Jefferson Paiva

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Contato Jefferson Paiva

As mãos que criam, criam o que?

Artefatos que homenageiam uma cultura milenar cujos registros cerâmicos datados de c.900 a
c.1600 inspiram uma recente e vigorosa produção de objetos, fruto de muita pesquisa e
devoção de um de seus últimos herdeiros, o artesão e antropólogo Jefferson Paiva.

Decorados com motivos zoomorfos (figuras de animais), antropomorfos (figuras humanas) e
figuras femininas, a arte da cerâmica tapajônica era composta por artefatos em formatos
elaborados, produzidos para fins cerimoniais como festas e rituais religiosos. Sua beleza,
repleta de detalhes, trazia feições ornamentais muito análogas ao estilo barroco e a antiga arte
chinesa. Uma arte que acredita-se ter sido desenvolvida entre os índios que habitavam as
margens do rio Tapajós, povos que seriam descendentes de hábeis artesãos, supostamente dos
Maias ou Incas, estabelecidos na região a partir do ano 1200 a.C.. Uma das mais antigas e belas
expressões da arte e da cultura amazônica, recentemente reconhecida como patrimônio
artístico e cultural do Pará.

Toda peça que Jefferson fabrica parte de uma pesquisa. Através da arqueologia, do estudo de
material cerâmico, ele passou a introduzir materiais que no inicio não utilizava. "Não existiam
relatos sobre os modos de fazer. Hoje já se tem vários estudos, baseados em culturas indígenas

que os preservam (como os Shipibo-Konibo, um grupo étnico da Amazônia peruana e os Wai-
Wai, etnia que ocupou regiões das Guianas, Amazonas e Pará) e permitiram os atuais relatos."

Através do artefato arqueológico chegaram a composição da pasta.“Hoje pegamos a peça no
museu e fazemos a reprodução."

O processo é um resgate dos modos de fazer ancestrais, e assim se preserva: desde a
preparação da pasta, o uso do cauxi (que significa mãe da coceira em tupi-guarani), uma
esponja que “dá" na beira do rio e oferece resistência à peça, até o caraipé (cinza extraída de
uma arvore que é misturada ao barro para reforçá-lo no feitio de panelas que irão ao fogo - se
não utilizado a panela se quebra quando aquecida ao fogo).

Encontrado em abundância nos períodos de seca dos rios (permanecendo assim ano a ano), o
cauxi é coletado, cozido em uma panela de barro até esfarelar para que apenas o pó seja
misturado ao barro. Não se utiliza água. Já no feitio do caraipe, a casca do caraipezeiro é
queimada, para que restem apenas as cinzas. Ela é pilada, coada e misturada à argila. No
entanto, Jefferson já nota (e se preocupa) que o insumo já está rareando. “Tiramos só a casca,
não derrubamos a árvore”. A argila (marrom) é adquirida nas olarias próximas a Santarém que
fabricam tijolo. Chegam em estado bruto e Jefferson beneficia: bate na argila com um ferro até
que fique uniforme, em seguida amassa com as mãos e passa um arame de camada em
camada para retirar as impurezas. Só então ela está pronta para uso. Com a mistura feita,
ocorre a produção, depois a etapa do engobe (pintura feita antes da queima a partir de
variações do próprio barro) que pode se dar em três cores: vermelho, preto e branco. Depois
sao feitos os grafismos (sobre o engobe), ocorre a secagem e então a queima, que chega a
atingir de 800 a 900 graus de temperatura no forno a lenha. Por ultimo ainda, ele faz o
envelhecimento da peça. "As pessoas até confundem com a original."

Quem cria?

Jefferson Paiva de Souza é membro da terceira geração de artesãos da família. O pai aprendeu
o ofício com o avô que era ceramista, assim como o avô materno. Mestre Isauro (o avô
paterno) foi pioneiro da cerâmica tapajonica em 1930 no município de Santa Isabel, próximo a
Belém. “Foi ele quem trouxe a cerâmica para cá". Na década de 70 mudaram-se para Santarém
onde o pai conheceu o grande artista plástico Laurimar Leal que trabalhava no museu e o
incentivou na produção da cerâmica tapajonica, ensinando-o a realizar reproduções.

Desde criança Jefferson manipula o barro. Tinha cerca de quatro anos nas lembranças com o
pai fazendo peças e ele ajudando com o acabamento. Começava ali a desenhá-las. "Ele queria
que eu aprendesse. Fazia a peça para eu terminar." Em 1989, aos sete anos, fez sua primeira
exposição, no município de Porto Trombetas, a convite do pai. Patrocinados pelas empresas de
mineração instaladas na região, anualmente os artesãos e artistas de Santarém eram
convidados a participarem da mostra. O pai estava sempre presente e naquele ano o chamou
para acompanhá-lo. "A partir dali me senti um ceramista de verdade. Foi o momento que decidi
seguir a profissão.” Retornou com a bagagem pequena mas cheia de apoio, elogio e incentivo
de todos os outros artesãos.

