Marcelo Conceição, a lógica do concreto e a estética do equilíbrio

O artista, que passou mais de uma década vivendo nas ruas do Rio de Janeiro (RJ) garimpando e vendendo objetos que recolhia em calçadas, um dia inventou uma escultura com esses materiais que chamou a atenção de uma transeunte. Hoje, Marcelo é reconhecido como artista contemporâneo e valorizado por colecionadores, saiu das ruas e está com uma exposição em cartaz no Museu do Pontal, na capital carioca. A mostra reúne obras fascinantes que têm a aparência de maquetes arquiteturais e composições marcadas pelo geometrismo abstrato
Artur André Lins

Ateliê do artista no Projeto Marcelo Conceição. Foto: Artur Lins

Marcelo da Conceição Teixeira, nascido em 24 de maio de 1966, fruto da relação de Francisco, um biscateiro, com Alaíde Idalina, uma empregada doméstica, cresceu na Zona Norte da cidade de Niterói – Região Metropolitana do Rio de Janeiro – no bairro Caramujo. Oriundo de família de origem negra e humilde, Marcelo, que contava com mais 11 irmãos, cursou até o segundo ano do ensino primário quando, ainda criança, passou a trabalhar para auxiliar no sustento de casa. Lidando, desde muito cedo, com a necessidade de sobreviver em uma sociedade caracterizada por uma desigualdade abissal e pelo racismo estrutural, ao longo da vida, ele trabalhou em diversas funções como carregador nas feiras urbanas, ambulante, servente de pedreiro, balconista de padaria, exercendo os mais variados trabalhos temporários (bicos), geralmente em situação de informalidade.

A perda prematura do pai e, depois, o falecimento da mãe, tornam a vida familiar de Marcelo ainda mais difícil, sofrida e desesperadora, sobretudo por conta da desorientação causada pela companhia da fome. “Tem vários tipos de fome: fome de saúde, fome de ensino, mas a fome que dói mais é a de alimento”, conta. A trajetória do artista ganhou um contorno ainda mais dramático a partir do deslizamento do Morro do Bumba, em 2010, tragédia que vitimou centenas de pessoas que foram soterradas e teve destaque no noticiário nacional. Desde então, Marcelo teve de enfrentar o luto pela perda do seu irmão caçula e de três sobrinhos. Traumatizado, ele não conseguia mais se ver vivendo entre paredes e tomou as ruas como moradia.

Durante aproximadamente 11 anos, ele habitou praças, esquinas e logradouros da cidade do Rio de Janeiro. Transitava principalmente pelo centro: Largo da Carioca, Largo de São Francisco de Paula, Presidente Vargas com a esquina da Uruguaiana, Praça XV, Glória, São Cristóvão. Livre de vícios, a presença dele se destacava entre os semelhantes. Generoso e solidário, o niteroiense fez muitos amigos que lhe davam suporte. Vivendo nas ruas, não era desocupado. Pelo contrário, Marcelo trabalhava todos os dias para conseguir comer. Desperto desde as cinco horas da manhã, cotidianamente punha-se a andar em busca de despojos, objetos descartados, trecos, coisas e materiais recicláveis que recolhia largados nas calçadas e em caçambas da Zona Sul. Aos sábados, abria a venda dos itens no “Shopping-chão” da Praça XV e, aos domingos, na Feira do Rolo de São Cristóvão. Nessas feiras semanais, o catador dispunha os tais objetos de maneira atrativa, sempre em um pequeno pano vermelho aveludado, aos transeuntes que, rapidamente, se tornavam integrantes de uma clientela fidelizada. Na atividade como garimpeiro urbano, Marcelo aprendeu a exercer um sofisticado trabalho de olhar e selecionar os restos, demonstrando refinado senso estético ao decifrar a riqueza do lixo carioca.

Embora a abstração seja uma marca do artista, algumas obras se assemelham a barcos e instrumentos musicais. Foto: Artur Lins

Certa oportunidade, provavelmente no ano de 2016, caminhando pelas ruas de Copacabana, Marcelo avista um caixote largado na sarjeta. Inexplicavelmente atraído pelo objeto, ele o recolhe e leva para o Largo da Carioca. No dia seguinte, ao amanhecer, sentado na escadaria do metrô, Marcelo começa a desmontar e a quebrar aquele caixote, retirando-lhe as ripas, batendo-as numa quina até formar lascas. Com dez reais que dispunha para tomar o café da manhã, comprou de um ambulante um tubo de cola com o qual remontou o objeto em nova configuração. Sem nenhum instrumento, ali mesmo ao acaso, o artista em eclosão teria feito a sua primeira escultura. Horas depois, uma sensível passante recém-saída do metrô observa Marcelo com aquele insólito objeto exposto na calçada e lhe oferece 40 reais em troca. Surpreendido pela remuneração, ele consegue comprar alimento para si e para amigos na mesma situação. Essa circunstância volta a repetir-se quando Marcelo mobiliza esses amigos para ajudar-lhe a conseguir material a fim de criar esculturas.

