José Roque Azevedo Assunção

Localização Loteamento Santo André, n. 30, Prainha 2 - Itubera/BA - CEP 45435-000
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Contato Zé Roque

As mãos que criam, criam o que?

Objetos de identidade marcante e usos diversos trançados a mão com a conhecida fibra da
piaçaba. Cestos, fruteiras, balaios, mandalas. Peças que entrelaçam mais do que fibras, que
sustentam resquícios da nossa herança afro-descendente. Apesar do seu uso popular, tão
restrito à fabricação de vassouras e coberturas, sua fibra pode ser usada para inúmeras outras
finalidades. Planta democrática que é, entre seus usos é possível identificar a produção de
objetos artesanais de beleza singular que preservam modos de fazer tradicionais de
populações quilombolas.

A piaçaba é uma planta nativa cujas variedades são endêmicas da Bahia e Amazônia. Seu
nome, de origem etimológica tupi-guarani, significa "planta fibrosa", devido ao caule
característico. Conhecida por diversas nomenclaturas - piassaba, piassava, piaçava, piacá,
piassaveira, piassaba-da-Bahia, japeraçaba, vai-tudo e tantos outros nomes - é uma palmeira
popular cujas fibras (que se localizam na base das folhas) além de permitirem a fabricação das
coberturas e vassouras cujo uso extensivo a deu renome, entrega outros sub-produtos que
podem ser beneficiados para outras finalidades. “Existe a fita da piaçaba, o talo e a fibra. Ela é
dividida em três partes: grossa, média e fina. Dependendo da espessura usa para uma
finalidade diferente." garante o artesão Zé Roque.

Na comunidade quilombola de Nilo Peçanha, na Bahia, onde há uma área de piaçaba nativa, Zé
Roque, um dos responsáveis pela requalificação da produção artesanal local, garante que a
extração ocorre respeitando os intervalos de descanso e regeneração da planta, que pode ser
de um ano e meio a três anos. "As palmas maduras são cortadas para facilitar a tiragem. Cada
planta fornece de três a quatro capas. Tira uma quantidade e deixa outra. Na tiragem seguinte
ela já se renovou. Esperamos ela regenerar e voltamos a cortar. Um conhecimento dos avós,
que vem de geração em geração. Por serem extrativistas, sabem como fazer. Esse trabalho vem
sendo passado de uns para outros."

A fibra é obtida através da extração natural que segue sendo uma atividade inteiramente
manual. E perigosa, já que não há uso de nenhum equipamentos de segurança. Os pés de

piaçabeiras são “escalados” pelos tiradores de piaçaba que respeitam o período de corte, um
conhecimento herdado que tem estado cada dia mais escasso. "Tem escassez de tirador, essa
transferência de pai para filho vem ficando reduzida, é inclusive uma preocupação do governo
por se tratar de uma atividade de relevância econômica para a região. Existe hoje área de
piaçaba com mais de cinco anos sem tirar, por falta dessa pessoa capacitada."

Quem cria?

O artesão José Roque Azevedo Assunção é o principal responsável pelo reflorescer desse fazer
ancestral no Quilombo de Boitaraca, em Nilo Peçanha, Bahia. Um lugar formado por famílias
originárias do continente africano que ainda preservam os saberes e tradições dos negros
fundadores. Trabalho que começou através da mãe, há cerca de 45 anos atrás, quando vieram
morar em Ituberá, uma cidade próxima. Ela conheceu e adquiriu a técnica do trançado com a
fibra, que décadas mais tarde o filho teve a oportunidade de retomar.

Em 2010, trabalhando em uma grande empresa, fabricante de pneus, ele foi convidado a
integrar um projeto da organização junto às comunidades quilombolas, por saberem de seus
conhecimentos com a fibra, transmitidos pela mãe. Voltou ao quilombo desta vez como
instrutor para transmitir a técnica da piaçaba aos membros de seis quilombos da região
incluindo Lagoa Santa e Guajazeira. “Não é também só passar a técnica, mas explicar a
importância da piaçaba, a importância para a cadeia da piaçaba, uma atividade de relevância
para o estado e também de equilíbrio para o meio ambiente." Acreditando no potencial do
projeto, Zé tomou a decisão para sair da empresa, para se dedicar exclusivamente ao projeto,
não mais apenas como um uma atividade complementar.

