Nos fazeres artesanais, a resistência da cultura caiçara

Ana Clara Melho

 A população caiçara do Brasil tem forte influência dos povos indígenas e incorporou suas tecnologias, conhecimentos sobre o manejo da floresta e do cultivo de alimentos. Também assimilou elementos dos povos ibéricos e da cultura africana em áreas que conectam montanhas e florestas ao mar nos territórios litorâneos do Paraná, São Paulo e costa sul fluminense. É o que chamam de “maretório”: uma junção de maré com território, expressão muito utilizada pela população costeira do Brasil para se referir aos territórios influenciados pela maré, que - por sua vez - é influenciada pelos ciclos lunares ou pelas mudanças climáticas.

Os caiçaras viviam da pesca artesanal, da roça – onde plantavam batata doce, banana, milho, cana e mandioca, pra fazer a farinha –, e do artesanato e  tinha amplo domínio do manejo das plantas, árvores e madeiras da floresta. As casas eram de pau-a-pique, feitas de cipó imbé trançado e com estrutura de madeira. Com as madeiras, faziam canoas e todos os tipos de utensílios domésticos, como remos e machados, além dos instrumentos de trabalho na roça - os moinhos para processar a mandioca e fazer farinha. Com o trançado das fibras faziam cestos, abanos e armadilhas para a pesca. Já com a fibra da taboa, faziam as esteiras pra dormir.

Confecção de rede artesanal na Praia do Sono (RJ). Foto: Camila Pinheiro 

Muitas destas comunidades, porém, vêm se transformando com a pressão imobiliária e o turismo de massa. A história do litoral norte de São Paulo, por exemplo, é marcada pela construção da BR 101 (Rio-Santos), que provocou um grande crescimento populacional e econômico a partir da década de 70. O município de São Sebastião, em especial, se expandiu com a instalação do terminal da Petrobras, em 1969. Esse é, atualmente, o maior terminal aquaviário do Brasil, recebendo petróleo para abastecer quatro refinarias do estado de São Paulo. Com a vinda dos trabalhadores da Petrobras e dos turistas, chegou também a especulação imobiliária, que retirou muitos caiçaras de seus territórios, colocando seu modo de vida e sua cultura tradicionais sob ameaça.

Com 63 anos, dona Marisia de Moraes é uma caiçara tradicional e artesã nascida e criada em Juquehy, na costa sul de São Sebastião (SP), que conta essa história. Ela aprendeu ainda cedo a entrar na parte alagadiça das matas em busca da taboa. A Mata Atlântica, ainda preservada na Área de Preservação Ambiental Serra do Mar (APA Serra do Mar), é úmida, densa e cheia de mistérios - segredos que dona Marisia aprendeu ainda cedo a desvendar na colheita da matéria-prima do artesanato, seu sustento até hoje.

Os caiçaras têm amplo domínio do manejo das plantas, árvores e madeiras da floresta. Foto: Camila Pinheiro

Sua mãe, Maria Lúcia de Moraes, era artesã e lhe ensinou o ofício. Marisia tinha oito anos quando começou a ajudá-la a coletar a taboa nas beiras de mata. A ensinou também a tratar a taboa, mas não a costurar as peças. À época, Maria Lúcia produzia para uso próprio, para vender aos turistas e, principalmente, para enviar os chinelos feitos de trançado de taboa à São Paulo. O artesanato era a principal fonte de renda da família

Typhia domingensis é o nome científico da espécie que recebe vários nomes populares, dentre eles, o de taboa. A preparação do artesanato começa na extração da taboa das áreas de brejo, com a água até o joelho. Dona Marisia ia cedo e de lá só saia com o cair do sol. Era um trabalho pesado e cansativo, mas que realizava quase todo sozinha. Carregava os feixes cortados até a beira da pista, onde alguém iria ajudá-la a levá-los até sua casa. Chegando em casa, ela abre todas as palhas, as coloca ao sol pelas manhãs e as retira a tarde. Depois de repetir esse processo ao longo de 8 a 12 dias, o tempo de secagem da palha, ela começa a fazer as tranças, com as quais produz cestinhos, sousplat, caminhos de mesa e tapetes – que são sua paixão. As tranças são a base para seus enormes tapetes, que demoram até 20 dias para ficarem prontos.
 