 

“A satisfação que eu tive, na minha alma, não foi vender. A satisfação foi que todo mundo comeu”, diz o artista forjado no aperto das ruas.

Processo criativo: a façanha do bricoleur

Interessado na compreensão do pensamento mítico, o antropólogo Claude Lévi-Strauss empregou a figura do bricoleur para iluminar uma forma de conhecer regida pela intuição sensível. A bricolage designa um tipo de operação criativa, mental e estética, marcada pela ausência de um plano preconcebido, resultante de um movimento incidental que toma como repertório um conjunto finito de materiais fragmentários reorganizados em uma composição heteróclita. Os arranjos são feitos na dinâmica do a posteriori, a partir de um olhar retrospectivo, havendo um incontornável componente de contingência na execução. O bricoleur interroga os materiais disponíveis, resíduos e testemunhos fósseis da vida social, reordenando-os para reescrever os seus significados. Acredito que Marcelo Conceição subscreve esta lógica. Uma lógica do concreto em duplo sentido: um estilo de criatividade regido pela intuição sensível e calcado em elementos puramente formais da arte visual.
 

 A maioria de suas criações consiste em maquetes arquiteturais. Foto: Artur Lins

Perguntado a respeito daquilo que pensa para fazer as suas obras, Marcelo oferece a melhor resposta possível: “Nada. Não tem pensamento. Eu me sento aqui e faço. É o material que me inspira”. Nesse mundo em que a palavra de ordem é “sustentabilidade”, a obra de Marcelo guarda um valor de notável qualidade contemporânea: a reciclagem. Esse artista, utilizando como ferramentas o estilete, a tesoura, um pedaço de lâmina de serra e o tubo de cola, vale-se de caixotes, lascas de madeira, varetas de bambu, pedaços de móveis antigos, linhas de barbante, rolhas de cortiça, botões e bijuterias, búzios, retalhos de tecido, fragmentos de ferro, vassouras, cabides, vidros de tinteiros, cacos de louça, papéis e papelões, molas, cartões de ponto, réguas e fitas métricas, chaves e cadeados, entre outros múltiplos objetos descartados. Recentemente, ele tem experimentado as telas, os pincéis e as cores, sendo vermelho, preto e branco aquelas de sua predileção, referências à Escola de Samba Salgueiro.

À primeira vista livre de referentes representacionais, Marcelo, por vezes, intitula e inventa narrativas para os seus objetos, geralmente após a confecção. Embora afirme não pertencer a nenhum tipo de religião, ele demonstra elevada sensibilidade espiritual. Disso decorrem estórias baseadas em motivos transcendentais, séries de Exus e outros Orixás, oratórios e cetros de divindades. Há esculturas que se assemelham a barcos e instrumentos musicais. Nota-se também aquilo que o artista chama de “caixas de memória”. No entanto, a maioria de suas criações consiste em maquetes arquiteturais, estruturas elaboradas sem significado aparente, composições puramente construtivas marcadas pelo geometrismo abstrato, pela simetria, pela leveza, pela fragilidade, pela proporcionalidade e pelo equilíbrio.

A bricolage é um dos processos criativos do artista. A ideia é partir de um conjunto finito de materiais fragmentários e reorganizá-los em uma composição heteróclita  (eclética). Fotos: Artur Lins

O inusitado dos materiais atiça a curiosidade. Há alternância entre volumes e vazios que permite a apreciação das estruturas por qualquer ângulo de observação.

A abstração de suas esculturas é um convite à participação do público, que deposita sobre os objetos sentidos adicionais. Há um caráter de despretensão na obra de Marcelo, os materiais não são higienizados ou despidos de suas marcas originais, as pegadas do processo criativo ficam à mostra, não se apaga o escorrimento da cola e as fraturas são conservadas. 

O artista não se preocupa em agradar. Há nele uma postura de gratuidade. “Eu acho que a minha obra tem muita liberdade”, reflete Marcelo. Essa liberdade criativa fica evidente quando o artista diz: “Uma coisa é você olhar para esse copo e fazer ele. Outra coisa é você olhar para nada e fazer alguma coisa”.

