O que é?

O que é?

Artesanato

O artesanato se refere à arte de criar objetos a partir da manipulação e transformação de uma matéria-prima que pode ser natural, manufaturada ou sintética. Um aspecto importante do artesanato é o seu lugar no cotidiano, seu laço com a utilidade, pois se tratam de objetos que possuem um uso e que trazem sentidos estéticos para o dia-a-dia. Por exemplo, para o ambiente da casa, onde se serve a comida em peças de cerâmica, se come sobre uma toalha de mesa bordada, etc., assim como para a dimensão individual das pessoas que se agasalham com um casaco de lã tecido no tear ou se enfeitam com brincos e outros adornos feitos à mão.

O objeto artesanal é fruto de uma produção individual, mas que remete a uma estética maior que as preferências do artesão e também a um coletivo de pessoas que partilha aquele conhecimento e aquela prática. Ao mesmo tempo, o objeto artesanal é impregnado pela singularidade de quem o deu a vida. As mãos com seu toque preciso, a inspiração ao escolher as cores e feições, o canto que tantas vezes acompanha e dá ritmo ao fazer, tudo isso compõe o universo da produção artesanal. Assim, o artesanato não acaba no objeto, mas começa nele que revela sempre algo maior e mais complexo que o tornou possível.

Artesanato Brasileiro

No Brasil, o interesse pelo artesanato enquanto expressão cultural e tradicional viva se ampliou na década de 1990, com a criação do Programa Sebrae de Artesanato, o olhar institucional para o artesanato se ampliou, sendo compreendido também dentro de sua dimensão econômica. Hoje, contamos com alguns documentos formulados pelo SEBRAE e pelo Programa do Artesanato Brasileiro – PAB –, que conceituam, classificam e categorizam a produção artesanal, as técnicas e os tipos de matéria-prima utilizadas. Essas construções conceituais seguem necessidades e demandas particulares, vinculadas à atuação desses Programas. Esse material está disponível para consulta, nos links abaixo.

A Artesol trabalha com o universo do artesanato tradicional desde o final da década de 1990, apoiando diversas comunidades tradicionais artesãs e facilitando a sua relação com pesquisadores, designers, estilistas,  profissionais do SEBRAE e órgãos governamentais. A experiência acumulada em 136 projetos é a base que sustenta a construção do pensamento da instituição em torno do artesanato tradicional, tendo em conta os contextos sociais, econômicos, ambientais, culturais e políticos que compõem esse universo.

Artesanato tradicional

O artesanato tradicional é fruto de um saber que tem sido passado de geração a geração. Essa transmissão acontece não apenas nos núcleos familiares, em que os saberes são transmitidos de pais para filhos, mas também em uma dimensão mais ampla, sempre com base em relações pessoais entre quem ensina e quem aprende. Assim, a atividade do artesão que trabalha com uma técnica tradicional remonta a um saber-fazer que possui uma história sempre maior do que a sua própria e da sua comunidade. Essa dimensão ancestral é a maior fonte de riqueza do artesanato tradicional e o coloca em um lugar de grande importância na compreensão da singularidade da vida de cada grupo humano e suas relaçoes com o território, tanto a nível local como nacional.

O artesanato tradicional brasileiro está presente em todo o país. Ele é fruto das culturas e saberes das etnias indígenas das diferentes regiões, dos grupos étnico-linguísticos banto e yorubá, escravizados no continente africano e trazidos para o Brasil, e dos diferentes imigrantes europeus ou asiáticos, vindos de Portugal, Espanha, França, Inglaterra, Itália, Japão, entre outros. No encontro entre essas diferentes culturas e etnias e na relação entre elas, os conhecimentos e saberes-fazeres tradicionais foram ganhando novas feições, usos e práticas, o que tem construído uma singularidade brasileira.

As mãos também tecem sentidos

As mãos, nossa principal ferramenta, a mais antiga e mais inerente à história humana, são a principal protagonista da grande alquimia que é a atividade artesanal. A partir das técnicas herdadas e invenções feitas a partir delas, as mãos moldam objetos carregados de expressão criativa e , carregada de sentidos de pertencimento cultural.

Os saberes tradicionais dizem respeito não apenas às técnicas utilizadas no processo de criação, mas também às relações que o artesão tece com as matérias-primas, à forma ética com que as extrai de seu local de origem, com o conhecimento dos seus ciclos de crescimento e os respeitando. Falar de artesanato tradicional, dessa forma, é ter em conta não apenas os objetos, mas toda a gama de relações que são estabelecidas com o local onde vive o artesão e com as práticas socias, culturais, econômicas e educativas da comunidade que sustentam e geram seu fazer e seus usos.

Dimensão política do artesanato tradicional

O artesanato tradicional conta histórias. Histórias que narram a singularidade da cultura de um povo, de um local, uma comunidade, uma etnia. E é por isso que a sua prática assume algumas vezes o sentido de importante ferramenta de resistência cultural e política, sendo utilizada pelos movimentos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, entre outros. Frente à cultura globalizada que tende a homogeneizar e padronizar as representações culturais, o artesanato tradicional cria espaços de resistência e salvaguarda da pluralidade de sentidos, fazeres, conhecimentos e afetos.

