Av. Nove de Julho, 5569 Sala 41
CEP 01407-911
São Paulo - SP
Tel.: 11 3082 8681
institucional@artesol.org.br

Artiz

Shopping JK Iguatemi
- 2° piso
Av. Pres. Juscelino Kubitschek, 2041
São Paulo - SP
CEP 04543-011

O que muda quando o clima muda: os impactos das mudanças climáticas no artesanato

No Papo Artesanal nº 117, pesquisadora e artesãos de diferentes biomas mostram como as mudanças climáticas já afetam matérias-primas, renda e modos de fazer — e discutem caminhos para fortalecer a adaptação das comunidades e a conservação dos territórios.

O que muda quando o clima muda? Para quem trabalha com fibras, sementes, folhas e madeiras, os efeitos das mudanças climáticas não aparecem primeiro em gráficos ou satélites. Eles são percebidos na floração das plantas, no comportamento dos rios, na qualidade das fibras e na dificuldade crescente de encontrar matérias-primas. Muito antes dos dados confirmarem tendências, artesãs e artesãos já observam as transformações no território e adaptam suas práticas diante de um ambiente em constante mudança. Foi para discutir como a crise climática afeta o cotidiano dessas comunidades que a Rede Artesol promoveu, em 15 de julho, o Papo Artesanal nº 117, com a condução da pesquisadora Camila Brás Costa, doutora em Ciência Florestal pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). Ao longo do encontro, ela apresentou resultados de sua experiência profissional junto a comunidades tradicionais e de sua pesquisa sobre Produtos Florestais Não Madeireiros (PFNM), refletindo sobre caminhos para fortalecer a resiliência das cadeias produtivas do artesanato em diálogo com os conhecimentos construídos pelas próprias comunidades.

Como as mudanças climáticas afetam o artesanato

As mudanças climáticas podem ser definidas como alterações de longo prazo nos padrões climáticos da Terra, marcadas pelo aumento da temperatura média global, por mudanças nos regimes de chuva e pela maior frequência de eventos extremos, como secas, enchentes e incêndios florestais (IPCC, 2023). No entanto, seus efeitos vão muito além da dimensão ambiental. Em atividades que dependem diretamente da sociobiodiversidade brasileira, como o artesanato, elas repercutem em toda a cadeia produtiva.

A redução da disponibilidade de matérias-primas torna a coleta mais difícil, aumenta o tempo de deslocamento, compromete a produção das peças, eleva os custos e ameaça a continuidade de ofícios transmitidos entre gerações. Como sintetizou Camila durante o encontro, “um problema ambiental acaba chegando ao bolso das famílias e à permanência dos saberes tradicionais”.

Essa relação estreita entre artesanato e natureza faz com que artesãs e artesãos estejam entre os primeiros a perceber alterações nos ciclos das espécies e na disponibilidade dos recursos naturais. No entanto, mais do que testemunhas dessas mudanças, eles produzem conhecimentos sobre os territórios que habitam e manejam. Colocados em diálogo com a pesquisa científica, esses saberes tornam-se fundamentais para compreender os impactos da crise climática e construir estratégias de adaptação baseadas na conservação da sociobiodiversidade. Ao longo da apresentação, Camila Brás Costa demonstrou que conhecimentos científicos e tradicionais dialogam intimamente e que proteger a biodiversidade também significa fortalecer as comunidades que dela dependem. É também reconhecer que o uso sustentável das matérias-primas pode ser um dos caminhos mais eficazes para sua conservação.

Matérias-primas, biodiversidade e renda: uma mesma cadeia

Um dos pontos centrais apresentados por Camila foi o papel dos Produtos Florestais Não Madeireiros (PFNM) — recursos extraídos da vegetação sem a derrubada das árvores, como frutos, sementes, fibras, folhas, resinas e óleos. Base de grande parte do artesanato brasileiro, esses produtos demonstram que florestas conservadas podem gerar alimentos, medicamentos, corantes, fibras e matérias-primas capazes de sustentar economias locais e fortalecer modos de vida tradicionais. A pesquisa da doutora em Ciência Florestal investigou justamente como o uso sustentável desses recursos pode contribuir para sua conservação. Ao estudar a espécie Carpotroche brasiliensis, conhecida como sapucainha, ela identificou um fenômeno revelador: quando um substituto sintético passou a ocupar o mercado de seu óleo, a demanda pelo produto natural caiu drasticamente. Sem valor econômico, a espécie deixou de ser cultivada por muitos agricultores e começou a desaparecer dos sistemas agroflorestais. “O desuso também é uma ameaça à conservação”, resumiu a pesquisadora.