Com conhecimento e facilidade em atuar nas comunidades, ao deixar a coordenação do
projeto em 2015, Zé passou a ser convidado para capacitações através da Secretaria do
Trabalho, Emprego, Renda e Esporte - SETRE (que assumiu as ações de fomento ao artesanato
após a extinção do antigo Instituto Mauá). Com todo esse apoio aos núcleos criativos dos
quilombos, participando e divulgando os produtos em feiras de agronegócios e agricultura
familiar locais, o trabalho se expandiu e consolidou. "Para a comunidade foi uma oportunidade
de agregar valor à fibra e fortalecer a piaçaba. Quando pegamos essa fibra e começamos a
transformar, gerou valor para a fibra e a comunidade desenvolveu um caráter criativo também.
De uma fibra que só sabiam usar para limpar, para vender para Minas Gerais e fazer vassoura."

Desde entao, Zé Roque segue desenvolvendo seu trabalho autoral. Com um potencial criativo
que vai além das criações de caráter decorativo e utilitário, a preocupação ambiental é
presente em seu processo e o inspira a incluir materiais considerados refugos nas criações,
incluindo repensar a perda de 40% que a fibra da piaçaba abandona em seu processo
produtivo. "A minha preocupação é com esses 40%. Sobra muito, Quero ver o que poderia ser
feito para aproveitar esses 40%.” A convite de um dos projetos sociais da Fundação Odebrecht,
a Casa Familiar Agroflorestal (Cfaf), ele teve a oportunidade de propor um destino a tanto
resíduo. A iniciativa que atua com os filhos de agricultores, é um centro de ensino de referência

de conhecimentos agroflorestais. Através deles ele foi convidado a criar um tubete natural com
os resíduos da fibra da piaçaba para ser usado como recipiente na criação de mudas. "Seria um
excelente reaproveitamento. Quando a muda fosse plantada, se plantassem tudo - a muda e o
tubete - sem ter que retirá-lo depois. A preocupação era com o resíduo."

Zé experimentou no inicio uma solução com resíduo da borracha (látex) e depois partiu para o
resíduo da piaçaba. A pesquisa preliminar trouxe excelentes resultados, mas o material
demoraria muito para se decompor. Avançou com os estudos e lembrou-se da goma da
mandioca que usava nos quilombos para fazer cola a partir da fécula da mandioca. Com os
insumos, arriscou um cozimento. Foi parabenizado por um experimento inovador e foram
produzidos 1200 tubetes naturais. Mas pela ausência de uma formação acadêmica não pode
publicar seu trabalho. Há cerca de cinco anos sua pesquisa está na Universidade Cruz das
Almas com uma pesquisadora da EMBRAPA. "Fiz a pesquisa de analfabeto, já que eu não tinha
formação.”

Onde cria?

Ituberá é um municipío bahiano que foi primitivamente habitado pelos índios Aimorés.
Originou-se de uma aldeia indígena, foi ocupada no século XVIII pelos jesuítas e mais tarde, por
colonizadores portugueses que desenvolveram a cultura do cacau e do café. Situado na Região
Litoral Sul da Bahia, de intensa atividade turística, conhecida como Costa do Dendê, possui
algumas das mais belas praias da Bahia.
Junto com Igrapiúna e Nilo Peçanha, integra a Área de Proteção Ambiental (APA) de Pratigi,
criada em 1998 com 32 mil hectares de mata nativa preservada. Rica em vegetação de restinga,
é uma grande planície marinha com ilhas, rios, canais, manguezais, quilômetros de praias
desertas e imensa diversidade de fauna e flora, fornecendo meios de subsistência para a
população, incluindo o extrativismo da piaçaba, como afirma Zé. "É uma planta altamente
sustentável, responsável por manter a mata intacta, vive em harmonia com a Mata Atlântica."

Instrutor por missão, Zé Roque se realiza no repasse de seu conhecimento. A convite de
escolas, dissemina em palestras o amor pela arte de seus antepassados. “Para mim é um
prazer grande estar passando saberes para outras pessoas. Pra isso não morrer. Mostrar um
pouco da nossa cultura e dos nossos antepassados. Estamos fazendo artesanato por causa dos
nossos antepassados, se eles tivessem acabado com a piaçaba não estávamos trabalhando o
artesanato." Artesão resiliente, mesmo não obtendo sustento integral da atividade à qual se
doa plenamente, segue sua vocação acreditando em dias de maior reconhecimento. “A gente
quer que o artesanato seja valorizado e como hoje se fala em sustentabilidade, desejo que de
fato as pessoas vejam com bons olhos a importância do artesanato para o meio ambiente. A
gente sofre muito. É um produto feito artesanalmente, que exige uma extração difícil, garante
a manutenção e equilíbrio ambiental e não há valorização na hora de vender, isso não é levado
em conta."

 

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