Gilda da Silva Barreto

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Quem cria?

“O artesanato representa além da minha cultura, muito forte a cultura local, a marca da pessoa né? Eu não sei nem como poderia te falar, é uma ferramenta muito forte que ninguém pode te tirar e que você pode ir com ela pra qualquer lugar. O artesanato é pra mim é como uma faculdade que você tem”. 

Gilda da Silva Barreto é da etnia Baré, filha de agricultores e descendente de uma família que tem forte tradição com o artesanato. Todos os utensílios eram eram feitos com trançado das fibras de arumã e tucum, duas palmeiras típicas da floresta amazônica. Na cultura Baré é muito forte o processo de passagem da infância para a vida adulta, quando os jovens passam 3 a 4 meses recebendo os conhecimentos da tradição. Um dos importantes aprendizados que adquirem nesse momento é a serenidade de se manter firme e fiel, qualidade que lhes acompanha por toda a vida. Foi assim que Gilda aprendeu, entre muitos saberes de sua tradição, o fazer artesanal.

Sua família vivia em uma comunidade indígena, mas por necessidade de acesso à escola, se mudaram para a cidade de São Gabriel da Cachoeira. Sua mãe ficou viúva jovem, com quatro filhos para criar, conseguiu com o artesanato, que fazia em troca de outros produtos, garantir que os filhos estudassem, realizando o sonho do esposo falecido. 

Gilda foi fortalecendo seu fazer artesanal, ensinando a muitas comunidades, desenvolvendo o artesanato como forma de retomada cultural. Trabalhou em diferentes projetos, conheceu diferentes profissionais e teve a possibilidade de fazer parcerias com o Sebrae. 

Cria o que?

Gilda produz cestaria, biojoias e macramê com as fibra de tucum e sementes de açaí e tucumã, todas palmeiras típicas da floresta amazônica. As fibras são extraídas de forma sustentável, de acordo com os saberes de sua tradição, e as sementes são beneficiadas por ela mesma. 

A fibra do tucum é extraída do pendão, depois é lavada, cozida, penteada, e exposta à luz do sol e ao sereno, para então ser penteada novamente, durando mais ou menos uma semana todo o processo. As palmeiras se encontram no terreno da família, em São Gabriel da Cachoeira, e também na comunidade indígena onde os pais moravam.

Onde criam?

O município de São Gabriel da Cachoeira fica às margens do Rio Negro, a 850km de Manaus, na região do Alto Rio Negro, conhecida como "Cabeça do Cachorro". A cidade possui a maior proporção de indígenas do Brasil. Mais de 75% de sua população pertence a 23 etnias diferentes. Em São Gabriel são faladas 19 línguas indígenas, além do nheengatu, derivada do tupi antigo e usada como língua franca na Amazônia durante décadas, e do português. O ciclo da borracha impulsionou uma forte migração forçada ou espontânea de indígenas de outros países e outras regiões do Brasil e de brasileiros da região nordeste para São Gabriel. Nesse contexto, os movimentos de resistência indígena se fortaleceram e uma das muitas estratégias utilizadas foi o uso da língua nheengatu que continuou a ser falada mesmo após a sua proibição em 1758. 

Marcada pela pluralidade linguística, São Gabriel da Cachoeira é a primeira e única cidade a ter outras línguas reconhecidas como oficiais, além do português. Em 2002, a cidade aprovou uma lei municipal que tornou o tukano, o baniwa e o nheengatu línguas co-oficiais.

A mandioca é a principal fonte econômica das comunidades indígenas e ribeirinhas e constitui sua base alimentar, com seus derivados como a goma para tapioca, farinha, farinha de tapioca, maçoca, tucupi, arubé e beiju. O artesanato também ocupa importante lugar na geração de renda das comunidades que usam por exemplo algumas fibras vegetais, como as palmeiras arumã e tucum.