Chinelo de taboa. Foto: Camila Pinheiro

Ela também trabalha com a fibra da bananeira. Com as fibras do tronco da bananeira, que são mais sequinhas e fáceis de manejar. Depois de limpas, ela acrescenta as fibras de bananeira às de taboa, produzindo primorosas mandalas. Aprender mais sobre o saber-fazer de Marisia com a taboa é acessar outro modo de viver o tempo. O processo de extração e tratamento para que a taboa se transforme em fibra é lento, requer cuidados diários. Quando em fibra, iniciar o trançado é começar uma jornada, que só termina com as peças prontas. Dona Marisia tem olhos atentos aos pontos do trançado e, depois, à costura dos tapetes. Ainda que demore, esse ciclo completo que começa na coleta da taboa e finaliza no último ponto do tapete, é em si uma arte que ensina sobre paciência e constrói sentido para o dia a dia.

Marísia tem medo de que o trançado com a taboa se perca, pois são poucas as pessoas que ainda trabalham com essa técnica e as gerações mais novas não tem interesse em aprendê-la. Para além do trançado, ela teme que o artesanato caiçara esvaneça.

“O artesanato é uma forma de preservar a cultura caiçara. Hoje, não tem mais isso, não tem mais pescador, são poucos. A prefeitura não se interessa em fomentar, em ter uma oficina. Eu queria que continuasse essa cultura, toda vida que eu estive aqui eu trabalhei com artesanato”. Por conta de tantos anos entrando nos brejos pra tirar taboa, ela desenvolveu um problema no joelho e não pode mais retirar a matéria-prima sozinha, mas ela continua fazendo o trançado e a costura das peças.

Trançados de taboa na Exposição Entremeadas. Foto: Mariana Chama

A extração da taboa também foi comprometida após o desastre/crime ambiental ocorrido no carnaval de 2023. As chuvas de 600mm provocaram desmoronamentos em muitos morros, soterrou partes inteiras de bairros e chegou até as áreas de retirada da taboa. A casa da artesã e a lojinha onde vende seus artesanatos também foram afetados pelas chuvas.

Diante das dificuldades, das constantes ameaças que sofre a população caiçara, a artesã relata que o artesanato a ajuda a cuidar da saúde mental e a tirou da depressão. “Eu vou continuar com o meu artesanato, porque é uma coisa que eu amo fazer. Eu saí de uma depressão com essa fibra aqui da taboa e com a fibra da bananeira. Se todo mundo continuasse a fazer um artesanato, eu acho que sairia de qualquer depressão. Eu gosto muito e me sinto muito bem com o meu artesanato”

As populações caiçaras ainda não conheceram o devido reconhecimento por seus territórios e sua cultura, que estão sob constante ameaça. Por isso, Marísia e tantos outros caiçaras lutam para que suas tradições não se percam. O artesanato com a fibra da taboa e da bananeira, legado dos povos tradicionais assim como a construção das canoas caiçaras, a pesca artesanal, a roça e as festividades típicas são elementos de uma cultura que os caiçaras se empenham em manter. Fazeres e saberes que se preservam nas mãos que lançam as redes de pesca, que entalham a madeira, que trançam as fibras. Em cada gesto existe uma cultura ancestral que reivindica continuar existindo.

 

 

 

Sobre o autor

Ana Clara Melho

Ana Clara Andrade Melo, 27 anos. Cientista Social de formação, sou educadora há mais de oito anos. Estou mestranda na área de comunicação de ciência e cultura, na qual pesquiso sobre relações étnico-raciais. Já atuei com cooperativas e grupos de economia solidária em comunidades tradicionais. Atualmente, trabalho como articuladora social da Rede Artesol.
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