Mestre Saúba (Antonio Elias da Silva)

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As mãos que criam, criam o que? 

Mamulengo, ou a irreverência da “mão molenga” do teatro de bonecos. Da madeira mulungu, leve e macia, ora encontrada em fazendas ora mergulhada nos rios, típica de uma árvore espinhenta de copa arredondada, os bonecos ganham vida. 

“Quando era menino ele disse que um dia comprou um mamulengo, feito com pau de mandioca, e viu uma casa de farinha. Daí voltou pra casa com o desejo de fazer aquilo” conta Bibiu, filho de Mestre Saúba. O apelido ele ganhou ainda jovem, fruto de uma ousada estripulia: ter tirado um relógio de dentro de um imenso formigueiro de saúbas. Mas fama mesmo conquistou através dos mais de 50 anos dedicados a arte de fazer mamulengos, da qual credita grande parte ao conterrâneo e mestre Pedro Rosa, que o fez ser conhecido como um dos melhores do Brasil. “Cada bonequeiro tem que ter um mestre. Eu tive esse. Fiquei com as malas dos bonecos dele, que agora estão no Museu do Mamulengo de Olinda”. 

Quem cria?    

Mestre Saúba é um grande artista “bonequeiro”. Nasceu Antonio Elias da Silva e tinha cerca de 12 anos quando começou esse aprendizado. “Eu fiz bonecos inspirados nos grandes mestres e faço até hoje inspirado nas coisas que vejo nas ruas.” Assistia na praça o saudoso Mestre Solón (1921-1987) reunir adultos e crianças a gargalhar, dançando com sua boneca e com seu ventrículo. Foi crescendo e aprendendo a esculpir peças animadas com madeira, tecido e arames, figuras diversas em grandes mesas que compõem narrativas do passado nordestino como casas de farinha, cenas do cangaço e da escravidão, forrós e cenas eróticas. Também é dançarino. Em companhia de Dona Lindalva, uma boneca de madeira feita por ele em tamanho natural, apresenta um espetáculo inusitado que atrai centenas de pessoas. É um artista plural: também é ventríloquo e divide momentos espirituosos com o boneco Benedito. Dona Quitéria, Mané Pacaru, Dona Lilia, João Gago, Simão, Coquinho, Laré e Dona Liprosina são alguns dos outros personagens nascidos da genialidade desse artista incansável e observador que tem como uma das principais criações, o casal de ciclistas que, ao pedalar, mexem a cabeça. “Um dia, no terminal de Boa Viagem, no Recife, encontrei um matuto que entrava na cidade de bicicleta, com a mulher na garupa. O cabra estava assustado que dava dó. Aí me inspirei para fazer esse boneco – Zé Matuto vai à praia. E já virou história.” Espontâneo e engraçado é um habilidoso contador de causos.

Com o trabalho reconhecido em várias mostras de museus e instituições no Brasil e exterior, ele já trabalhou com Alceu Valença, Marisa Monte e Antônio Nóbrega. Em São Paulo, fez a montagem de Cadê o Meu Herói, no Centro Cultural São Paulo, espetáculo que marcou sua volta ao mundo do mamulengo, do qual esteve afastado por uma longa temporada. Mestre Saúba já fez exposições por todo o país e nos Estados Unidos e há bonecos de sua autoria em coleções particulares por todo o Brasil, como o Museu Casa do Pontal (Rio de Janeiro, RJ) e o Centro Cultural São Francisco (João Pessoa, PB). Foi reconhecido com o título de Mestre pelo Governo do Estado de Pernambuco.

Bibiu conta que o pai vendia seu trabalho em lojas por todo canto: em Recife, Olinda, na Casa da Cultura, no Mercado São José. “Papai, antigamente, tinha muito boneco em loja de todo lugar”. Mas hoje as vendas estão mais difíceis. Aos 66 anos, Mestre Saúba anda descontente, produzindo pouco. Ficou desgostoso e ressentido com a falta de reconhecimento, da cidade, do poder público, diante de uma vida toda dedicada ao artesanato. “A turma não dá valor aqui na cidade. Um dia encontrei uma peça do pai, que tem 30 anos, uma casa de farinha, no lixo. A pessoa não entende nem o que era aquilo. Consegui um carro pra ir até lá pegar, trouxe para casa, e estou restaurando a mesa e os bonecos. Afinal é um Mestre, né?” E o filho Bibiu segue em frente: faz apresentação quando aparece, atende encomendas. Quando criança, gostava muito de bola de gude, pião, estilingue, soltar papagaio e não ligava para os bonecos. Mas de tanto olhar, acabou aprendendo, só observando. Por volta dos 9 anos, tentou fazer alguns bonecos, não deu certo. Quebrou todos. Aos 15 recomeçou. “Fazer mamulengo dá um trabalho danado”. 

Onde criam?

Na pequena Florestinha, município de Carpina, sua terra natal e onde reside atualmente, Mestre Saúba fala pouco de suas andanças. Já foi considerado o maior escultor vivo de mamulengos, já passou por São Paulo onde chegou a morar durante alguns anos em Itapecerica da Serra, mas seu lugar é Pernambuco: “Não tem como, eu vou ficar por aqui, trabalhando embaixo desse pé de jaca.”

Fonte: Arte Popular Brasil / Arte do Brasil / Museu Casa do Pontal / Recife Gov