Quem são os colecionadores de arte popular do Brasil?

Amanda Porfirio

Percorrendo diferentes regiões, culturas e identidades, eles são como andarilhos, buscando diversas manifestações artísticas, tendo quase como uma missão de vida, encontrar novos artistas. 

Há quem tenha tido contato com arte popular em rápidos momentos durante a vida, e há aqueles que vivem dela e por ela. Do artista ao galerista, passando pelos colecionadores, a arte popular vai além de um objeto encantador aos olhos. É um retrato da vida e da história de um povo. “Conhecermos as histórias, a obra, como ela é feita. A história do artista, o que ele passou. As cores, os traços, a pluralidade, os movimentos. A arte popular tem vários encantos. Ela toca, ela mexe”. 

 

André Malta é um mineiro que se apaixonou por arte popular desde a infância, entre uma andança e outra com o pai, que vendia artesanato brasileiro para algumas galerias. “Às vezes meu pai me pegava, me levava na loja, eu fazia uma vendinha aqui, outra ali, eu só observava, né? Eu ficava só observando, achava aquilo bonito”, conta.

Como um assíduo observador, de olhar sensível à arte, André passou a se interessar ainda mais por todo aquele universo de cores, formas e belezas tão singulares. Foi na juventude que aconteceu o seu grande encontro com a primeira obra que viria a selar o seu destino. 

Arte de família

A família Julião, notadamente conhecida por produzir obras incríveis no entalhe da madeira, fez parte do início da trajetória de André como colecionador. “Em meados dos anos 80, eu trabalhava no banco ___ do Brasil, e eu tava dando uma passeada no horário de almoço. E aí eu me deparei com uma exposição da família Julião. A família Julião é daqui de Minas Gerais, em Prados, onde eles fazem bichos de madeira. E aquilo me deixou extremamente feliz, porque eu já conhecia o trabalho deles”, relata. 

A primeira obra adquirida por André, foi da família Julião, e também vieram da mesma família as obras que ele passou a vender para lojas do Rio de Janeiro. Essa relação de encantamento, entrelaçada entre colecionadores, galeristas e artistas, historicamente tem sido substancial para que a valorização da arte popular se fortaleça. 

A jornada de André como colecionador foi se ampliando para outros artistas e obras. Ele passou a vender para outros estados e expor em algumas galerias de referência. Esse contato com novos trabalhos, foi fortalecendo sua relação com a arte popular e, consequentemente, criando um vínculo com novos artistas. “Minha paixão começa a surgir porque a gente conhece a arte, as histórias da região, né? Que me fazem ficar encantado, me seduzir, e ver que além de de um negócio, era algo extremamente valioso. Porque eu também tava "ajudando" os artistas populares a aparecer mais no mercado, né?”

Não demorou muito para que as coleções de André fizessem presença em várias exposições, incluindo uma do Roberto Menescal, na qual ele foi convidado a integrar com algumas de suas peças. A dinâmica de estar presente dentro das exposições, fez com que a arte popular se tornasse mais conhecida e que os negócios fossem se ampliando.

A arte como negócio

Com o passar do tempo o interesse das pessoas pela arte popular passou a crescer e o contato com as obras e as histórias de quem as produzia, ficou mais próximo. Colecionadores como André Malta e Marco Aurélio Pulchério têm uma participação importante nesse processo. Marco Pulchério sempre teve alguma peça de arte popular, antes mesmo de ser colecionador. A sua relação com a arte também é motivada pelo encantamento e, especialmente, pela paixão.

“Minha coleção, o propósito dela é a paixão, ela é puramente paixão. Se eu me encantei, se aquilo me diz algo, passa a fazer parte do meu dia a dia. Eu não tenho uma grande coleção, mas tudo o que eu tenho, tem importância. Em especial, que é o que eu acho mais válido, importância pessoal.”

Com uma empresa presente no mercado de design de interiores, Marco sempre trabalhou com atacado e passou a integrar obras de artistas de arte popular dentro do seu portfólio. “O volume maior nós fizemos com a arte feita no Cariri, ali no centro de arte do mestre Noza, que é feita em talhes. Então, a gente teve Francisco Graciano e vários autores do centro do mestre Noza. Nós lançamos uma grande coleção deles, isso tem uns 14 anos”, relata.

Com a oportunidade de expandir a arte popular através das vendas, Marco entende o seu papel, também como colecionador, no fortalecimento da cultura. “O curador, o galerista, o profissional que atua fazendo essa interlocução mestre-público, ele é de suma importância, porque ele dá visibilidade. Ele faz um recorte, ele ajuda o público leigo a entender e perceber sutilezas que não obrigatoriamente seriam percebidas de uma forma orgânica. Então, esses recortes, em especial, que são feitos pelas curadorias e consequentemente pelas galerias, são os que estão ajudando a contar essa história de uma forma mais ordenada. Eles ajudam a ordenar a percepção e a compreensão do tema”.

