Zezinha (Maria José Gomes da Silva)

Localização Campo Buriti - Turmalina/MG - CEP 39660-000
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Contato Ulisses

As mãos que criam, criam o que? 

Vale do Jequitinhonha, onde tudo parece infértil, mas a terra insiste em produzir fartura. A matéria-prima, o barro. A partir dele, nascem algumas das mais famosas bonecas da arte popular brasileira. Em 2018 o reconhecimento unânime do Conselho Estadual do Patrimônio Cultural (Conep): o artesanato em barro do Vale do Jequitinhonha se tornou patrimônio imaterial de Minas Gerais

Com uma técnica aprimorada e um acabamento diferenciado as peças de Zezinha se sobressaem. Em geral mães ou noivas. As feições, sempre parecidas. Ela afirma que nunca se inspirou em ninguém apesar dos traços terem se tornado uma de suas marcas. As primeiras peças eram grandes, de uma única cor, rosa claro. Mulheres simples, sem vaidade, quase serviçais. Hoje são sofisticadas, bem vestidas, joviais, até com um ar aristocrático. O homem surge apenas como noivo, de terno, gravata e cabelos bem penteados. São pintadas com várias cores de engobe: na pele, rosa acetinado e várias tonalidades para o vestido, chapéu, sapatos e adereços, pigmentos extraídos de minérios locais e aplicados antes da queima. No antigo barreiro que forneceu barro por mais de 60 anos, o barro acabou. Hoje compram de um pessoal da região. Sua obra, pela plasticidade, refinamento e beleza, não pode mais ser chamada de artesanato. Talvez a artista mais privilegiada em relação à venda das peças, é preciso paciência pois a lista de espera é grande. Seu sucesso é notável. 


 

Quem cria?    

Maria José Gomes da Silva é uma das mais prestigiadas artistas do Vale do Jequitinhonha, por que não dizer do Brasil. Nasceu no município mineiro de Campo Alegre. Primeira de dez irmãos, teve que começar a trabalhar mais cedo, aos 14 anos, ajudando o pai nas obras onde trabalhava como servente. Depois aprendeu a lidar com o barro vendo os pais, ceramistas. A avó já fazia artesanato, eles deram continuidade, como Zezinha. Não teve nenhum mestre. Apenas a mãe trabalhando, e ela sempre junto. Aos 51 anos, Zezinha tem quase 40 dedicados ao artesanato. A mãe ainda vive na zona rural e segue trabalhando com a filha Maria de Fátima. Na família, Zezinha foi a que teve mais projeção. “A gente não tinha muitas escolhas, então tínhamos que fazer o artesanato e ajudar na roça, era o que dava para matar a fome na época”.

Aos 21 anos, Zezinha casou-se com Ulisses, que viajou de lá pra cá atrás de emprego por dois anos: na cana, na construção civil. Zezinha enxergou no trabalho com o barro uma oportunidade. Em 1990 convocou oito companheiras, um grupo de artesãs para se dedicarem ao artesanato. Em 1993, já tinham um acervo de peças, vendidas nas feiras de Minas Novas e Turmalina que transportavam em lombo de burros. Elas, a pé, seguiam junto. Em pouco tempo o trabalho de Zezinha ganhava alcance e Ulisses retornou para assumir as tarefas da casa e duas filhas para que Zezinha se dedicasse a sua arte. Um ato de coragem em um ambiente que discrimina esse papel para o homem. Pouco mudou até hoje.

Zezinha e Ulisses integraram a Associação de Coqueiro Campo por quase 18 anos. Ele era o único homem em um universo de mais de 50 mulheres, escolhido pelas artesãs para representá-las. A vida mudou! Hoje eles tem as filhas iniciadas na arte do barro e prováveis sucessoras. Moram com conforto na zona rural de Coqueiro Campo onde intercalam a produção das peças com tarefas diárias na lavoura e na casa. Além do atendimento aos clientes e encomendas, Ulisses é responsável pelas queimas.


 

Onde criam

O Vale do Jequitinhonha é uma região amplamente conhecida pelos baixos indicadores sociais. Banhado pelo rio Jequitinhonha com exuberante beleza natural e riqueza cultural, com traços sobreviventes da cultura portuguesa, indígena e negra. Vivem do cultivo de eucalipto e da lavoura de subsistência. Coqueiro Campo é um dos vilarejos que sofrem com escassez de chuvas, poucas oportunidades de trabalho e êxodo de trabalhadores. Sol a pino. Em época de seca, os homens partem para as plantações de cana-de-açúcar em São Paulo, e deixam o sustento das famílias com as mulheres, viúvas das secas. É pela produção de cerâmica que resistem. 

É nessa zona rural o espaço de criação e produção de Zezinha, onde o trabalho começa cedo. Na entrada do sítio, bonecas inacabadas decoram a cerca. Sobre planos de futuro, Ulisses diz: “A única coisa que eu e a Zezinha não temos é sonho. A gente não tem e nunca teve sonho, a gente deixa as coisas acontecerem e não sonha com nada não, e parece que está dando certo”.



Fonte: Eu me Ensinei, Edna Matosinho