Filho mais velho entre os homens, Jefferson apreciava o ofício, mais do que os outros. Até os
brinquedos, fazia de barro. Percebendo o gosto pela atividade, o pai sempre o incentivou. Até
que, por volta dos doze anos, ele perdeu o pai. “Tudo parou". As irmãs que estudavam,
começaram a trabalhar. Sozinho, restou apenas ele produzindo na família. Ainda assim, deu
continuidade. Seguiu atendendo os clientes do pai, que passaram a ser seus. E se manteve no
barro até os 16 anos. Sem nenhum apoio, nem familiar, nem do município, decidiu se alistar no
Exército, onde ficou por sete anos. Passado esse tempo abriu uma olaria e passou a produzir
tijolos de ceramica, durante quase dez anos.

Ao longo de todo esse tempo nunca abandonou a arte tapajonica. A escolha por não se
envolver nem se comprometer demais mantinha a produção tímida. Até que em 2017, uma
época de muita dificuldade, teve um sonho com o avô, Mestre Isauro, que lhe disse: “Você está
nessa porque você quer, você sabe o caminho que você deve seguir”. Inseguro sobre como
fazer para sustentar a família, recebeu como resposta um sorriso e uma caminhada de
despedida. Logo depois Jefferson abandonou tudo. Vendeu os maquinários da empresa,
acertou o pagamento dos funcionários e passou a se dedicar exclusivamente a cerâmica.

De 2018 para cá trabalha integralmente voltado a essa arte primitiva. Se arrepende por ter
interrompido por tanto tempo sua jornada. Logo recebeu um convite para dar uma oficina na
comunidade de Monte Alegre, emitiu sua carteira nacional de artesão e participou da primeira
exposição fora do estado. Participa de todos os editais para expor seu trabalhos em feiras e
eventos. No mesmo ano, deu-se o que considera um marco em sua vida: ingressou no curso de
arqueologia da Universidade Federal do Oeste do Pará, um sonho desde criança. "Papai
sempre trabalhou com a reprodução da cerâmica tapajonica e as vezes ele contava historias e
eu sempre pensava qual seriam as historias por trás daquelas peças. Passei a ter um
conhecimento cientifico do trabalho".

Começou a participar de congressos de arqueologia em todo o Brasil, seu trabalho foi ficando
ainda mais reconhecido e passou a receber convites para participações em eventos no exterior.
Foi convidado em 2019 para um Leilão Internacional em Hong Kong e em seguida uma feira na
Tunisia. Ainda sem contar com nenhum tipo de apoio conseguiu viabilizar as despesas para sua
ida através de uma “vaquinha virtual” nas redes sociais e doações, mas faltando apenas uma
semana para o embarque, veio a pandemia. "Estou realizando um sonho, não imaginava nem
sair de Santarém. Sou um privilegiado. Mantenho a minha família hoje só com o artesanato."

Motivado, Jefferson está resgatando o oficio na família, envolvendo enteados, irmãos, para
juntos refazerem a tradição ancestral mantida até hoje. Preocupado com a difusão e
continuidade desse valioso fazer ancestral, ele ensina voluntariamente um grupo de ceramistas
que se reunem e trabalham juntos uma vez ao mês. Quando chega uma grande encomenda,
dividem entre si. Jefferson doa o barro como forma de incentivo, ajuda na produção e também
na comercialização e divulgação em suas redes sociais. Corre atras de oportunidades em feiras
e busca espaços de comercialização. Recentemente conseguiu um local de exposição e venda
no Centro de Artesanato de Santarém, no Museu de Santarém, que compartilha com os
artesãos, além de levar as peças produzidas por eles em suas viagens. "Tem muito desemprego
aqui e é uma forma de renda. Tem barro aqui, bora fazer. Se eu morrer, como vai ficar a
cerâmica aqui, quem vai dar continuidade? Sinto uma grande responsabilidade de estar a
frente disso, de estar dando continuidade ao que começou há tanto tempo."

Onde cria?

No inicio do século XVI, antes da chegada dos europeus ao continente americano, a região da
bacia Amazônica era bastante povoada. As populações eram organizadas em sociedades bem

distintas, havia um universo riquíssimo de diferentes línguas, que permitiu muita troca de
informações no território através dos caminhos criados por rios e terra. Haviam sociedades
com amplos conhecimentos de agricultura e criação de animais que conviviam com pequenos
grupos nômades. Por volta do ano 1.000 AC, algumas sociedades amazônicas deram origem a
territórios comandados por uma única liderança, ou cacique, que tinham uma produção de
cerâmica muito elaborada, servindo tanto aos rituais como para uso cotidiano, além de serem
usados como objetos de troca. À beira do Rio Tapajós, região da atual cidade de Santarém, se
estabeleceu um dos maiores centros de produção de cerâmica das Américas.

Jefferson trabalha ao som dos pássaros, em uma área aberta embaixo de alguns pés de
mangueiras. Em plena floresta Amazônica, ele segue com a missão quase solitária de garantir a
salvaguarda de uma arte ancestral que conta com o descaso do poder público mas com o
reconhecimento de um público assegurado pelo turismo, enquanto não consegue viabilizar
atender outros mercados."Muita gente fica pelo caminho porque não tem esse apoio. Nossa
cultura é tão rica e tão bela que o mundo precisa conhecer. Muitas vezes, no Brasil mesmo,
aqui dentro, não se conhece."