Mestre Expedito (Expedito Antonino dos Santos)

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Contato Mestre Expedito / Raimunda

As mãos que criam, criam o que? 

Reconhecida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), como patrimônio nacional, a arte santeira piauiense é considerada bem de inestimável valor cultural. Sua importância é definida pela renomada produção de objetos de madeira talhados por escultores de origens populares: santos, anjos, oratórios, entalhes, figuras regionais e ex-votos. A criatividade em dotar a madeira de formas com temáticas religiosas fez surgir o ofício de santeiro, designação dada aos detentores desse saber tradicional. Considerado o núcleo mais importante de santeiros do país, os mestres do Piauí continuam de formões em punho, fazendo questão de usar troncos maciços do nobre cedro para esculpir figuras divinas que primam pela técnica apurada, solidez e beleza. Eles resistem e fazem escola onde cada artista define um estilo próprio, constrói sua identidade e inspira sucessores. O IPHAN catalogou 45 santeiros denominados “Senhores de seu ofício: arte santeira do Piauí”. Entre eles, Mestre Expedito, que eterniza em suas figuras o principal traço das imagens sacras do Piauí: a doçura.

Quem cria?    

Expedito Antonino do Santos é um dos mais importantes representantes da arte santeira do Piauí, que tem o mestre Dezinho como seu maior expoente. Apesar do reconhecimento tardio, as investigações com a madeira começaram cedo, por volta dos 10 anos, na zona rural. Moravam em uma fazenda, o pai era fazendeiro, criava gado e queria que ele o ajudasse, mas ele dizia que não servia para aquele serviço. Autodidata, já naquela época, sem que ninguém ensinasse, o menino, sozinho, fazia ex-votos para as procissões, que por lá eram chamados de “milagres”. Produzia também jogo de malas/baús, fazia calçados, trabalho de marcenaria, instrumento musical - comprava a escala musical e copiava para os colegas. Não cobrava, oferecia como presente. 

Aos 29 casou-se com Raimunda. Pouco depois, nos anos 70, a pequena cidade onde morava, Domingos Mourão, foi emancipada e houve uma feira pra comemorar. O prefeito, sabendo de sua produção, pediu que trouxesse alguns trabalhos para expor. Todos ficaram interessados e no ano seguinte ele participou novamente. Inspirado pela religiosidade da mãe, Raimunda Maria dos Santos, responsável pelas memória de infância de idas e vindas a igreja, pensou em produzir imagens de santo. O primeiro foi Santo Antonio e em seguida Sao Francisco. Desde esse dia passou a se dedicar a arte santeira. 

O convite para vir para Teresina não tardou. A mulher do governador viu suas peças e imediatamente o convidou a trabalhar em um Centro Social profissionalizante recém-inaugurado na capital. Expedito passou um mês trabalhando e deixou a esposa Raimunda cuidando dos três filhos pequenos. Ao concluir o trabalho e se preparar para retornar pra casa, a primeira-dama fez o convite para que se mudasse com toda a família para Teresina. E assim o fez. Era 1969, Expedito veio ensinar sua arte e ficou. Foram três anos ensinando o ofício a jovens em escolas públicas, multiplicando sua obra. Seu trabalho então já havia se tornado conhecido na capital e em cidades próximas. Começou a receber muita encomenda, deixou o ensino e passou a se dedicar a elas. Esculpiu peças maiores e de maior valor. Conheceu Mestre Dezinho, trabalhando na “Igreja da Vermelha” (ou Nossa Senhora de Lurdes) onde fez diversas esculturas, considerada uma de suas obras primas. Lá Expedito esculpiu as molduras da via sacra e a pia batismal. Muitos acham que foram mestre e discípulo quando na verdade foram colegas de ofício. Viajaram muito juntos representando os artistas santeiros do Piauí e Expedito incorporou fortes elementos estéticos regionais dessa influência. Após ter conhecido a obra do Aleijadinho, passou a imprimir um estilo primitivo ao seu trabalho, mais próximo do barroco, das feições naturais do corpo. 

Expedito começa a se projetar como artista escultor ao ganhar o primeiro lugar de uma Mostra em uma feira de arte popular organizada pelo Governo do Estado. Seguiu ganhando prêmios e notoriedade no Brasil e exterior, sendo considerado hoje um dos mais expressivos santeiros em atividade no país. Acredita ter cerca de 12 mil peças espalhadas pelo mundo: predominantemente São Francisco, Nossa Senhora da Conceição, Santo Antônio e anjos, muitas delas em algumas das 50 igrejas no Piauí, Rio de Janeiro, e outros países, como o Chile, onde foi convidado pelo Itamaraty a representar o Brasil. Um de seus anjos decora a Casa Branca e há outro no Vaticano. Em 2005, Mestre Expedito foi condecorado com a Medalha do Mérito Renascença do Piauí, maior comenda concedida pelo Governo do seu Estado. Em 2019 foi homenageado pelo Museu Janete Costa a convite do secretário de cultura de Niterói. Citado em muitos livros e publicações, no Brasil e fora, recebe muita ligação e pessoas no atelier: lojistas, colecionadores atrás da oportunidade de adquirir uma de suas obras.

Com um trabalho exigente, completamente voltado para a arte santeira - santos, anjos, cenas bíblicas, como Adão e Eva no Paraíso - não gosta de ser chamado de artesão. Define-se um santeiro. O refinamento de sua arte exerce grande influência na nova geração de escultores de Teresina que, mantendo a tradição, desenvolvem um estilo próprio e consolidam ainda mais a imagem do Piauí na arte santeira. 

Onde cria?

Mestre Expedito nasceu em Domingos Mourão, Piauí, no ano de 1932. Morando muito longe do mar, mas com uma queda especial por barcos, se inspirou em uma de suas obras mais famosas: um barco com mais de três metros de comprimento, com os apóstolos dentro. Mudou-se para Teresina em 1969. Seu atelier, um galpão bastante grande bem ao lado da casa é onde trabalha ainda hoje. “Um dia desses fez uma peça grande, de 1,2m”, diz Raimunda, mas ela nota que ele já está cansado - trabalha um dia, no outro descansa. Mesmo com a idade avançada, o artista e sua alma criativa, seguem fazendo planos de continuar. Vivendo somente de suas esculturas, Expedito formou todos os filhos e hoje começa a pintar telas, as quais chama de pintura primitivista.

Fonte: Artesanato Piauense / Arte do Brasil / Piaui 2008 / Arte Popular Brasil