Lunildes de Oliveira Abreu

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As mãos que criam, criam o que? 

Lunildes era a mais velha da casa, fazia cavalinhos para os irmãos brincarem. Sempre foi inspirada pela cultura: cavalgada, mascarada, danças, fogueiros, quermesses: “É muito farto o nosso folclore”. A Cavalhada, festa tradicional em Pirenópolis, é parte das comemorações do Divino Espírito Santo e encena a batalha entre Mouros e Cristãos. O "espírito da festa" é contagiante: “Quando você pensa em Divino Espirito Santo é a explosão de abundância, de formas, cores, comidas.” Durante os festejos ela produz muito, e também se envolve nos preparativos. É a única pessoa da cidade que faz cavaleiros como escultura, a roupa toda em veludo, bordada. Cria máscaras, fachadas de casas, estandartes, sempre inovando. 

O barro antigamente era comprado lá mesmo. Lunildes encomendava um caminhão inteiro: “Eles retiravam e me entregavam”. Mas era muito para armazenar, então distribuía para outras artesãs, mais idosas. Tinha uma maromba onde triturava o barro, mas aos poucos foi perdendo a força nos braços. Agora compra o barro em Brasília, Abadiânia e Anápolis que chega em casa pronto. Perde-se em tradição mas ganha-se em qualidade: “Se você quer ter delicadeza na peça não pode ficar com as mãos pesadas e o trabalho de preparação do barro é muito pesado”. 

Lunildes acredita que deve levar cerca de uma semana para produzir um “cavalinho (sem considerar a queima). E deixa a pergunta: “Porque outros artesãos não fazem algo semelhante? Quando as pessoas percebem o trabalho todo que envolve, todas as etapas da produção, nem querem começar”. Não investe em divulgação, mas conta com o enorme reconhecimento e visibilidade de seu trabalho: exposições e loja na cidade, importantes galerias e museus, também acervos particulares de muitos colecionadores. E assim chegam as encomendas. 

Quem cria?    

Lunildes começou a trabalhar com artesanato por volta dos anos 70. Trabalhou por 32 anos como escrevente, trabalho que não gostava, mas ao chegar em casa era a arte que ocupava mente e coração. Casou-se muito nova, teve quatro filhos, mas nunca abandonou sua arte. Na cidade, Dona Maria de Beni (1919-1984), era uma importante artista goiana que reproduzia em cerâmica os personagens da cavalhada. Mas era muito atarefada, e logo faleceu. Lunildes nunca pôde vê-la trabalhando. Foi então que pediu ajuda a Celestina (conhecida como Safia) para produzir os cavalinhos de pé. Há anos Lunildes os produzia, sem conseguir mantê-los em pé. Bem humorada, conta que a barriga era muito grande e ele caía, “só gostava de ficar deitado”. E Safia foi lhe ensinando. Foi quem a ajudou na concepção do primeiro cavalinho. Dizia que observasse o barro, sua textura. Que no primeiro dia devia moldá-lo, então deixar secar, e só no segundo dia ir esculpindo. No terceiro apenas, dar acabamento, refinar a peça. Safia hoje é muito idosa, tem mais de 80 anos. Praticamente não produz mais. Trabalharam juntas 30 anos, cada uma em sua casa. Às vezes Safia chegava, começavam a conversar, pegavam o barro e iam mexendo, trabalhando juntas, produzindo e conversando.

Hoje Lunildes é profunda conhecedora da cultura e tradições de Pirenópolis e conhecida internacionalmente. Dá cursos, alguns pelo Iphan voltados a salvaguarda que atingem a rede de ensino municipal e estadual, mas anda querendo parar. Pensa em dedicar tempo a receber pessoas, apenas se sentarem e fazerem juntas o trabalho no barro, como um grupo de amigos. Por fim, uma exposição. Uma forma de estimular, incentivar essa arte, sem muitas nomenclaturas, onde “ninguém ensina ninguém, todo mundo se aprende”. 

Onde criam?

Pirenópolis é um município tombado como conjunto arquitetônico, urbanístico, paisagístico e histórico pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Conta com um Centro Histórico ornado com casarões e igrejas do século XVII, palco da tradicional Festa do Divino, realizada desde 1819 e registrada pelo IPHAN em 2010 como patrimônio cultural brasileiro. No fundo de sua casa, em uma área grande, Lunildes trabalha em seu atelier onde também expõe suas peças, de grande valor cultural: “Esse trabalho tem que continuar com os filhos, os netos, que já aprenderam. Ensinei todos. Hoje os pequenos já fazem comigo. Se farão futuramente não importa, mas eles conhecem e qualquer dia que quiserem manusear o barro, terão habilidade pra isso”. Acredita que a destreza em qualquer área é iniciada pela intimidade com a arte. “Um médico, um cirurgião que precisa desenvolver habilidade com as mãos, é na arte que irá adquiri-la”. E o fazer artesanal ainda ocupa o papel de fortalecedor de vínculos, amizades, protagonista do resgate das pessoas em direção a alegria de viver. Uma arte que age unindo gerações. 

Fonte: Museu Casa do Pontal Lunildes / Museu Casa do Pontal / Arte Popular Brasil

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