
Do Vale do Jequitinhonha a Paris: cerâmica mineira ganha projeção internacional na Maison & Objet 2026
Com cerca de 150 obras de quatro comunidades ceramistas, a participação na feira teve curadoria de Marco Aurélio Pulchério e reuniu grupos com os quais a Artesol desenvolve projetos desde os anos 2000.

Mariana Maria
18 de setembro de 2025
Entre 10 e 14 de setembro, cerca de 150 esculturas do Vale do Jequitinhonha ocuparam a Maison&Objet 2026, em Paris, uma das principais feiras internacionais de design, decoração e arquitetura. Vieram de Campo Alegre, Coqueiro Campo, Santana do Araçuaí e Cachoeira do Fanado — quatro comunidades em que o barro é, há gerações, matéria de trabalho, criação e renda.
A participação foi promovida pelo Sebrae Minas em parceria com o Governo de Minas Gerais, por meio da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico. Em vez de uma apresentação genérica do artesanato brasileiro, o estande levou a Paris obras identificadas por autoria e procedência, aproximando essa produção de compradores, galeristas, arquitetos, designers e curadores de diferentes países.
Para a Artesol, ver essas comunidades em Paris tem um significado especial. A relação com Campo Alegre, Coqueiro Campo e Santana do Araçuaí vem do início dos anos 2000, em ações voltadas ao fortalecimento dos grupos, à circulação de seus trabalhos e à geração de renda. Ao longo dos anos, esse vínculo ganhou novas formas e hoje também se estende pela Rede Artesol, ampliando conexões, visibilidade e oportunidades para artistas e associações desses territórios.

Uma curadoria que deixou o Vale aparecer
Marco Aurélio Pulchério, CEO e curador da MARCO500, assinou a curadoria das obras apresentadas na Maison&Objet. Conhecedor de longa data da produção artesanal e do design brasileiros, Pulchério reuniu trabalhos capazes de mostrar algo que se perde quando o Vale é tratado como uma linguagem única: a existência de repertórios compartilhados e, ao mesmo tempo, de autores muito diferentes entre si.
Noivas, figuras femininas, moringas, animais, casas e cenas do cotidiano apareciam lado a lado, mas não como variações de uma mesma fórmula. A força do conjunto vinha justamente das diferenças: da maneira de modelar um rosto, construir um corpo, trabalhar uma flor, extrair cor dos pigmentos naturais ou transformar uma memória familiar em escultura.
A expografia trabalhou a favor dessa leitura. Clara, elegante e sem excesso de informação, a montagem deu espaço para que volumes, texturas e detalhes pudessem ser vistos com atenção. Em uma feira atravessada por lançamentos e estímulos visuais, as obras não precisavam disputar o olhar com o entorno.
Também foi uma escolha importante não apresentar a tradição como algo parado no tempo. As peças carregavam técnicas transmitidas entre gerações, mas mostravam uma produção em movimento: artistas que reconhecem o que receberam de mães, avós e mestras e continuam criando a partir desse repertório.

Cinco artistas em Paris, quatro comunidades em cena
Cinco artistas acompanharam a programação em Paris.

Anísia Lima de Sousa, de Campo Alegre, começou a modelar aos oito anos, observando a mãe ceramista.

Andréia Andrade, de Santana do Araçuaí, é neta de Dona Izabel Mendes da Cunha e levou para a França trabalhos ligados a essa linhagem familiar, entre eles suas noivas.

Augusto Ribeiro, também de Santana do Araçuaí e discípulo de Dona Izabel, construiu sua trajetória ainda menino, a partir das sobras de barro das bonecas que via serem modeladas ao seu redor.

Alice Costa, de Cachoeira do Fanado, apresentou miniaturas inspiradas nas casas e construções da comunidade. Seu trabalho está ligado à Associação dos Artesãos de Cachoeira do Fanado, integrante da Rede Artesol.

