitido você comercializar esse tipo de produto. Então, muitos estão usando canudinhos de plástico para fazer seu cocar. E tem gente que fala assim “ah desvirtuou a tradição”. Para mim não desvirtuou. A pulsão artística e estética desse produto continua lá, o que mudou foi o material usado. Então, na verdade, esse jogo entre tradição e inovação está presente o tempo todo na nossa vida. A gente tem as origens, tem todas as influências do dia a dia, da contemporaneidade e você vai mudando.  

Você acredita que o olhar para o mercado pode engessar o processo criativo dos artesãos?

Eu acho que não. Eu acho que muita coisa se faz em nome do tal “mercado”, essa entidade muito abstrata. E muitas coisas horríveis se faz em nome de um mercado, mas muitas coisas boas também, porque o artesanato é uma atividade que você faz para gerar renda. Então, se você está de costas para o que o mercado está pedindo, você está insistindo em fazer tipologias que as pessoas não usam mais, é um tiro no pé. Então eu acho a influência do mercado não pode ser impositiva “olha tem que fazer roxo, porque a cor pantone desse ano é roxo”. Isso acho descabido.  Agora dizer “olha, ao invés de fazer caminho de mesa que não é mais usando, vamos fazer jogo americano, padronizar o tamanho...” Essas são interferências que podem satisfazer o mercado e não são significam um corte no processo criativo do artesão, nem um corte naquela tradição que está em constante renovação.

O que muda no contexto da produção quando designers, o mercado e a imprensa passam a reconhecer a autoria das peças?
 

Bonecas de pano do acervo Rossini Tavares de Lima, década de 1960, expostas em exposição "Puras Misturas" com curadoria Adélia Borges na inauguração do Pavilhão das Culturas Brasileiras em 2010. Foto: Mariana Chama

O que muda é que passa haver uma valorização maior. Hoje, existe muita discussão sobre a apropriação cultural, por exemplo. O que acontece é que muitas vezes representantes das grandes empresas, que são poderosas e que visam o lucro, vão em uma comunidade e “se inspiram” nessa comunidade, absorvendo signos de muita antiguidade, com significado simbólico muito forte, para incorporar em seus produtos. E fazem isso com um “vampirismo”, sem estabelecer uma troca devida com os moradores e sem fazer um reconhecimento. Quando falo em reconhecimento, estou falando não só em autoria, como estou falando em remuneração.

Mesmo quando vemos o trabalho de designers em conjunto com os artesãos, muitas vezes os artesãos não têm nome, ou só tem prenome ou não são citados como autores, mas só como executores de uma técnica. Eu acho que os processes mais ricos são aqueles em que os designers se colocam como co-criadores e não tomam para si a autoria daquilo que foi feito a partir de técnicas locais, de conhecimentos locais, de materiais locais. E acho que o artesão tem que ter nome e sobrenome. Muitas das soluções mais lindas que já vi de design são soluções que a gente não sabe quem foi autor.


À esquerda, bonecas da Associação dos Artesãos de Riacho Fundo, de Esperança (PB) e, à direita, poltrona dos Irmãos Campana, criada com bonecas do grupo. Foto: Mariana Chama
 

O que despertou sua paixão pelo artesanto e pela cutlura popular?

Meu pai e minha mãe tiveram uma baixíssima escolarização, não chegaram a ter nem seis meses de vida escolar. No entanto, ambos eram muito sábios, então, para mim, desde criança sempre me encantou muito essa sabedoria que as pessoas trazem por essa transmissão oral da cultura, por essa verdade que vai passando através de gerações. Então eu acho que o que me seduziu e me marcou foi essa coisa familiar.

E eu cresci em Ribeirão Preto e não tive muito contato com museus, exposições de arte, nada disso, mas eu me lembro uma vez que eu vi em uma loja qualquer um candeeiro que estava ali meio jogado e foi o primeiro objeto que eu comprei - e está comigo até hoje - porque acho um exemplo de um design perfeito, que atende as funções e tem uma forma muito depurada, muito linda. Aí acho que, ao longo do tempo, o artesanato fez o meu coração bater mais forte. 

O que torna um produto um objeto de design? Um produto criado por um artesão pode ser considerado um trabalho de design?

O conceito de design tem a ver com o ato de projetar. Ele vai além do ato de desenharNa verdade, a origem da palavra é desígnio, que nos remete ao futuro, algo que é projetado hoje para ser usado amanhã. É a capacidade de planejar um objeto para atender uma necessidade específica, criando um projeto que vai ser executado e reproduzido em seguida.

