Bonequeiras no Pé de Manga

Localização Bairro São Miguel - Zona Rural de Crato - Crato/CE - CEP 63122-245
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Contato Gertrudes Leite de Oliveira Santos

As mãos que criam, criam o quê?

As bonecas de pano habitam o imaginário brasileiro e estiveram presentes nas infâncias de muitas meninas e meninos em muitos cantos do território. Em muitas civilizações, a boneca representa a imagem que se tem do que é um ser humano para aquela cultura. Assim, as artesãs homenageiam, com suas bonecas, os filhos, vizinhos, os pais e avós, honram a memória daqueles que se foram, e deixaram saudades, e dão vida aos personagens que fizeram parte da infância de muitos da comunidade, como os lendários cangaceiros Lampião e Maria Bonita. Também retratam figuras que aludem a momentos marcantes em suas vidas, como os noivos, e a festas populares, como a festa junina. Fabricadas com retalhos, com tamanho médio de 22 cm, são produzidas mais de noventa personagens, respeitando as características da costura tradicional e inovando nas roupas e acessórios para a caracterização. 

Quem cria?

A história do grupo Bonequeiras no Pé de Manga é famosa, contada em eventos pelo Brasil e mundo todo por Elisete Leite, psicóloga e psicodramatista idealizadora do método Tatadrama, que utiliza as bonecas como objeto intermediário. A arte do brincar retoma memórias de família e, mais, da cultura da comunidade em que cresceram. 

Elisete e Gertrudes, personagens centrais desse enredo, são primas e eram muito próximas desde a infância. Ainda que Elisete morasse em São Paulo, ia com frequência com os pais visitar a parte da família que permaneceu no Crato, Ceará. Nessas visitas, encantava-se com as bonecas de pano, tão tradicionais em todo Nordeste brasileiro e diferentes de suas bonecas de plástico. 

Costuradas pelas mães, eram feitas de retalhos as companheiras das meninas, e com elas reproduziam cenas do cotidiano; brincavam de casinha, ensaiavam casamentos e filhos. Nos gestos infantis refletiam a realidade que presenciavam, mas também imprimiam seus desejos e sonhos de vida. 

Muitos anos depois, em 2001, após longa pesquisa em sua área, Elisete lembrou-se das bonecas e decidiu usá-las em suas intervenções. Conversou com a prima, que ficou responsável por encontrá-las nas feiras da região. Encontrou com dona Neinha, uma das únicas que ainda costurava as bonecas, mas com as crescentes encomendas Gertrudes decidiu treinar um grupo para produzirem. Ao reunir as amigas e perguntar sobre as bonequinhas, foi quando depararam-se com o grande desafio, pois todas respondiam: “-Eu vi minha mãe fazer quando era criança...”, tinham na lembrança, porém não sabiam produzir. Assim, cada uma com seu pedaço de pano tentou imaginar como se fazia e foi na prática que aprenderam os pontos para dar forma à memória. 

Produziam cada uma em sua casa e no ano de 2005 começaram encontrar debaixo do pé de manga, daí vem o nome do grupo. Ao longo desses anos Elisete já pediu mais de 20.000 bonecas, conhecidas em países como México, Haiti e Moçambique. 

Onde criam

O famoso pé de manga, local de encontro do grupo, fica no bairro São Miguel, zona rural do município do Crato que, a pouco mais de 500 km da capital Fortaleza, é conhecida como coração do Ceará. Na divisa com o estado do Pernambuco, a cidade de 130 mil habitantes é a terceira cidade mais desenvolvida do estado e tem uma expressiva importância regional. Na Expocrato, grande feira agropecuária anual, são comercializadas as produções provenientes do desenvolvimento da agricultura no sopé dos vales irrigados do Cariri.

A cultura originária Kariri começa com a história do povo que vivia na região da chapada do Araripe, conhecida como o berço da paleontologia nordestina. A partir de resquícios fósseis, que se encontram no Museu de Paleontologia de Santana, outro município da região, comprovou-se que as primeiras flores do planeta surgiram ali. Essas descobertas tornam ainda mais mágica a mitologia Kariri. Nos leitos subterrâneos e cavernosos da chapada do Araripe fluem, assim, muitas lendas que mantêm vivas memórias que remetem a tempos historicamente muito distantes, cujas pistas se encontram nas pinturas rupestres e vestígios arqueológicos.

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