Maria Amélia

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As mãos que criam, criam o que? 

Na simplicidade criativa, quase primitiva, das peças nascidas na manipulação do barro pelas mãos de Maria Amélia, as imagens de santos católicos se anunciam com feições primárias (expressões faciais simples) mas que comovem. São José é seu preferido. O barro natural ganha traços nordestinos em rostos ovalados, mantos largos, com pregas, delicadamente ornamentados, sua marca registrada. Imponentes em sua simplicidade, força expressiva e formas singelas. 

Quem cria?    

Maria Amélia, Severina Batista e Lidia Vieira são de uma mesma geração de artesãs do barro. Uma das primeiras, Amélia é hoje a última artesã viva dessa geração. Aos 96 anos conversa bem e apenas ouve mal em razão da idade avançada. Devido a artrose, reduziu significativamente sua produção santeira, e delega ao filho Ricardo a continuidade da sua arte. “Minhas mãos estão ruins, mas Ricardo já está pronto”. Caçula de dez irmãos, é quem cuida da mãe. Desde novo foi se envolvendo,  trabalhando nas olarias para ajudá-la, dando acabamento nas peças. Amélia sente por não estar tão ativa, certa vez chorou por não conseguiu fazer uma peça, o filho ajudou levando o barro perto. Mas a saúde da artista não abala sua relação de amor com o barro. Ela deseja retornar às miniaturas da infância e pequenas peças produzidas pela mãe e apresentar o novo trabalho na Fenearte, considerada a maior feira de artesanato da América Latina, da qual participa desde 2010. 

Tudo começou pelo pai João Bezerra, o conhecido mestre Dunde, louceiro requisitado que dominava as técnicas da confecção de jarros, panelas, bacias e até manilhas e canos para irrigação. Mestre de torno. Muito calmo, gostava de cantar enquanto trabalhava. E para que a filha não brincasse com os meninos, o pai a colocou na olaria, pequenina, sentadinha junto ao torno, pra brincar, se distrair. Tinha naquele tempo 8 anos. “Lembro que gostava de ficar sentada no torno em que meu pai trabalhava e as minhas pernas sequer atingiam o chão”. Obediente, ela seguia fazendo umas “coisinhas”, mostrava a ele, que sempre prestigiava: “tá certo minha filha, faça mais alguma coisa, um passarinho…” Em dado momento ela notou que estava, na verdade, de castigo. Mas a menina foi crescendo, e tomando gosto. 

A época era de muita dificuldade na arte do barro. O pai trabalhava muito, produzia quatro fornos e seguia para Recife tentar vender. Amélia sempre junto a ele. Não haviam lojas de artesanato e arte popular. As vendas começaram a crescer quando elas chegaram, em Olinda, Recife. Surge em cena Silvia Coimbra, escritora do primeiro livro Reinado da Lua, obra inédita que reunia depoimentos de escultores populares do Nordeste, criadora e diretora da Galeria Nega Fulô Artes e Ofícios em Recife, reconhecida hoje como uma das maiores autoridades em arte popular brasileira. Também Janete Costa, arquiteta que teve contribuição decisiva na valorização da arte popular e do artesanato brasileiro ao promover que a arte, a arquitetura e o design, no Brasil expressassem as identidades culturais locais. Passaram a divulgar os artistas com apoio inclusive de políticos, como Jarbas Vasconcelos que era admirador dessa arte e colecionador.

No início Maria Amélia fazia bichos, carrancas, bonecos, mas um dia pensou: “quem faz pequeno, pode fazer grande” e teve a ideia de criar uma santa, a primeira de muitas. E desenvolveu ao longo dos anos uma obra autoral forjada na liturgia católica. Por sua importância na cultura popular e pelo papel que assumiu ao longo de décadas na transmissão de saberes, recebeu o título de Cidadã Benemérita de Tracunhaém em 2002, o Prêmio Memória do Artesanato Pernambucano em 2006 e em 2011 o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco, outorgado pelo Governo do Estado. Suas obras já foram expostas em feiras e exposições pelo Brasil e exterior e integram acervos de museus e coleções particulares aqui e fora. “As minhas peças andam muito”, admite. 

Onde criam?

Maria Amélia é a artista com mais tempo em atividade no Estado de Pernambuco. Nascida em Tracunhaém, zona da mata pernambucana, influenciou de forma significativa gerações de artistas locais. Não tem memórias de infância que não seja relacionada ao barro - quando a cerâmica figurativa começava a ganhar força na cidade. Menina, adorava brincar e correr pelas ruas da cidade nos anos 1930 quando já era um importante centro produtor da cerâmica utilitária. Hoje mãe e filho temem pelo futuro do artesanato, observam que os mais novos já não se interessam: “Querem estudar, viver bem e viver de arte num pais como o nosso é muito difícil. A gente que tem o nome dos pais da gente ainda é um pouco mais fácil”. Ricardo cita a importância dos patrimônios vivos, que são poucos, de idade avançada e estão morrendo. O pai de Amélia dizia que o barro era saúde porque descansava por muito tempo nas profundezas da terra e ela declara: “Eu tenho tanto amor pelo barro que quando morrer quero ter um pedaço dele nas minhas mãos”.

Fonte: Artesanato de Pernambuco / Arte Popular