E como você começou a criar essas conexões entre artesanato e design?


Meadas da artista têxtil Lucinda Bento apresentadas na Exposição  EntreMeadas, em cartaz de outubro de 2019 a fevereiro de 2020, no Sesc Vila Mariana. Foto: Mariana Chama

Eu comecei a escrever mais sobre design em um tempo em que o que o substantivo design quase necessitava de um adjetivo industrial. E eu comecei a perceber que o Brasil tinha nesse momento, nos anos 80, uma industrialização incipiente e que o ato de criar e de desenvolver produtos, podia se relacionar a produtos que tinham uma reprodução artesanal e não apenas uma reprodução industrial.

E esse ato do projeto, essa ideação, uma idealização na cabeça em que você pensa como você vai fazer, como você vai usar essa matéria, que técnica você vai empregar, isso está presente também na reprodução artesanal e então eu comecei a me abrir para isso.  

E hoje fico muito feliz de ver que nos países altamente industrializados há esse entendimento de que esse substantivo design pode ser acompanhado do adjetivo industrial, do adjetivo artesanal e hoje você tem também o design digital. Há uma confluência desses modos de produção, então pode ser que você esteja usando uma calça produzida industrialmente, com as medidas tiradas digitalmente e ela pode ter um bordado aplicado artesanalmente.  E isso você pode ver nos países do hemisfério norte onde  o movimento “Do It Yourself” e o movimento dos makers ganhando muita força.


Exposição Encontros: Design + Artesanato, no Museu A Casa em 2008

Você já mencionou que Brasil seguiu as referências de escolas de design que priorizam o design industrial e funcional. Você acredita que, a partir do encontro do design com o artesanato, estamos criando um novo caminho para o desenvolvimento de produtos?

Cesta de piaçava do Núcleo de Arte e Cultura Indígena de Barcelos (Nacib), de Barcelos, AM. Co-design de Sérgio J. Matos. Apresentada na exposição “Origem vegetal: A biodiversidade transformada”, no CRAB, Rio de Janeiro, em 2016

O Brasil importou um ideário de design que veio da Alemanha que era um país altamente industrializado e importou isso acritamente, então a gente trouxe regras relacionadas à estética funcionalista de que a forma segue a função e tão somente a função e isso abafou um pouco a expressão da cultura no nosso design. Nesse sentido, eu acho que a partir dessa aproximação entre artesãos e designers - que vemos desde o final dos anos 80 -, está criando um novo caminho para o desenvolvimento de novos produtos e isso está florescendo. Se você vai em uma loja como a Artiz e você vê a oferta de produtos que resulta desses processos quando eles são respeitosos você vê realmente caminhos muito bonitos surgindo e acho que é algo que está acontecendo no Brasil e está chamando atenção fora daqui também. Tanto que eu já fui convidada para fazer palestras em 21 países fora o Brasil e muitos desses convites é para falar do meu livro design + artesanato onde eu conto o processo dessa aproximação.
 


Exposição “Origem vegetal: A biodiversidade transformada”, no CRAB, Rio de Janeiro, em 2016. Foto: Guilherme Lima

Fora do Brasil, quais são os bons exemplos de fortalecimento do setor artesanal?

Acho que vários países da América Latina têm exemplos interessantes. A Colômbia é um pais onde as políticas públicas de incentivo ao artesanato são constantes e mais antigas. No hemisfério norte também a gente vê um valor renovado para o feito à mão. Nesse mundo de gadgets, a gente vê uma valorização do artesanal, inclusive de objetos caros porque o consumidor começa a distinguir isso como uma coisa que merece custar mais caro do que o mesmo objeto “standartizado” por uma uma produção industrial.   

 

Ebook “Design + Artesanato: O Caminho Brasileiro”

Um dos principais livros de autoria de Adélia Borges "Design + Artesanato: O caminho Brasileiro", publicado em 2012 pela editora Terceiro Nome, foca na questão da identidade brasileira presente no trabalho de artesãos e na atuação de designers na revitalização do objeto artesanal. O obra foi relançada em 2019 em versão ebook. Para adquirir, clique na imagem abaxo:

 

EntreMeadas

Confira matéria sobre exposição EntreMeadas, de curadoria de Adélia Borges em cartaz de outubro de 2019 a fevereiro de 2020, no Sesc Vila Mariana - São Paulo -SP. 


Foto: Mariana Chama

Conteúdos relacionados