Arte popular

Todo artista é um artesão. O artesão possui domínio do fazer, ele detém a técnica e com ela transforma a natureza em beleza. A principal diferença da arte popular para o artesanato está na dimensão da autoria e da criatividade investida nos objetos produzidos. Na arte popular, o compromisso maior do artista é com sua relação singular com o mundo, sua forma de expressão, sua estética e seu processo criativo, enquanto que no artesanato, a autoria não se encontra em primeiro plano, mas o domínio do conhecimento coletivo. O artista popular é o artesão cujas criações  possuem particularidades que saltam aos olhos, como uma assinatura que identifica  as peças. A originalidade, é dessa forma, uma marca importante da arte popular e é consequência do desejo do artista ir sempre além do que já é conhecido. Ao mesmo tempo, expressa forte pertencimento cultural, pois, assim como o artesanato, exprime um saber, um modo de viver e pensar que é maior do que o artista.

Patrimônio Cultural Brasileiro

Até o final  do século XX, a noção de patrimônio, no Brasil, estava muito vinculada à preservação de bens imóveis, como conjuntos arquitetônicos e unidades com valor histórico. Com o tempo, foi possível compreender que as dimensões material e imaterial do patrimônio são inseparáveis e que é justamente essa relação que o mantém vivo. Isso porque o patrimônio é dinâmico, pois se encontra profundamente vinculado ao presente, ao território onde segue vivo e às condições de existência das comunidades e artesãos. Nesse sentido, os saberes e conhecimentos transmitidos de geração em geração são recriados e atualizados pelas pessoas de cada tempo.

Como resultado do avanço desses debates, o IPHAN criou, em 2000, o Registro e o Programa Nacional do Patrimônio Imaterial que formalizaram, no âmbito jurídico, a proteção do Estado às diferentes manifestações culturais, bens e expressões que compõem as referências  compartilhadas por um grupo comunitário ou social, em território brasileiro.

Pouco mais tarde, em 2003, a UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura -, promulgou a Convenção para Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial que passou a vigorar no Nrasil ao ser ratificada em 2006.

O termo “Patrimônio Imaterial” foi criado para se referir a toda gama de práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas que é transmitida de geração em geração e que é reconhecida pelos praticantes como parte importante de seu patrimônio cultural. O conceito possui um sentido amplo, o que permite ser apropriado pelos diferentes países que o alinham às suas singularidades culturais.

Hoje, o Patrimônio Cultural Brasileiro abrange quatro grandes categorias:

1 - Celebrações, que engloba festas religiosas e rituais, como o ritual Yaokwa, do povo Enawene Nawe, o Círio de Nossa Senhora de Nazaré e o Bumba-meu-boi do Maranhão.

2 - Formas de expressão, que se refere a todo tipo de manifestação em diferentes linguagens como o frevo, o toque dos sinos em Minas Gerais, a arte Kusiwa de pintura corporal da etnia indígena Wajãpi e o jongo.

3 - Lugares, como a Serra da Capivara, no Piauí, e a feira de Caruaru.

4 - Saberes, que abarca conhecimentos, técnicas e modos de fazer, como o ofício das baianas de acarajé, o sistema agrícola tradicional do rio Negro, o ofício de sineiro (arte de tocar sinos) e o modo artesanal de fazer queijo de Minas.

Ao todo, já são cerca de 40 manifestações culturais reconhecidas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) como Patrimônio Brasileiro. Destas, cinco estão inscritas na UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. São elas a Capoeira, o Frevo, o Samba de roda, a festa religiosa Círio de Nazaré e a Arte Kusiwa de pintura corporal.

Bens registrados ligados aos saberes e fazeres artesanais:

- Oficio das Paneleiras de Goiabeiras – Livro de Registro de Saberes e Fazeres. 20/12/2002

- Modo de Fazer Viola de Cocho - Livro de Registro de Saberes e Fazeres. 14/01/2005

- Modo de Fazer Renda Irlandesa - Livro de Registro de Saberes e Fazeres. 28/12/2009

- Saberes e Práticas Associadas ao Modo de Fazer Bonecas Karajá -Livro de Registro de - - Saberes e Fazeres. 25/01/2012

- Modos de Fazer Cuias do Baixo Amazonas - Livro de Registro de Saberes e Fazeres. 11/06/2015

Cada vez mais, a temática do patrimônio material e imaterial tem estado presente nas pautas de organizações nacionais e internacionais como um assunto de grande importância para a cultura, a nível global. Essa presença torna-se mais forte com a compreensão da importância da salvaguarda principalmente no sentido de garantir as condições sociais, econômicas e ambientais necessárias para que as comunidades, etnias e grupos tradicionais sigam com seus saberes, fazeres, expressões e línguas, caso seja seu desejo. De todo modo, é imprescindível que o poder público garanta que as comunidades tenham condições de escolha em relação às heranças culturais que abarcam.