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Lab Santo Amaro avança da criação dos produtos para os caminhos da comercialização

Mariana Maria

Depois de um primeiro ciclo dedicado à escuta do território, à cocriação de uma coleção e à estruturação da Rede Tesá, o Lab Santo Amaro entra em uma nova etapa. Agora, o projeto realizado em Santo Amaro do Maranhão aprofunda questões como produção, preço, varejo, atacado e circulação. Uma visita à Fenacce, em Fortaleza, colocou duas artesãs diante de outros modos de produzir, apresentar e vender artesanato no país.

Quando Sílvia e Clara entraram pela primeira vez em um grande evento de artesanato, não foram apenas conhecer os estandes.

Queriam entender quem estava ali, como os produtos eram apresentados, de que maneira os artesãos conversavam com o público, como haviam começado a participar de feiras e o que aprenderam no caminho. Queriam olhar os materiais, os preços, os formatos das peças. Fazer perguntas. Comparar experiências.

A viagem à Fenacce — Festival Nacional de Artesanato e Cultura do Ceará, em Fortaleza, aconteceu durante o segundo ciclo do Lab Santo Amaro e faz parte de um trabalho iniciado bem antes daquela visita. A edição de 2026 reuniu artesãos de todos os estados brasileiros no Centro de Eventos do Ceará, em uma programação voltada ao artesanato, à cultura e aos negócios do setor.

Criado em Santo Amaro do Maranhão a partir de uma parceria entre a Artesol e a Casa Oyá, com Marina Linhares, o Lab começou pela aproximação com os artesãos do território. A primeira etapa foi de escuta e reconhecimento: conhecer histórias, técnicas, matérias-primas, modos de vida e questões que atravessavam a continuidade e a comercialização do artesanato local.

O diagnóstico encontrou um repertório rico de trabalhos com fibras da região, entre elas carnaúba e buriti, mas também desafios comuns a quem produz de forma artesanal: dificuldade para calcular custos, estabelecer preços, organizar a oferta e ampliar os caminhos de venda.

A partir dessa escuta, o projeto reuniu artesãos, designers e estudantes da Universidade Federal do Maranhão em um processo de criação compartilhada. Antes de desenhar novos objetos, a equipe entrou nas casas, acompanhou modos de fazer e procurou entender como materiais e técnicas faziam parte da vida cotidiana.

As propostas desenvolvidas a partir dessa imersão voltaram aos artesãos e foram revistas, testadas e transformadas junto com eles. Desse processo nasceu uma coleção de 12 produtos decorativos.

O trabalho avançou também sobre questões que não aparecem necessariamente na peça pronta. Uma oficina específica de precificação, por exemplo, partiu de um problema identificado ao longo do processo: a falta de critérios mais claros para calcular custos e reconhecer, no preço final, o tempo e o trabalho envolvidos na produção.

Ao mesmo tempo, o grupo começou a construir uma identidade comum. Nome, marca e catálogo ajudaram a dar forma à Rede Tesá, articulando os produtos às histórias, memórias e símbolos de Santo Amaro.

Esse primeiro ciclo chegou também às experiências iniciais de venda. Foi quando uma nova pergunta ganhou espaço: depois de criar, organizar e precificar, como fazer esse trabalho circular?

Comercialização passa a fazer parte do aprendizado

É essa pergunta que orienta boa parte da segunda fase do Lab Santo Amaro.

A comercialização deixa de aparecer apenas no final do processo e passa a ser observada em suas várias etapas: acesso à matéria-prima, capacidade de produção, composição de custos, formação de preço, diferenças entre varejo e atacado, relação com clientes e participação em feiras e eventos do setor.

“A gente tem focado na comercialização como um tema de aprendizagem, um aprofundamento nesse tema”, conta Renata Mendes, consultora da Artesol, coordenadora e designer do projeto. “Desde a cadeia produtiva, o acesso à matéria-prima, a comercialização no varejo, no atacado, sempre olhando com muito cuidado, com muito respeito, o ritmo e o modo de vida das pessoas que constituem a Rede Tesá.”

A equipe dessa etapa reúne diferentes olhares sobre o mesmo processo. Além de Renata, participa a designer local Larissa Prazeres, aproximando o desenvolvimento dos produtos da realidade e das referências do território, e Daniela Vasconcelos, consultora comercial, que acompanha o grupo nas questões ligadas à organização das vendas e aos caminhos possíveis para colocar os produtos em circulação.

A presença dessas diferentes frentes é importante porque o desafio não está simplesmente em vender mais. Trata-se de entender o que cada possibilidade comercial exige e avaliar se ela cabe nas condições concretas de produção dos artesãos.

Uma encomenda maior, por exemplo, pode parecer uma oportunidade, mas depende da disponibilidade da matéria-prima, do tempo necessário para produzir e da capacidade do grupo de atender aquele volume. Um preço precisa considerar material e horas de trabalho, mas também precisa funcionar no canal em que o produto será vendido. Varejo e atacado não colocam as mesmas questões.