A experiência mostrou que proteger uma espécie não significa apenas impedir sua exploração, mas garantir que ela continue tendo importância econômica, cultural e social para as comunidades que vivem do território. No artesanato, essa lógica é evidente: ao utilizar matérias-primas nativas de forma responsável, artesãs e artesãos tornam-se protagonistas da conservação da biodiversidade. Diante dos desafios impostos pelas mudanças climáticas, Camila defendeu que a adaptação passa pelo fortalecimento das boas práticas de cultivo e manejo. Dessa forma, além de conservar as espécies de interesse, garante-se matéria-prima para as próximas gerações, aumentando a resiliência da produção, fortalecendo a autonomia das comunidades e agregando valor ao trabalho artesanal.

Manejo sustentável como estratégia de adaptação

Para isso, existem ferramentas já consolidadas em diferentes cadeias da sociobiodiversidade, como certificações de manejo florestal sustentável, sistemas de rastreabilidade e boas práticas de coleta. Essas estratégias permitem acompanhar a origem da matéria-prima, garantir o respeito aos ciclos naturais e ampliar o reconhecimento do valor ambiental e cultural presente em cada peça produzida. Entre as recomendações apresentadas estão práticas que muitas comunidades já realizam há gerações: respeitar o tempo de regeneração das plantas, realizar a coleta seletiva, preservar plantas matrizes, proteger áreas de coleta, diversificar espécies utilizadas e monitorar coletivamente a disponibilidade das matérias-primas.

“Muitas dessas práticas já existem há séculos como conhecimentos tradicionais”, destacou Camila.

Portanto, esse saber, acumulado ao longo de gerações, constitui uma fonte de informação essencial para orientar pesquisas, subsidiar políticas públicas, aperfeiçoar planos de manejo e desenvolver estratégias de adaptação às mudanças climáticas. Ao colocar ciência e conhecimento tradicional em diálogo, o encontro reforçou que a conservação da biodiversidade depende tanto da produção acadêmica quanto da experiência de quem vive e trabalha diariamente nos territórios.

Vozes do território: como as mudanças climáticas já afetam o artesanato

Se a pesquisa apresentada por Camila mostrou como as mudanças climáticas afetam a sociobiodiversidade, os relatos apresentados ao longo de sua exposição e as contribuições dos participantes revelaram como esses impactos já fazem parte do cotidiano de quem vive do artesanato.

No Papo Artesanal, artesãs e artesãos de diferentes regiões e biomas do país revelaram como as mudanças climáticas já fazem parte do cotidiano de quem depende diretamente da natureza para produzir. Ao introduzir esse momento da conversa, Helena Kussik, coordenadora da Rede Artesol, destacou que, embora ainda pouco discutido, artesãos que trabalham com cerâmica e fibras naturais estão entre os que relatam perceber, de forma rápida e intensa, os efeitos das transformações ambientais sobre seus modos de vida.

Juão de Fibra: cultivar para garantir matéria-prima no futuro

Mestre das fibras, Sr. João Gomes, conhecido como Juão de Fibra, compartilhou sua trajetória de manejo e uso do capim-colonião (Panicum maximum), matéria-prima que faz parte da história do Brasil colonial, originária da África oriental e fundamental para seu trabalho. Segundo ele, a redução da planta nos ambientes onde era encontrada já altera profundamente a cadeia produtiva. Para garantir a continuidade do ofício, adquiriu uma área de aproximadamente dez mil metros quadrados destinada ao cultivo do capim-colonião junto a várias outras espécies produtoras de fibra e à criação de um espaço permanente de matéria-prima, no quintal de casa.

“Temos de pensar em um lugar para não deixar morrer o que se faz”, afirmou.

A iniciativa deu origem ao Instituto Mestre Juão de Fibra, em Novo Gama (GO), concebido como um museu vivo que recebe estudantes, reúne rezadeiras, benzedeiras e outros detentores de saberes tradicionais, além de desenvolver ações voltadas à valorização da cultura local. Para ele, esse trabalho precisa caminhar ao lado do poder público, fortalecendo políticas capazes de garantir a continuidade dessas práticas. Juão também lembrou que o capim-colonião desempenha um importante papel ecológico no Cerrado e citou iniciativas como a Festa do Capim-Colonião e projetos desenvolvidos em parceria com pesquisadores da Universidade de Brasília como exemplos de mobilização comunitária em defesa da biodiversidade.

No Pantanal, a mudança no regime das águas afeta a coleta do aguapé

Do Pantanal (MS), Leonida Aires de Souza trouxe a experiência de quem há mais de seis décadas acompanha os ciclos das águas. Costureira, agrofloresteira e integrante da Rede Pantaneira, ela explicou que a coleta do aguapé (Eichhornia crassipes), principal matéria-prima de seu artesanato, depende do regime natural das cheias. Segundo a artesã, esse ciclo vem mudando: os rios já não sobem como antes, o aguapé apodrece, os peixes morrem e todo o equilíbrio do ecossistema é comprometido. Leonida lembrou que o aguapé não sustenta apenas o artesanato. A planta abriga espécies aquáticas, faz parte da alimentação de animais e pessoas e concentra conhecimentos transmitidos entre gerações.

