Durvalina Ribeiro de Souza

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Contato Durvalina Ribeiro de Souza

As mãos que criam, criam o que? 

Capim-dourado. Apesar do nome, não é um capim. Não pertence à família das gramíneas, sendo, na verdade, a haste de uma pequena flor branca da família das sempre-vivas. A arte de transformar as raras hastes colhidas nos campos dourados do Jalapão em artesanato é uma herança dos índios Xerente. Filha da terra de raizes quilombolas, Durvalina é uma das artesãs mais antigas e habilidosas nesse trançado. Fruto do legado da inesquecível mestra-artesã Dona Miúda, que antes dela ensinou sua mãe, Alzira, o refinamento do trabalho de Durvalina é imediatamente notado nos diferentes “bordados” que ornamenta suas peças. Tal excelência fez com que ela fosse escolhida em 2017 como mestra de ofício, responsável pela salvaguarda da arte do capim dourado.

Quem cria?    

Durvalina é filha de artesãos locais. Com mais de três décadas de experiência em trançar o capim, trabalha com ele desde a infância. Na escola havia uma professora, Antonia, que era filha de Dona Miúda. Lecionava na casa de seu pai, que cedeu a varanda para que ela pudesse dar aula para as crianças. Certo dia passou a levar algumas peças de capim dourado que confeccionava. Durvalina e a mãe se interessaram e pediram a ela que lhes ensinasse. Juntas, mãe e filha, aprenderam e se tornaram pioneiras na propagação desse fazer tradicional. As outras quatro irmãs também se interessaram, e a mãe seguiu desenvolvendo o trabalho e, paralelamente, ensinando todas as filhas.

Na época os moradores sabiam que aquele era um capim, mas não se sabia muito sobre ele. O Jalapão era um território longínquo, que entrava no circuito turístico apenas em razão do Ralo dos Sertões, um evento de enorme alcance, a segunda maior competição de rali do mundo que acontecia anualmente e durava dez dias. A prefeitura, sabendo da oportunidade passageira que beneficiava toda a comunidade, avisava sobre a data aos moradores que corriam para preparar uma grande festa e recepcionar os turistas com todo tipo de mantimento e produto. Eram ítens simples - bolsa, chapéu, doce do buriti. O rota dos aventureiros passava precisamente em frente a porta da casa de Durvalina, ao ponto de sua mãe ter sido a primeira artesã a criar e produzir chinelos com o capim, por exemplo. Recorda-se que, ainda menina, aos 12 anos, produziu suas primeiras peças, que o pai levou para vender no rali. “A gente morava na beira da estrada e era ali que colocávamos as peças para vender. O povo que vinha no rali comprava tudo.” O evento foi o grande protagonista na difusão dessa tradição local.

No início eram poucos os artesãos: Dona Miúda na comunidade de Mumbuca e mais umas cinco pessoas, Inocência e as duas filhas em Mateiros e Severa e o filho, que produziam muito chapéu - mais o filho até do que ela. Também havia o “povo” do Quilombo do Prata, que se desenvolveram na arte do capim depois que a mãe Alzira deu um curso a convite do prefeito. “Na verdade, se for contar a história mesmo, começou foi em Mateiros, Mumbuca e Povoado do Prata. Foi onde começou a história do artesanato. A história mesmo foi que Dona Miúda aprendeu com a Dona Agda, que era mãe da Severa. E Dona Miúda foi mesmo muito importante para o capim”.

No ano de 1998 Durvalina mudou-se para a capital, Palmas. Se manteve como doméstica e quando sobrava tempo mexia com o capim. “Lá ninguém conhecia o que era, sequer sabiam o que era o Jalapão”. Assim ela seguiu, desenvolvendo seu trabalho, participando de feiras locais e mais de vinte anos depois se orgulha em dizer que vive exclusivamente da sua arte. Atualmente a produção em capim é a principal fonte de renda de centenas de famílias. “Hoje o capim dourado é renda pra muitas pessoas, muita gente melhorou de vida. Lá na região ou você é aposentado ou trabalha prefeitura, mas se você não é nem uma coisa nem outra, hoje você vive do artesanato”. Durvalina tem 31 anos de ofício. Foi reconhecida pelo Projeto Mestres da Arte e do Artesanato do PAB (Programa do Artesanato Brasileiro) e transmite seu conhecimento ministrando capacitações em associações e em outros estados. A mãe, Alzira, aos 75 anos, não trabalha mais. “Perdeu uma vista e não costura mais. Em 2001 falava que, quando se aposentasse, não ia mais mexer com artesanato porque a vista já estava cansada”. Durvalina afirma que ela fez peças que nunca ninguém fez até hoje. 

Onde criam? 

Durvalina Ribeiro de Sousa é nascida no município de Mateiros, Jalapão, uma região que situa-se entre a capital do estado, Palmas, e as divisas do Maranhão, Piauí e Bahia. Vai se anunciando aos poucos, com caminhos de areia, até que se chega ao povoado de Mumbuca, onde reúne, ao centro, meia dúzia de casas e outras no entorno. A única construção de alvenaria abriga a escola e o barracão-loja que guarda as peças feitas com o capim. Em todo o estado podem-se ver tabuletas dizendo “artesanato com capim-dourado”, mas poucos possuem a qualidade e beleza dos que foram ensinados ali, por Dona Miúda. A costura ensinada por ela de trançar o capim com a seda do buriti foi aprendida com os índios e garante a qualidade do trabalho. 

O capim-dourado é endêmico do Jalapão, encontrado apenas lá e tem data certa para ser colhido – mês de setembro. Já há alguns anos, o Instituto Natureza do Tocantins definiu regras para a colheita das hastes de capim-dourado utilizadas na confecção de artesanato. Resultaram na Portaria 092/2005, reeditada como Portaria 362/2007 com o objetivo de evitar a extinção da espécie com medidas como: as hastes podem ser colhidas apenas após 20 de setembro, após a maturação das sementes; os frutos devem ser cortados e dispersos no solo logo após a colheita; as hastes não podem sair da região in natura, apenas em forma de artesanato para que garanta a renda as famílias tradicionais de lá, portanto qualquer forma de comércio do capim in natura configura-se contrabando. 

Fonte: Feira Nacional de Artesanato / Arte do Brasil