Adriana Xavier, da comunidade de Campo Buriti, representou uma tradição familiar aprendida com mãe, avó e bisavó e está ligada à Associação dos Artesãos de Coqueiro Campo, também presente na Rede.
“Quanto mais nossas esculturas são valorizadas, mais a gente sonha.” A frase de Anísia, dita antes da viagem, ganhou uma dimensão muito concreta em Paris. A presença dos artistas junto às obras permitiu que as conversas sobre técnica, origem e trajetória acontecessem diretamente com quem faz — especialmente importante em uma produção cuja história dificilmente cabe numa etiqueta de exposição.

Uma história que a Artesol conhece de perto
A relação da Artesol com parte desses territórios vem do começo dos anos 2000. Os registros dos projetos em Campo Alegre, Coqueiro Campo e Santana do Araçuaí mostram ações realizadas em 2000 e em 2002–2003, voltadas à valorização da cerâmica local, à organização dos grupos e à ampliação de sua circulação.
Não se trata de transformar essa história em uma linha reta nem de reivindicar para a Artesol uma conquista que é, antes de tudo, das próprias comunidades e de seus muitos parceiros. Mas esses registros ajudam a dimensionar o caminho percorrido. O que hoje aparece em Paris já mobilizava, há mais de vinte anos, discussões sobre reconhecimento, geração de renda, permanência dos saberes e acesso a novos mercados.
Ao longo dos anos, essa relação ganhou novas formas. Hoje, a Rede Artesol amplia as possibilidades de conexão, circulação e visibilidade para artistas e associações desses territórios, ao mesmo tempo em que reúne informações sobre seus trabalhos, técnicas e formas diretas de contato.
Na plataforma estão, entre outros, os perfis de Anísia Lima, Augusto Ribeiro e da família de Dona Izabel, além das associações de Campo Alegre, Coqueiro Campo e Cachoeira do Fanado.

Mais de um circuito em Paris
A presença do Vale na capital francesa não se limitou à Maison&Objet. Durante a Paris Design Week, obras também integraram a exposição “La terre façonnée par l’art” (“A terra moldada pela arte”), na Ricardo Fernandes Gallery, no Marais, com curadoria do galerista Ricardo Fernandes.
A passagem simultânea por uma feira profissional e por uma galeria colocou as peças diante de públicos distintos e ampliou suas possibilidades de leitura e circulação.
A missão incluiu ainda encontros profissionais e uma agenda de aproximação com o mercado internacional. É cedo para traduzir esse movimento em números específicos de vendas ou encomendas decorrentes da Maison&Objet: até a publicação desta matéria, não havia um balanço comercial público da participação.
O que já se pode afirmar é que a cerâmica do Vale esteve apresentada, com autoria, procedência e contexto, em um ambiente estratégico para a construção de novas relações profissionais.

Mais de duas décadas depois
Há uma tentação frequente de narrar a chegada de produções brasileiras a grandes circuitos internacionais como se o reconhecimento externo inaugurasse seu valor.
Essas obras já tinham história, linguagem, colecionadores, mercado e reconhecimento muito antes de setembro de 2026. Paris aumentou seu raio de circulação.
E talvez esteja aí o aspecto mais bonito dessa passagem pela Maison&Objet: ver trabalhos profundamente ligados a seus territórios encontrarem novos públicos sem que precisem apagar a própria origem para isso. O barro continua vindo do Vale, as cores continuam nascendo da terra, e os gestos continuam carregando conhecimentos transmitidos dentro das famílias e das comunidades.
Há pouco mais de vinte anos, a Artesol estava em Campo Alegre, Coqueiro Campo e Santana do Araçuaí trabalhando com os grupos questões de organização, circulação e geração de renda. Em setembro de 2026, essas comunidades estavam representadas em uma das principais feiras internacionais de design, com suas obras, seus nomes e suas histórias diante de um público vindo de muitos lugares do mundo.
Para a Artesol, é uma alegria enorme assistir a esse movimento e continuar fazendo parte dele.

Mariana Maria
Mariana Maria é comunicadora e especialista em marketing, com foco em contar histórias que conectam marcas e pessoas. Coordena a comunicação da Artesol e de seus projetos, unindo estratégia e sensibilidade para contribuir com a valorização do artesanato brasileiro. Atua também como consultora em branding e comunicação estratégica, ajudando organizações a construírem narrativas autênticas e impactantes.
