Mestre Amadeu Gonçalves de Sarges

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Quem cria?

Para o mestre Amadeu Gonçalves de Sarges, “cada artesão tem uma história dentro de si''.

Boa parte da história de Amadeu se desenvolve junto ao miriti, espécie de palmeira nativa do Brasil, e muito presente na região onde vive, no município de Abaetetuba, no estado do Pará. 

Um dia, Amadeu foi levar minha mãe em Belém, capital do estado, para fazer uma cirurgia, e no caminho ele viu a praça do Carmo toda colorida, porque era época do Círio de Nazaré. Aquela imagem dos brinquedos coloridos dançando nas girândolas e a quantidade de gente reunida, o impressionou e despertou nele grande alegria. Inspirado por aquele momento, pediu por sua mãe, colocando a intenção de que corresse tudo bem com o procedimento cirúrgico, e que Nossa Senhora lhe desse um recomeço, uma luz para que no outro ano ele estivesse vendendo brinquedo na festa.

Amadeu ainda não tinha conhecimento de como cortar o miriti e esculpi-lo, mas foi para casa disposto a aprender. Sua intenção expressa desde o seu coração, ganhou asas e cores e poucos anos depois desse evento, já havia se feito artesão. Um ano depois  retornou ao Círio de Nazaré para vender os brinquedos de mestre Folha, já falecido, e no ano seguinte novamente. Nesse segundo ano, levou 250 brinquedos e foi surpreendido por uma chuva que danificou suas peças, retirando toda a pintura que na época era feita com tinta a base de anilina. Amadeu apelou novamente para Nossa Senhora e mesmo sem pintura todas foram vendidas. 

A partir daí se dedicou a aprender com mestre Folha o artesanato de miriti. Além de mestre Folha, Amadeu também trabalhou com Célio, Miranda e Jazo, e juntos se desenvolveram enquanto artesãos. As primeiras peças que cortou foram uma pombinha e uma cobra. Esses foram os primeiros passos de uma caminhada que já tem mais de 35 anos de experiências. A cada ano Amadeu foi recebendo maior demanda e hoje tem um grupo familiar que o acompanha e produz com ele todo tipo de brinquedos de miriti.

“A arte do miriti me comoveu com o amor e a dedicação que a gente vê no Círio de Nazaré. (...) A gente é muito agraciado por Nossa Senhora pela arte e pelo dom que possui”.

As mãos que criam, criam o que?

Mauritia flexuosa, popularmente conhecido como miriti, é uma palmeira que faz parte do cotidiano dos  ribeirinhos do município de Abaetetuba. Conhecido como isopor da  Amazônia, a palha do miriti é usada para cobrir as  casas, sua tala é usada na produção de cestos,  seu  tronco para a construção de canoas, seu fruto vira doce e o tradicional mingau de arroz, feito na região. E é com o talo, ou braço, do miriti que se faz os brinquedos, reconhecidos como patrimônio cultural imaterial do Estado do Pará, além de ter sido considerado elemento estruturante do Círio de Nazaré pelo Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (IPHAN), em 2004.

A tradição do brinquedo de miriti existe há dois séculos e vem sendo passada através da oralidade. Alguns pesquisadores acreditam, a partir dos relatos dos mais velhos, que as crianças ribeirinhas foram as primeiras a experimentar o miriti na confecção dos próprios brinquedos, uma vez que não tinham acesso aos brinquedos industrializados. 

O fato é que desde a primeira procissão do Círio de Nazaré, em 1793, os brinquedos de miriti estavam presentes, colorindo as ruas e os céus de Belém, passeando nas girândolas, também feitas com miriti, uma espécie de cruz com vários braços, onde são amarrados os brinquedos. Esses preciosos artefatos funcionam como ex-votos, uma vez que são levados pelos devotos de Nossa Senhora de Nazaré, em agradecimento a uma prece alcançada. 

Além dos brinquedos mais comuns e procurados, como os barcos, os dançarinos, cobras e pássaros, Amadeu cria seus próprios brinquedos, inspirado na vida local, como a rabeta, um barco a motor, móbiles, frutas. Para Amadeu, um de seus trabalhos mais representativos é o Círio de Nazaré, com mais de 5 mil peças. Igrejas, carros dos anjos, pagadores de promessas, padres, todos os elementos e personagens que compõem essa linda Festa.

Um aspecto fundamental da arte de miriti é a sua sustentabilidade, visto que apenas as folhas da palmeira são utilizadas. Depois de esculpido, colado e lixado, o artesanato recebe cores com tintas adequadas para uma boa durabilidade.

Onde cria?

Abaetetuba, que significa "reunião de homens verdadeiros", na língua tupi, é conhecida como a capital mundial do brinquedo de Muriti. Está localizada na região nordeste do estado do Pará, a 60 km de Belém, no Baixo Tocantins e possui uma rede hidrográfica bastante vasta, sendo quase toda navegável, contando com florestas de terra firme e de várzea. A cidade abarca um conjunto de 72 ilhas que são habitadas por comunidades ribeirinhas e quilombolas que possuem memórias, costumes e práticas culturais distintas.

A beira do rio Guamá é o ponto de encontro entre as comunidades que vivem nas ilhas e a população urbana e por estar mais situada no cais da cidade, abriga a mais rica feira do município. A localização facilita o escoamento dos produtos trazidos de barcos ou canoas, pelos ribeirinhos que vendem sua produção para os consumidores diretos, ou para os atravessadores. Estes são uma figura muito tradicional na região que navegam pelas comunidades, vendendo alimentos e toda espécie de produtos utilizados no dia a dia. Sua importância é refletida na sua representação presente na fabricação dos brinquedos. Uma das histórias que circula na região conta que a cobra-grande – também representada nos brinquedos - , protetora da beira, impede a mudança de local da feira. Dizem que sempre que um prefeito pensa na possibilidade de mudar a feira de lugar, a cobra-grande se põe a mexer e quebra calçadas, expressando seu descontentamento.

A região de Abaetetuba possui miritizeiro em abundância, também conhecido em outras regiões do país como buriti. É chamada pelos paraenses de “árvore santa” ou sagrada, por sua importância na vida de muitas comunidades tradicionais que aproveitam toda a árvore, tendo o cuidado de manejá-la de forma sustentável, sem derrubá-la. O fruto é utilizado para a alimentação, a palha para a construção das cabanas, a fibra das folhas para a confecção de redes e os braços e a bucha, fibra conhecida como isopor da Amazônia, para a produção dos brinquedos.