A médica Nise da Silveira, observando os artistas do Centro Psiquiátrico Pedro II, notava que a tendência à abstração, ao geometrismo, à simetria e à disposição de elementos díspares em torno de um centro guardava uma relação com o apaziguamento de tumultos mentais e emocionais por intermédio de construções estáveis. O crítico Frederico Morais sugeriu que a busca por ordem no construtivismo brasileiro é uma resposta à sensação de insegurança. A estética do equilíbrio na obra de Marcelo Conceição parece ultrapassar a intenção formal atingindo um significado existencial: “Se não fosse o equilíbrio eu já tinha morrido há muito tempo”, conclui o artista.

 

As obras que estão na exposição do Museu do Pontal foram emprestadas por galeristas e colecionadores. Foto: Artur Lins

As interações com o mundo da arte

Em sua meteórica carreira, Marcelo travou diálogo com uma variedade de agentes do mundo artístico. Ainda nas ruas, ele se transformou em personalidade requisitada. Nota-se a relação que estabeleceu com o artista visual Arjan Martins. Ana Chindler, proprietária da tradicional Galeria Pé de Boi, consta entre as primeiras incentivadoras. O colecionador, cenografista e curador Jorge Mendes certamente é uma figura marcante na trajetória de Marcelo. Desde outubro de 2022, a comerciante de arte Martha Burle cumpre um papel importante através do Projeto Marcelo Conceição, que possui ao menos dois méritos: com anuência do artista retirou-lhe da condição de morador de rua e firmou um sistema de catalogação para as suas obras. Nessas interações do artista com o mundo da arte ocorrem trocas, conversas e propostas. O artista, afinal, não é um ser intocável, ele não está imune à sociedade. As interferências, embora indesejáveis, são inevitáveis: elas se dão pela conversa sobre as qualidades estéticas, através da introdução de novos materiais e da solicitação por determinados modelos, temas e dimensões.
 

As peças contam diferentes etapas da trajetória do artista, muito marcadas pelo uso de diversos tipos de materiais recicláveis, como madeira, papel, rolha, bambu e ferro. Foto: Artur Lins

A primeira exposição individual responsável por lançar holofotes sobre a obra de Marcelo Conceição foi organizada, com a participação do próprio artista, pelo curador Jorge Mendes. "Transvendo o mundo", com abertura em novembro de 2022, contou com mais de uma centena de esculturas, tendo lugar no Museu Janete Costa, localizado em Niterói (RJ). Desde então, a obra de Marcelo ganhou novas exposições em galerias no Rio de Janeiro e em São Paulo (SP), aparecendo também exposta em feiras comerciais como a SPArte. Observa-se que a obra de Marcelo transpõe fronteiras. Exemplo dessa transposição foi a sua participação na mostra coletiva intitulada "A quarta geração construtiva" no RJ, sediada no espaço da FGV Arte e inaugurada em setembro de 2023, com a curadoria assinada por Paulo Herkenhoff. Atualmente, até junho de 2024, a obra do artista pode ser visitada na exposição "Marcelo Conceição: deslocamentos e travessias", no Museu do Pontal (Rio de Janeiro), com a curadoria de Jorge Mendes e com peças emprestadas por diversos colecionadores.

Inserido na história da arte, as aproximações de Marcelo com outros expoentes são frequentemente comentadas por apreciadores, estudiosos, curadores e colecionadores. A fascinação de suas estruturas lembra os esboços de engenhocas de Leonardo da Vinci; o garimpo dos materiais encontrados evoca a estratégia ready-made de Marcel Duchamp; as esculturas cinéticas de Abraham Palatnik oferecem paralelo visual coerente; a arquitetura de determinados objetos ressoa a inventiva de Zé do Chalé; são realmente notáveis as semelhanças com o expediente criativo de Arthur Bispo do Rosário e Farnese de Andrade. Entretanto, é importante dizer que se Marcelo Conceição está presente na cena artística contemporânea, dentre outros motivos de explicação sociológica, deve-se, sobretudo, à afirmação estética de sua discernível singularidade.

 

Exposição "Marcelo Conceição: Deslocamentos e Travessias"

Quando: Qui. a dom., das 10h às 17h30
Onde: Museu do Pontal - av. Célia Ribeiro da Silva Mendes, 3300, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro (RJ)
Preço: Grátis
Período:  até 9 de junho

Sobre o autor

Artur André Lins

Artur André Lins é doutorando em Sociologia pela Universidade de Brasília
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