O bordado e suas múltiplas faces

O bordado é uma das atividades artesanais mais presentes no Brasil. Trata-se de um fazer predominantemente feminino, sendo passado ainda, muitas vezes, de mãe para filha. Para muitas mulheres, o bordado se estabeleceu como importante fonte de renda e ainda como meio de fortalecimento da cidadania e como forma de expressão. A percepção do alcance social, cultural, pedagógico e simbólico com bordado inspirou bordadeiras a difundirem esse saber, repassando para mais mulheres em todo o país.

Esse foi o caso do Grupo Matizes Dumont, de Pirapora, município de Minas Gerais que há mais de dez anos tem contribuído para a difusão do bordado e para a inclusão social e econômica de diversas mulheres.

Às margens do Rio São Francisco, as filhas Sávia, Marilu, Martha, Ângela e o filho Demóstenes aprenderam com a mãe bordadeira, Antônia Zulma, e o pai contador de histórias, Demóstenes, a “(...) juntar a história e o bordado; a palavra e a imagem” (Sávia Dumont). Partindo do bordado mineiro clássico, a família de bordadeiras e artistas criou novas possibilidades estéticas e expressivas à técnica.

Com o “bordado livre” e espontâneo que rompe com os padrões da técnica original, a família trabalha a partir da mistura de traços, tecidos e matizes. Inspirada na natureza e na diversidade da cultura brasileira, a família borda principalmente telas que deram origem a uma arte visual com caraterísticas próprias, dotada de grande profundidade delicadeza.

São telas bordadas em diferentes tamanhos e materiais que passam por complexo processo de criação, começando pela concepção do desenho, feito pelo irmão Demóstenes, artista plástico. Os tecidos são, então, escolhidos criando composições e recriando os espaços traçados por Demóstenes. As bordadeiras são as que dão vida e movimento às telas, em processo de co-criação, trazendo suas cores, texturas, formas e volumes, de forma improvisada e espontânea.

A inovação da técnica do bordado experimentada pelo grupo abriu maiores espaços para a sensibilidade e a subjetividade na atividade de bordar, compreendida muitas vezes como um prática mais mecânica e menos autoral. A percepção da grande potencialidade do bordado em diferentes âmbitos, inspirou a família a propor ações educativas, de inclusão social e de sensibilização através do bordado.

Através do projeto “Bordando o Brasil”, em parceria com a Fundação Banco do Brasil, o grupo capacitou mais de 14.000 pessoas em situação de vulnerabilidade social em todo o país, entre os anos de 2004 e 2010. Matizes Dumont também realizou outros projetos voltados para a questão ambiental, como o Projeto de Mobilização Social no Vale do Rio São Francisco para a proteção dos cursos d’água e nascentes, realizado em 2000; e o Projeto “Entre Rios”, realizado em 2017, em 10 municípios dos estados de São Paulo, Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais, buscou sensibilizar os participantes para o cuidado e a importância das nascentes de água e rios.

Ao longo dos trabalhos com grupos, ensinando a arte de bordar, as bordadeiras desenvolveram uma prática psicopedagógica que chamam de “(A)Bordar o Ser”. A abordagem estimula a sensibilidade e criatividade dos participantes com o intuito de proporcionar mobilização social e busca por conhecimento e paz, através do bordado. As ações do grupo Matizes Dumont são orientadas pelos princípios do Cuidado e do Bem Viver.

O grupo, assim, tem construído um olhar multidimensional em torno da prática do bordar que toca diferentes âmbitos da vida e da sociedade, desde a consciência ambiental até a expansão da consciência social e cultural.

 

 

 
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