David Rogério Ojeda

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Contato David Rogério Ojeda

As mãos que criam, criam o que?

Esculturas ornamentadas e objetos de uso pessoal e doméstico feitos a partir de um resíduo da
agropecuária: o osso bovino. Vasos, ítens de escritório, petisqueiras, chaveiros e bijuterias.
Frutos de uma iniciativa que realiza o aproveitamento de subprodutos de uma atividade
econômica importante na região, liberando o meio-ambiente do depósito inadequado que
ocorria anteriormente com o descarte do osso em beiras de rodovias, mau cheiro e outros
problemas gerados pelas sobras da atividade.

O artesão David Ojeda foi a principal liderança local na implementação dessa atividade
quando, em 1998, o município de Jardim realizou o Fórum de Desenvolvimento Local Integrado
e Sustentável (DLIS) e foram apontadas as três principais potencialidades locais: o turismo, o
agronegócio e o artesanato. Em 2001 o SEBRAE/MS realizou um levantamento para identificar
as matérias primas locais disponíveis que apontou as presenças do osso, do couro e da madeira
confirmando a vocação para a atividade. As primeiras oficinas ocorreram em 2002 primeiro
com foco na limpeza e preparação dos ossos e em seguida no desenvolvimento dos produtos,
já com a participação do designer italiano, Giulio Vinaccia, que estilizou a iconografia
representativa da fauna e flora local com imagens de animais, como tucano, arara, jacaré, onça
pintada e peixes, que passaram a ornamentar as peças.

A confecção dos objetos artesanais em osso cumpre algumas etapas de produção que se inicia
pela coleta de matérias primas. O osso provém de açougues e frigoríficos, qualificados com o
selo da vigilância sanitária, e o que seria depositado de forma irregular no meio-ambiente
passa a ser reaproveitado. A madeira é obtida nos descartes de marcenarias e madeireiras da
região, assim como em fazendas que extraem o produto com autorização do Instituto Brasileiro
do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis IBAMA. Depois vem a limpeza, feita
com uma faca, para a raspagem dos restos de carne impregnados. A gordura – ou tutano – é
retirada de dentro dos ossos, de forma que permita seu reaproveitamento na confecção de
sabão utilizado mais tarde na limpeza dos ossos beneficiados. São fervidos por dias, em três
etapas, em caldeirões que dispensam o uso de gás GLP pois reaproveitam na queima os restos
de pó de serra, decorrentes da operação de lixamento de peças de madeira. Depois expostos

ao sol por outros dois ou três dias para que sequem naturalmente. Na terceira etapa os ossos
são serrados conforme medidas e volumes desejados, tem a sua base lixada e são
armazenados. Por último, vem a finalização das peças, quando ocorre o desenho da
iconografia, a escultura que imprime os traços e define as formas e precisão da peça e o
polimento. Só então as peças são desgastadas e alisadas com lixa fina e recebem um
acabamento final de cera.

Quem cria?

Neto e filho de carpinteiros David Rogério Ojeda começou a trabalhar com artesanato por volta
dos doze anos de idade. O pai tinha uma serraria no Pantanal e ele já fazia o aproveitamento
da madeira. Começou entalhando com uma faca, produzindo alguns desenhos na madeira.
Comprou o primeiro jogo de formão e foi se aprimorando. Com quatorze anos já trabalhava
como ofício, produzindo placas e outras encomendas. Aos dezessete já era um profissional. Foi
então para o Rio Grande do Sul, região da fronteira, convidado para uma exposição em Dom
Pedrito com planos de passar três meses na região e acabou ficando por dez anos. Trabalhou
em boa parte do Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina fazendo esculturas, placas, troféus em
madeira. Retornando para Jardim logo se envolveu com a iniciativa que crescia no campo do
artesanato e não parou mais. Foi convidado a lecionar nas oficinas e em seguida se tornou
coordenador do Programa Mãos à Obra, o qual se dedicou de 2002 a 2013. Em 2006 montou
sua empresa, a Amo Bio Design, desenvolvendo seu próprio trabalho autoral, móveis rústicos e
de demolição com detalhes em osso e ampliando a atuação para a área de marcenaria
planejada.
À frente dos projetos e de sua empresa, David participou de feiras e exposições, fechou
grandes negócios, ganhou clientes e visibilidade nacional e internacional. Muitas encomendas
se sucederam após a primeira exposição no Museu de Arte Contemporânea, em Campo
Grande. Os produtos foram incluídos no Manual Iconográfico do Estado, premiados e
reconhecidos em todo o Brasil incluindo o prêmio TOP 100 do SEBRAE no ano de 2006. Mais
tarde, em 2010, David recebeu do governador do Estado a comenda do Mérito Cultural no
Festival de Inverno de Bonito. Com o patrocínio da ONU, o Programa ganhou notoriedade
internacional depois de ter sido selecionado, ao lado de onze outros empreendimentos, para a
mostra “Mato Grosso do Sul Visto Pelo Mundo”, ocorrida em Nova York, em 2014.

Onde cria?

Ao longo do século XX, a pecuária dominou a economia de Jardim, município de Mato Grosso
do Sul, e os produtos derivados da atividade passaram a ser amplamente aproveitados. A carne
abastece o mercado nacional e é exportada para a Europa enquanto o couro, o sebo, a canela,
o pêlo veem encontrando outros destinos na cadeia produtiva. O osso do animal tem sido
destinado ao artesanato com produtos que incrementam a economia local e contribuem para
aliviar o meio-ambiente do depósito inadequado de resíduos.

Mesmo sabendo da dificuldade em formar novos artesãos, do tempo e custo do aprendizado,
David conserva o desejo de retomar as atividades do projeto, hoje desativado, aprimorar
processos, formar novos artesãos. “É uma arte que não pode morrer. Já pensou se eu morro,
tenho que deixar as pessoas sabendo o que eu faço, mas ainda não estou contente, quero ver a
coisa andando. O artesanato é uma opção para o desemprego na região. Sao cerca de 30
pessoas. Eu não vejo que tem necessidade de ser politico para fazer alguma coisa para as
pessoas."

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