A arte e os artistas que Marco tem contato, são apresentados para todo o Brasil através de sua empresa de design que, inclusive, também já está expondo e exportando para outros países, como: Portugal, França, Suíça e Inglaterra. 

Arte de brinquedo

O encantamento e paixão pela arte independem de idade, gênero e região. Maria Amélia é uma colecionadora, galerista e nordestina, advinda de Alagoas, que teve na brincadeira de infância o seu primeiro contato com obras de arte popular. 

“Todo sábado a minha mãe levava a gente para a feira, que ficava bem longe da Fazenda. Ficava num município rural, um pouco mais longe. E aí eu convivia com potes de barro, com boneca de pano, com utensílios, com aquelas coisinhas de plástico. Aquilo me fascinava muito, sabe? [...] Tínhamos brinquedos de uma marca chamada estrela, que eram caras, eram bonecas caras que meu pai comprava pra gente. Mas, eu só me interessava pelas bruxinhas. Aí pedia para a costureira fazer as roupinhas para ela, para trocar. Eu deixava para lá as bonecas caras.”

A paixão à primeira vista com os brinquedos de arte popular, despertou na alagoana um apego pelos objetos tão singulares. Ela passou a colecionar alguns deles, até que ganhou de presente um em especial, que considera a primeira grande obra da sua coleção. “Eu não sabia nem o que era, nem de onde era. E eu amei aquele macaco, eu amei aquela peça, me acompanha até hoje. Aquilo me trouxe uma alegria tão grande, quando eu fiquei com esse macaco. E a história dele é fantástica, né? Esse macaco é nada mais nada menos, do que uma peça do Nino, um artista super importante de Juazeiro do Norte, Ceará.”

Nino do Ceará, era nada mais que João Cosmo Félix, um dos grandes artistas do Cariri, que tem como principal característica, esculturas de animais em madeira. 

A “descoberta” do Nino fez parte de um dos grandes marcos de Maria como colecionadora e, posteriormente, galerista. Para ela, o mais importante é que cada obra adquirida tenha um significado maior. “Eu não compro nada que não seja pensando na coleção. Eu posso até vender, porque eu sou hoje também uma galerista, mas se eu não vender não tem problema algum, porque aquela obra pode fazer parte da coleção, e ela vai enriquecer a coleção”, afirma. 

Para ela, um dos maiores propósitos de sua vida como colecionadora e galerista é fortalecer e divulgar a arte popular de Alagoas, que há pouco tempo tinha pouco destaque e era até desconhecida no resto do país. Para isso, o seu trabalho vai além de apresentar as obras. “Além da parte física da coleção que a gente tem das obras, a gente também tem vídeos documentários, que falam desses artistas, temos inúmeros vídeos documentários, que com entrevistas e mostrando a obra dos artistas, onde ele tem a fala desse artista primordial. É primordial para que a gente conheça a história de vida dele e a produção dele, para que se torne tudo muito mais forte e verdadeiro.”

Apesar de enxergar um trabalho árduo ainda a ser feito para fazer crescer ainda mais a arte popular no país, ela reconhece o avanço que se teve nos últimos 10 anos. Parcerias foram feitas com galerias, exposições, divulgações nas redes sociais e isso foi transformando também a visão da sociedade. Antes as pessoas que tratavam as obras como objetos menores, simples artesanatos, deixando nas casas de praia, longe da moradia principal, agora enxergam um valor maior nos objetos e nos artistas que o produziram. 

Porém, ela levanta uma preocupação sobre como todo esse crescimento do interesse também pode afetar os artistas e sua produção. Segundo ela, a necessidade dos artistas em vender em larga escala, está fazendo com que eles passem a produzir várias peças iguais, para atender pedidos e perca um pouco da sua inventividade. Para Maria, é necessário que esses artistas tenham mais tempo e estímulo para criar de forma ideal. 

É porque para valorização dessa arte, precisa de tempo para que esses artistas que eram fenomenais há 10 anos atrás, e que hoje são simplesmente artesão, fazem um artesanato bonitinho, mas não é tão poderoso como antes, é que eles retomem aos poucos, que ele façam, por exemplo, que eles atendam uma demanda, mas que tenha tempo para fazer, para experimentar suas coisas nos seus ateliês, para que eles continuem poderosos incríveis e poéticos, e que todo mundo goste, entendeu? Eu acho que esse é o papel do curador, de continuar indo na casa de todo mundo. Eu vou na casa de todos ainda.


 

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Amanda Porfirio

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