Mestre Arlindo Palito (Arlindo Monteiro)

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As mãos que criam, criam o que?

Palito de fósforo, cola, tinta e bisturi. A partir da matéria prima incomum, o mestre artesão Arlindo faz nascer obras de beleza singular: inusitadas miniaturas do folclore e folguedos populares alagoanos, usando como plataforma, minúsculos palitos de fósforo. Peças pequenas e avulsas e também coleções maiores: roda de capoeira (com mais de 60 personagens), o enterro do índio (o índio morto na rede, outro tocando bambú e o pajé com cajado e capa nas costas), o índio e a sucuri (com o curuminzinho agarrado na perna) entre outras cenas e coletâneas ricas de personagens e narrativas.

Quem cria?

Arlindo Monteiro trabalhava em uma metalúrgica, com vendas, na área comercial. Sempre teve aptidão para arte. Na época da escola já desenhava. Quando adulto, a caminho de casa, encontrava regularmente um escultor talhando troncos de coqueiro pra fazer carrancas. Arlindo deixava de almoçar pra ficar ali observando. Tratou de arrumar um machado e foi atrás de um coqueiro. Nunca cortou um galho de árvore para fazer seu trabalho, sempre usou tronco de coqueiro. Foi uma fase difícil, vendia peças que valiam R$ 1 mil por R$ 300 para pagar as contas. As pessoas gostavam mas diziam que era muito pesado para levarem.

Certa vez um amigo lhe avisou que haviam cortado dez coqueiros próximo a praia - cada um deles tinha quatro metros e pesava quase 300kg. Arlindo foi até lá e levou, um a um, “embolando”, até chegar em casa. Quando parou já era tarde da noite, estava com as mãos em bolhas de sangue: “Naquele dia orei: Meu Deus, porque a gente tem que trabalhar tanto?” E na mesma noite sonhou com um Cristo feito em palito de fósforo. Ao acordar gastou quase uma caixa com 400 deles para fazer a imagem de Cristo - usando a faca que usava pra fazer as carrancas. Um cliente viu a peça e imediatamente comprou. Era um médico, no dia seguinte retornou com uma lâmina de bisturi de presente: “Para agilizar seu trabalho”. Desde então já fazem 31 anos que Arlindo trabalha com miniaturas feitas em palito de fósforo. Nunca mais passou necessidade.

A ventura de Arlindo foi estar no lugar certo, na hora certa, por duas vezes. Certo dia, assistindo TV, viu o designer Hans Donner, mago das vinhetas eletrônicas da Rede Globo e pensou: “Como seria bacana encontrar com esse cara”. Um pouco mais tarde, a caminho da feira de Pajuçara levando algumas peças, surpreendentemente encontrou com o próprio artista na orla. Mostrou seu trabalho - um São Jorge - e soube ainda mais surpreso que Hans era devoto dele. E o nome de seu “anjo da guarda” profissional, era Arlindo (de Castro), falecido havia 2 anos. Hans prometeu que no dia seguinte iria ao Mercado Central de Artesanato visitar sua oficina. Quando Arlindo achava que ele não viria mais, Hans apareceu acompanhado da esposa, Valeria Valença. O mestre lembra-se da apresentadora Cissa Guimarães dizer na época que não se espantassem se surgisse a abertura de alguma novela com suas obras.

Arlindo participou das Bienais das Artes em São Paulo em 1989 e 1991, da Feira Internacional do Artesanato Tradicional em Córdoba – Argentina por nove anos, fez exposições na Universidade Católica do Chile e no Museu de Arte Moderna (MAM), esteve presente em edições da Feira Nacional de Minas Gerais em Belo Horizonte, da Fenneart, onde chega a produzir e vender entre 600 e 700 peças e na Feira da Providencia no Rio de Janeiro, considerada um dos eventos mais tradicionais da cidade. Havia passado muito tempo desde aquele ilustre encontro em Maceió, então Arlindo resolveu ligar pra Hans Donner e, mais uma vez surpreso, soube que estavam a procura dele: “Talvez o senhor faça a abertura da próxima novela”. E assim foi. Era o ano de 2004 e Arlindo criou, em parceria com Hans Donner, a abertura da novela A Cor do Pecado.

Trabalhando há 46 anos com escultura, Arlindo é um dos artistas citados no célebre livro Em Nome do Autor e foi reconhecido mestre artesão através da publicação Mestres Artesãos de Alagoas. Um artista versátil e que não se restringe - lida com pedra, barro, madeira, faz onça de 1.20m carregando filhote na boca e outro nas costas, mas são as peças pequenas que o sustenta. As grandes só produz sob encomenda. Autodidata, foi se aprimorando pra fazer as imagens de santo e hoje, apesar dos inúmeros seguidores e artistas reproduzindo suas obras, esculpe peças únicas, inconfundíveis. Cada vez incorpora mais detalhes, desafia-se a uma execução ainda mais difícil. “Porque na arte a gente tem que se superar sempre”.

Onde criam?

Pernambucano, morador de Maceió há 40 anos, Arlindo produz em casa, mas oficina mesmo ele considera o espaço que ocupa no Mercado de Artesanato, no centro da cidade. Onde gosta de trabalhar, “sem atropelo”. Encontra gente, conversa, atende clientes. Se emociona quando conhece uma pessoa com sensibilidade para entender seu trabalho. As crianças adoram: “E elas nunca mentem”. Já não participa muito de feiras, a maioria hoje através de editais - prefere deixar a oportunidade para outras pessoas. Alimenta o sonho de inscrever um ambicioso projeto na Lei Rouanet: esculpir a história do Brasil em palitos de fósforo - cerca de 21 mil esculturas em escala reduzida contato a história do país. Uma procissão em cada estado. Coletâneas compostas por centenas de pequenas peças: No Amazonas o Festival de Parintins e os bois Garantido e Caprichoso, na Bahia a devoção a Nossa Senhora da Boa Morte, no Pará o Cirio de Nazaré com 700 a 800 peças no cortejo. “Eu faço o que gosto. Trabalhar é o maior lazer da minha vida”.

Fonte: Arte do Brasil / Cultura