“Cuidar da natureza significa cuidar da vida”, resumiu.

Ao defender a recuperação dos rios e o fortalecimento de políticas de preservação do Pantanal, Leonida reforçou que a proteção do território interessa a toda a sociedade. “Essa é a nossa casa, mas não é só para nós”, afirmou. A artesã também chamou atenção para um problema recorrente enfrentado por muitas comunidades tradicionais: a invisibilidade. “Já fomos muito usados. Pegam nosso conhecimento, nosso trabalho, e quem fez tudo isso muitas vezes nem aparece.” Para ela, reconhecer os detentores desses saberes é tão importante quanto preservar os recursos naturais dos quais dependem. Leonida também ressaltou que as populações do campo precisam participar da construção das respostas à crise climática, pois são elas que acompanham diariamente as transformações do território e detêm os conhecimentos dos povos originários e das comunidades tradicionais.

No Jalapão, seca e calor alteram o ciclo do capim dourado

Do Jalapão, Ilana Cardoso, da Associação Capim Dourado do Povoado de Mumbuca (TO), relatou que as mudanças climáticas já alteram o ritmo da produção artesanal. O Rio Novo, contou, enfrenta períodos de seca incomuns, enquanto o calendário das plantas já não responde como antes. O cajuzinho do cerrado (Anacardium sp.), por exemplo, deveria estar disponível em julho, mas ainda não havia surgido. O calor intenso também interfere diretamente no fazer artesanal: durante o trabalho de costura, é preciso umedecer constantemente a seda do capim dourado (Syngonanthus nitens) para evitar que ela se quebre. Ilana destacou que tanto a conservação ambiental quanto a continuidade do artesanato dependem da ação coletiva e não podem ser construídas de forma isolada.

Na Caatinga, o manejo tradicional ajuda a conservar o caroá

A relação entre manejo sustentável e conservação também apareceu no relato de Valdeci Oliveira, da comunidade quilombola Conceição das Crioulas, em Salgueiro (PE). Artesã que trabalha com algodão, barro e caroá (Neoglaziovia variegata), espécie nativa da Caatinga, explicou que a planta parece seca durante boa parte do ano, mas renasce com a chegada das chuvas, refletindo a própria dinâmica do bioma. O manejo da matéria-prima segue os ensinamentos deixados pelos antepassados: retirar apenas o necessário e permitir que a natureza se regenere. Suas Bonecas de Caroá representam onze mulheres consideradas importantes para a história da comunidade e simbolizam não apenas uma fonte de renda, mas também história, memória e resistência.

As experiências compartilhadas pelas artesãs dialogaram com as reflexões apresentadas por Camila ao longo da conversa. Para ilustrar caminhos possíveis diante dos desafios atuais e futuros, a pesquisadora recorreu a exemplos da natureza e ao comportamento de outras espécies que colocam a vida no centro das decisões. Assim como os suricatos aprendem observando as gerações mais experientes e os peixes-limpadores constroem relações de confiança por meio da repetição de boas práticas, a conservação também depende da transmissão de conhecimentos, da cooperação e do compromisso coletivo com o território. As metáforas reforçaram uma ideia recorrente durante todo o encontro: cuidar da natureza não significa interromper seu uso, mas aprender a utilizá-la de forma responsável para que ela continue existindo.

Ao final do encontro, Camila lançou uma pergunta aos participantes que sintetizou o espírito de toda a conversa:

“Se um jovem começasse hoje a aprender o ofício de vocês, qual matéria-prima vocês gostariam que ainda existisse em abundância daqui a 30 anos? E o que podemos fazer hoje para que isso aconteça?”

Mais do que uma reflexão, a pergunta apontou para um compromisso coletivo. As respostas apresentadas ao longo do encontro convergiram para uma mesma direção: fortalecer o manejo sustentável e, quando possível, o cultivo em agroecossistemas, valorizar os conhecimentos tradicionais e ampliar o diálogo entre comunidades, pesquisadores e formuladores de políticas públicas.

As mudanças climáticas representam um dos maiores desafios para o artesanato contemporâneo. Ao mesmo tempo, os saberes construídos pelas comunidades artesãs mostram que existem caminhos concretos para enfrentar esse cenário. Reconhecer quem vive e conhece os territórios, investir em práticas sustentáveis de cultivo e manejo e construir formas de conservação baseadas no uso responsável da sociobiodiversidade talvez seja uma das respostas mais consistentes para garantir que matérias-primas, ofícios e modos de vida continuem existindo nas próximas gerações.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

Referências bibliográficas

Costa, Camila Brás. Produtos florestais não madeireiros: uso e conservação de Carpotroche brasiliensis. Tese (Doutorado em Ciência Florestal) – Universidade Federal de Viçosa, Viçosa, MG, 2018.

IPCC. Climate Change 2023: Synthesis Report. Geneva: Intergovernmental Panel on Climate Change, 2023.

Opções de acessibilidade