DARLINDO JOSÉ DE OLIVEIRA PINTO

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Contato DARLINDO JOSÉ DE OLIVEIRA PINTO

AS MÃOS QUE CRIAM, CRIAM O QUE?

Extraída da baladeira, árvore da família das sapotácias cujo nome científico é Manilkaa
Bidentata, a balata é uma matéria prima encontrada somente na linha do Equador, em um
estreito raio que alcança cinco municípios no oeste do Pará (Almeirim, Prainha, Monte Alegre,
Alenquer e Óbidos). Encontra-se em área de conservação e proteção ambiental, cujo
extrativismo é guiado por planos de manejo. As balateiras soltam leite apenas durante três
meses do ano - Março, Abril e Maio - quando as chuvas são mais intensas. Época em que
artesãos contratam uma equipe formada por seis homens para uma expedição de coleta.
Partem com suprimentos para ficarem na mata durante todo o período de chuvas e só
retornam quando as elas cessam. Voltam trazendo 1.500 kg da matéria prima, o que garante
matéria prima aos artesãos por até 4 anos.

O extrativismo é realizado por pessoas habilitadas, mas há sempre, nas expedições, um
homem inexperiente para aprender o ofício garantindo assim a perpetuação do saber e a
renovação da equipe de extrativistas. É uma atividade bastante cara. Para mandarem extrair a
balata, os artesãos precisam contar com parcerias junto a órgãos de apoio a cultura, única
forma de viabilizar a aquisição da matéria prima.
É a partir dessa rara seiva que Mestre Darlindo imprime sua imaginação. Traz nas figuras em
tamanho reduzido a representação da fauna e flora da Amazônia, costumes indígenas, do
cotidiano da vida ribeirinhas, lendas e mitos da região. Em Belém, nos anos 80, em pesquisas
no Museu Paraense Emílio Goulding, adquiriu técnicas que o aprimoraram ainda mais no
ofício, em uma época em que não sabia como colorir a balata, e usava tinta tipográfica, tóxica.
“A balata não pega pintura, ela é tingida. Usa-se tingimento.” Passou então a usar tinta óleo,
usada para pintura de telas e quadros. O mestre cozinha a balata com a tinta que, apesar de
tóxica, perde a toxidade no momento do cozimento, permitindo que crianças pequenas
continuem manuseando suas miniaturas.

QUEM CRIA?

Foi a curiosidade que seduziu Darlindo José de Oliveira Pinto a trabalhar com modelagem em
balata. Na época aos 10 anos de idade, tinha um vizinho extrativistas de balata chamado João
Boi - o quintal de sua casa fazia fundos com a casa dele. Menino, passava o dia observando ele
modelar, confeccionando animaizinhos - boi, vaca, cavalos, macacos, jacaré, bode e outros.
Não podia chegar perto, os filhos dele não deixavam e Darlindo se mantinha distante, com
medo de apanhar.

“Mesmo assim eu ficava brechando do meu quintal, quando eles saiam eu pulava a cerca,
pegava um pedaço de balata e ia pra casa tentar modelar do jeito que ele fazia. Depois eu ia no
trapiche da minha cidade onde ficava armazenado os blocos de balata que seriam enviados
para os EUA - eram várias toneladas que eram exportadas. Eu levava uma faquinha para tirar
algumas lasquinhas de balata dos blocos e levar pra minha casa”.

As peças que produzia levava para serem vendidas nos navios que subiam e desciam o Rio
Amazonas com passageiros de Belém para Manaus e vice-versa. Com o tempo passou a
comprar uma fração da matéria prima de Seu João Boi que lhe rendia algum tempo de
produção.

Já em Belém realizou formações em gestão, comercio justo, empreendedorismo, qualidade,
manejo, design, exportacao e outros. É hoje reconhecido um mestre-de-ofício. Premiado,
possui peças no Museu do Folclore no Rio de Janeiro e em 2012 teve uma peça premiada pela
UNESCO como Artesanato de Excelência entitulada “búfalo montado”, criada por ele em 1985.
Representando o Brasil, viajou para outros países e conheceu praticamente todos os estados
do Brasil com seu trabalho. Fechou grandes negócios de exportação e conhece como poucos a
produção artesanal do seu estado. Generoso como os mestres o são, Darlindo vem atuando há
décadas como um importante articulador, criando oportunidades e apoio a outros mestres e
artesãos do estado.

ONDE CRIA?

O artesanato de modelagem em balata é tradicional do município de Monte Alegre (PA) e
apesar de se tratar de um saber fazer local com tradição de aproximadamente um século,
ainda é pouco conhecido no estado, no Brasil, mais ainda no mundo.

Sem apoio do poder público local, só em agosto de 2020 a Camara Municipal de Monte Alegre
reconheceu como Patrimonio Cultural Imaterial o artesanato de miniatura em balata. É uma
cadeia produtiva ativa há mais de 50 anos e que envolve cerca de 50 famílias (direta e
indiretamente). Darlindo nasceu, viveu e trabalhou até os quatorze anos em Monte Alegre,
quando se mudou para Santarém - onde morou na casa de um amigo e vendia para lojas. Em
1980, aos 18 anos, mudou-se definitivamente para a capital, Belém do Pará, onde permanece
até hoje. Juntos, são hoje em 12 mestres artesãos no estado: seis deles sediados em Belém,
cinco em Monte Alegre e um em Santarém.

Com apoio limitado do governo federal através do Programa do Artesanato Brasileiro (PAB)
enfrentam desafios para manter viva a tradição. Para o futuro o mestre projeta participar de
intercâmbios onde possa transmitir seu conhecimento não apenas ao país mas à outras
nações. Como presidente da Federação dos Artesaos do estado do Pará e membro da
Confederação Nacional dos Artesãos, sonha em ter a profissão, de artesão, reconhecida no
Brasil - a lei No 13.180, de 22 de outubro de 2015, que regulamenta a profissão de artesão,
nunca foi homologada.

"Então nós não somos reconhecidos como trabalhadores no Brasil. A profissão artesão não
existe. Para o futuro desejo que os governantes vejam isso. Mas eles querem que a gente vire
microempreendedor. Eu não quero ser empresário, eu quero ser reconhecido como artesão,
como trabalhador no Brasil.