Ilson Roberto dos Santos

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As mãos que criam, criam o que? 

Louças de barro. Assim se tornaram conhecidas as peças feitas em barro misturado ao mangue encontrado em Palhoça (SC), que se tornaram famosas por sua estrutura mais “bojuda”. A vasta produção que se estabeleceu no município catarinense de São José nos idos de 1750 teve origem com a vinda das famílias portuguesas da ilha dos Açores e que desembarcaram ali, mais especificamente na Ponta de Baixo. Os oleiros que chegavam passaram a fabricar peças utilitárias como moringas, copos, pratos e as cobiçadas panelas. A tradição promoveu a difusão de olarias pela região que na década de 1960 chegavam a cerca de 20, responsáveis pela produção de uma vasta variedade de cerâmica utilitária e decorativa regional que misturava vasos, potes, bonecas, presépios e imagens de bernúncias (espécie de dragão ou “bicho-papão” que engole tudo o que encontra pela frente da manifestação folclórica típica daquele litoral).

Ilson Roberto dos Santos é um dos mestres-artesãos responsáveis pela salvaguarda dessa tradição açoriana. Um trabalho de agilidade e, ao mesmo tempo, delicadeza. Na roda de oleiro, movida com os pés, ele transforma em questão de minutos uma bola de argila em moringa. 

Quem cria?    

Ilson pertence a terceira geração de oleiros. O avô Ricardo Crispim dos Santos tinha uma olaria. O pai, famoso mestre Duca, também foi oleiro. A mãe era figueira conhecida na região, Etalvina Rosa dos Santos. Ele e os irmãos, desde muito cedo, lidavam com barro, brincando de enrolar, curiosos com a roda de oleiro. “Mas os adultos, com receio das crianças danificarem, não deixavam mexer. Diziam que era seu instrumento de trabalho”. Mas a curiosidade da criança não vê limites: “Queríamos ir para a roda, botar o pezinho ali, e levávamos bronca porque era a máquina deles”. Foram crescendo e os adultos foram precisando de ajuda. Para tornar, colocar e tirar do forno, então passaram a ensiná-los. Na época Ilson tinha 10 anos e começou a ajudar nos contraturnos escolares.

Com o passar do tempo, as panelas de barro foram perdendo espaço para a concorrência do alumínio e do plástico, levando a prática tradicional à decadência nos anos 1960. Por volta de 1990, com a escassez de olarias e oleiros, sentiu-se necessidade de criar um espaço para salvaguardar esses ensinamentos e manter a tradição viva. Foi então que a secretária de cultura Mariângela Leite procurou mestre Duca para pensarem juntos em uma proposta àquele desafio. Ele estava disposto a ensinar mas não havia um espaço disponível. Procuraram o filho de Luiz Joaquim de Medeiros, herdeiro e atual proprietário da casa onde funcionou a antiga olaria do pai, aberta em 1945 e responsável pela formação de diversos oleiros. Conseguiram o apoio da prefeitura para arrendar a casa e viabilizar um projeto. Então convocaram o conselho dos oleiros para decidirem entre um Museu da Olaria ou uma Escola. Desejaram a escola. O sonho de Mestre Duca era formar oleiros, sonhava com um espaço de formação. Para isso era preciso que o aluno seguisse por 4 ou 5 anos, pelo menos. O prefeito aceitou. Fez uma reforma - o telhado foi trocado, a fachada revitalizada - deixando a olaria centenária em condições de abrigar a Escola de Oleiros Joaquim Antônio de Medeiros, inaugurada em 1992. Mestre Duca, foi professor desde a fundação, quando precisou se afastar até se aposentar de vez. O filho Ilson, foi chamado para substituí-lo. Se profissionalizou, prestou concurso público, voltou para a sala de aula e se graduou em Pedagogia. Hoje é professor efetivo da Escola, onde ministra aulas há 16 anos. Iniciaram com o curso para oleiros e com a demanda começaram a atuar em outras formações. Além do torno, cerâmica figurativa (santos, divino, folclore, boi de mamão, bernúcia) e modelagem. Hoje a formação de oleiro dura 2 ou 3 anos mas, considerando que a prática não acontece todos os dias, seria preciso um período de 5 anos para formar verdadeiramente um oleiro, um mestre de ofício, de olaria. Os mais velhos vem ficando preocupados. Com idade avançada, muitos faleceram. Resolveram rever o método da escola pra não deixar a tradição morrer. A escola atende hoje, gratuitamente, cerca de 190 alunos: adultos, adolescentes e crianças a partir dos 9 anos - gerações diferentes, preservando juntos a mesma tradição. Alunos que aprenderam com mestres e se tornaram professores, professores filhos de oleiros, um verdadeiro celeiro de intercâmbios. O aluno pode passar até 4 anos estudando e existem planos de implantarem uma incubadora para que, após formados, aprendam a produzir em série até conseguir mercado. Mantida pela Fundação Cultural do município, o projeto tem sobrevivido ao tempo. Mais do que ensinar, cumprem a nobre missão de manter viva essa tradição. São uma referência, única com esse perfil na América Latina. Nem mesmo no berço da cerâmica feita aqui, nos Açores, a tradição é mantida de forma tão preservada.

Além de toda a dedicação que a Escola lhe exige, voltada a salvaguarda dessa centenária tradição de raízes açorianas, Ilson mantém seu próprio atelier, seu “ranchinho”, como gosta de dizer: o Cantinho do Oleiro, onde investe em suas próprias experimentações autorais e produz encomendas na roda de oleiro herdada de seu pai. Conta com a ajuda da esposa, Ana Lúcia dos Santos e a filha, Tuanny. No ano de 2017, aos 60 anos, mais de 50 dedicados à argila, Ilson foi reconhecido pelo Projeto Mestres da Arte e do Artesanato realizado pelo PAB (Programa do Artesanato Brasileiro) com o título de mestre de ofício.

Onde criam?

Ilson nasceu, cresceu e ainda mora no bairro conhecido como Caminho da Ponta de Baixo, São José, município colado à Florianópolis, em Santa Catarina. Chamava-se na época Costeira da Ponta, era o local onde as olarias se concentravam, estrategicamente à beira-mar ou muito próxima à praia, para viabilizar o escoamento da produção pelo mar, através de canoas e botes, meio mais utilizado pela povoação litorânea. O lugar ainda mantém os costumes e a tradição dos primeiros oleiros que desembarcaram por ali na metade do século XVIII e trouxeram consigo o ofício da olaria, as histórias e tradições vindas com o barro. Apesar da modernidade no que diz respeito a utensílios para a culinária, não há como se negar que uma refeição feita numa panela dessas tem um sabor especial.

Fonte: Feira Nacionall de Artesanato / ND Mais / G1

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