É nesse terreno que o segundo ciclo vem trabalhando.

A feira como campo de observação

A ida à Fenacce foi concebida dentro dessa lógica.

Sílvia e Clara viajaram a Fortaleza como representantes da Rede Tesá. Para as duas, era a primeira experiência em um evento daquela dimensão.

Antes da visita, a equipe preparou com elas questões que poderiam orientar a observação. Quem frequenta um evento como aquele? Quem são os artesãos presentes? Há quanto tempo participam? Como começaram? Que tipo de produto vendem? Como organizam seus estandes? Que instituições os apoiam? Como recebem os clientes?

“A gente projetou essa experiência estruturada com metodologia, com a construção de perguntas para que fossem feitas lá, olhos atentos para observar o ritmo dessa feira, quem frequenta, quem são os artesãos”, conta Renata.

Havia método, mas não um roteiro fechado.

“A gente também previu momentos soltos para dar conta do deslumbramento, de ver sem script, sem roteiro, de deixar o acaso fazer seu trabalho.”

Foi nesses dois movimentos — procurar respostas e simplesmente olhar — que a experiência ganhou corpo.

Sílvia lembra das conversas que teve pelo caminho, das luminárias que chamaram sua atenção e, especialmente, do encontro com Fátima, artesã do Ceará.

“Conversar com as pessoas foi muito interessante, porque cada um já tem muito para ensinar para a gente, coisas que a gente não sabe”, conta.

O interesse pelas peças vinha acompanhado de perguntas muito práticas.

“Nós fomos buscar isso: o aprendizado de quem já conhece o roteiro de participar de uma feira, de como melhorar, como botar preço nas nossas peças. Então isso para nós é um aprendizado que não tem preço.”

Clara também se deteve nas luminárias, nos materiais e nas possibilidades de criação. Ao olhar uma solução encontrada por outro artesão, já pensava no que poderia ser experimentado quando voltasse para casa.

“O modelo que eu vi ali dá pra gente criar quando chegar em casa diferente”, diz.

Mas não foram apenas os objetos que lhe interessaram.

“A gente conversou com muita gente, viu as histórias deles, de onde eles vieram, como começaram, a experiência que eles tiveram.”

Preço, atendimento, exposição, diversidade de produtos e trajetória profissional apareciam ali ao mesmo tempo. Em vez de discutir essas questões apenas de forma abstrata, Sílvia e Clara podiam observá-las em funcionamento, em contato direto com artesãos de diferentes partes do país.

A Fenacce reúne artesanato, programação cultural e oportunidades de relacionamento e negócios para o setor, o que fazia daquele ambiente um campo especialmente fértil para esse momento do Lab.

O que volta para Santo Amaro

Uma das ideias centrais da viagem era que a experiência não terminasse nas duas artesãs.

Sílvia e Clara foram à Fenacce também para voltar com perguntas, referências e aprendizados que pudessem ser compartilhados com os demais integrantes da Rede Tesá.

Sílvia tinha isso claro ainda durante a visita.

“Quero levar pra lá, pro nosso grupo, pra desenvolver o nosso grupo.”

Clara também começou a imaginar outro lugar possível para quem naquele momento percorria o evento como visitante.

“Gostei demais da experiência que nós tivemos e que em breve também nós esteja aqui pra vender esse material.”

Há desejo nessa fala, mas também uma mudança de perspectiva. Estar em um ambiente ao lado de artesãos de diferentes regiões do país permitiu às duas enxergar o próprio trabalho dentro de uma categoria muito maior.

Renata destaca justamente essa dimensão da experiência.

“É muito importante ser artesã e estar num evento desse, se relacionar com seus pares e perceber o tamanho e a importância dessa categoria, o valor imenso que tem o artesanato brasileiro.”

De volta a Santo Amaro do Maranhão, o trabalho continua.

As referências encontradas na Fenacce não chegam como modelos prontos a serem reproduzidos. Elas entram numa conversa que já vinha sendo construída desde o início do Lab Santo Amaro: o que faz sentido para aquele território, para aqueles materiais, para os modos de produção existentes e para a vida das pessoas que fazem parte da Rede Tesá?

No primeiro ciclo, o projeto começou olhando para dentro: para os saberes, os materiais, as histórias e as possibilidades de criação presentes em Santo Amaro. Daí vieram uma coleção, uma identidade comum, um catálogo, novas ferramentas para pensar os preços e as primeiras experiências de venda.

Agora, a Rede Tesá começa também a olhar para fora. Não para abandonar o que construiu, mas para entender melhor o mundo em que seus produtos poderão circular — e escolher, a partir daí, quais caminhos quer percorrer.

Mariana Maria é comunicadora e especialista em marketing, com foco em contar histórias que conectam marcas e pessoas. Coordena a comunicação da Artesol e de seus projetos, unindo estratégia e sensibilidade para contribuir com a valorização do artesanato brasileiro. Atua também como consultora em branding e comunicação estratégica, ajudando organizações a construírem narrativas autênticas e impactantes.

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