Sinéia (Sinéia Pereira Hosana de Sousa)

Localização Av das Mangueiras, n.17, bairro São João Godeiro, Ilha de Caratateua, Distrito de Outeiro - Belem/PA - CEP 66843-400
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As mãos que criam, criam o que? 

Uma cerâmica singular, com grande variedade de formatos e desenhos. Criações populares da cultura material “Tapajônica” que são fruto de um ofício cuidadoso e de extrema precisão, e que percorre várias etapas: aquisição da matéria-prima, beneficiamento e tratamento da argila, manufatura do objeto cerâmico e secagem, queima, acabamento final e embalagem. Em cada uma delas, sucedem-se outras mais específicas, sobretudo no acabamento final, onde acontece a pintura, tão particular dessa arte. Tecnologias nativas herdadas: engoles naturais, “chamote” feito com cacos moídos e argila e casca de pau (cariapé) que após queimada sua cinza garante a resistência das peças refratárias, evitando as quebras. 

A cerâmica da cultura “Tapajônica” tornou-se mundialmente conhecida através das mãos de mestres como Sinéia, que acumulam mais de meio século dedicado a tradição ceramista. Apresenta-se como cerâmica utilitária (com notável ocorrência de novas linhas de produtos obtidos a partir do trabalho com designers, artistas e artesãos de reconhecida capacidade); cerâmica decorativa, caracterizada por produtos do artesanato tradicional e cerâmica arqueológica, que concentra as réplicas arqueológicas do acervo do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) na Ilha de Marajó, feitas com material e insumos originais. Dos longos anos de pesquisa de campo em contato com pessoas mais velhas e muitos livros, Sinéia identificou inúmeras variedade de argilas existentes: mais ferruginosa e rica em ferro e manganês na Ilha do Marajó, mais clara em Santarém, uma terceira variedade em Maracá e muitas outras. 

Quem cria?    

Sineia é filha, neta e bisneta de ceramistas. É artesã e pesquisadora das cerâmicas da Amazônia, comprometida com a área da educação e da cultura. O avô José Damião tinha uma olaria grande, herdada mais tarde pelo filho (pai de Sinéia), Gabriel Lopes Hosana, conhecido como Mestre Gaby. Um negócio de família. Sinéia sempre gostou de acompanhá-lo, mas a mãe não aprovava. Gertrudes havia sido criada estudando, tocando piano, cantando na igreja. Era amazonense, descendente de índios Maués e sírio libanês. Filha de fazendeiro, seu pai (avô materno de Sinéia) era muito rico e quando casou-se, a família a deserdou: “Papai era preto e pobre”. A mãe trabalhava com um pastor adventista norte americano e se conheceram quando ele acompanhava seu grupo em uma viagem com a missão de doutrinar ribeirinhos e produzir dois filmes. Apesar da reprovação da mãe, Sinéia gostava mesmo de estar com a mão no barro. E desde pequenina, ganhar seu próprio dinheiro. Na década de 1960, aos 9 anos já produzia suas panelinhas e o pai levava junto com suas mercadorias para vender em Belém, no Mercado Ver-o-Peso. “Ele achou que ninguém ia querer aquilo tudo miudinho, mas os pais iam com as crianças para a feira e elas gostavam.” Seu pai produzia canos hidráulicos em cerâmica para irrigação e outras finalidades. Aos 12 anos Sineia já negociava com os clientes. Aos 15 assumiu a olaria. O que o pai gostava mesmo era de fazer arte popular. 

Sineia começou a estudar historia geral, gostava de pesquisar sobre os povos antigos, visitar o Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG). Formou-se em Administração Escolar, Direito e Pedagogia. Morou cinco anos em Macapá, desenvolvendo um trabalho para o INCRA de ação discriminatória de terras, quando passou a se interessar pela pesquisa com cerâmica. Sofreu muita resistência pelo fato de não possuir formação acadêmica em arqueologia. Conseguiu ingressar no Museu Emílio Goeldi apenas em 1988, acompanhada por um grupo de estudiosos franceses: “Mas eu sou desaforada, dedico minha vida a isso, faço escavação”. Fez muitos cursos, incluindo no Liceu Escola de Artes e Ofícios Mestre Raimundo Cardoso, especializações, e muitas escavações. Néia é um exemplo dos mestres paraenses que tardaram a receber o reconhecimento formal de sua contribuição para a cultura popular, e para a economia criativa do estado. Em seu campo de atuação, ela promove troca de conhecimentos e de novas técnicas, sendo uma das ações a escolinha para crianças, oferece palestras, participa de feiras e exposições e atua na comercialização. Faz pesquisas com cerâmica desde a década de 1980, incluindo as de estilo tapajônico e a atual cerâmica do Paracuri além de pesquisas arqueológicas junto ao Museu Emílio Goeldi desde 2009, recuperando a história da cerâmica marajoara. Em 2015 recebeu o reconhecimento como Mestra em Cerâmica pela Secretaria de Cultura do Estado do Pará (SECULT) através do Projeto Seiva Manifestações Culturais e em 2018 o título de Mestra de Ofício pelo Programa do Artesanato Brasileiro (PAB). Os conhecimentos em direito a permitiram zelar pela sua comunidade; a administração fortaleceu a atuação como presidente da Cooperativa dos Artesãos de Icoaraci (Coarti) desde 1986 e a Pedagogia sempre colaborou no papel mais importante de uma Mestra: transmitir seu conhecimento aos mais jovens, mantendo a arte, a história e a cultura local viva. Apesar de toda a formação acadêmica, fez-se mestra amassando a argila.

Onde criam?

Sineia Pereira Hosana de Sousa é nascida em 1951 em Icoaraci, Belém do Pará que tornou-se mundialmente conhecida pela cerâmica arqueológica da Amazônia. Interessada em se aproximar de seu trabalho mais primitivo, em 2019 Néia foi morar no distrito de Outeiro, um lugar com muita disponibilidade de tintas naturais (jazidas), especialmente em Praia de Poteiro. Enquanto a COARTI está em fase de reesruturação, aguardando por uma nova sede, ela segue com planos de fazer uma escola pra crianças por lá e trabalhar com o beneficiamento da argila, inexistente no distrito. Pela qualidade ímpar de seus artefatos e reconhecimento de seu trabalho, Sinéia vende peças para museus (como o Museu de Folclore Edison Carneiro), envia encomendas para a Alemanha, EUA e Canadá e direciona sua produção de cerâmica popular para os canais de comercialização da COARTI. Hoje se vê mais atuante no campo da arqueologia e dedicada a investigações do que ela define como pedagogia quântica. “A nossa terra está em mudança. Quero trabalhar em uma arte quântica e a nossa arte cerâmica foi feita pelos deuses, é uma porta ritualística, tem que ser resgatada.” 

Fonte: Feira Nacional de Artesanato / Aqui Gente Vende - UFPALinkedin