José Stênio Silva Diniz

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Quem cria?

José Stênio Silva Diniz (1953) nasceu respirando a mistura de aromas de papel e tinta da grande tipografia do Cariri Cearense. Foi em 1932 que seu avô, José Bernardo da Silva, fundou a Folhetaria Silva. Já na década de 40, comprou maquinários no Crato e adquiriu os direitos autorais de João Martins de Athayde e Leandro Gomes de Barros, período em que a Folhataria Silva tornou-se a Tipografia São Francisco, uma das maiores produtoras de cordéis do Brasil.

Ali se deu a principal formação de José Stênio enquanto artista, na convivência com os tipógrafos e gravadores que frequentavam a tipografia do avô, uma das mais significativas na produção de cordéis do Brasil. Hoje, José Stênio é considerado um dos principais artistas em xilogravura do Brasil, tendo participado de Bienais e diversas exposições no país e no exterior, sendo a Alemanha o lugar que tem gerado maior troca.

Filho de José de Sousa Diniz e Maria de Jesus Silva Diniz, Stênio também morou com os avós a quem chamava carinhosamente de mãezinha e paizinho. Na casa dos avós havia uma máquina de impressão e a partir dos 5 anos de idade, começou a catar os papéis que caíam durante a impressão, função que na época era denominada “juntador de papel”. Quando completou 7 anos, passou a trabalhar na tipografia, exercendo essa função, reunindo os papéis e os deixando todos juntinhos. Com 8 anos passou a estudar na casa de uma professora e, por isso, ia apenas no período da tarde para a gráfica e participava dos serões que aconteciam quando o volume de impressão de cordéis era muito grande. Nessas ocasiões, passavam noite adentro trabalhando e se divertindo com café e bolachas. “Era uma folia! Juntava, dobrava e encadernava os cordéis”. José Stênio Diniz

À medida em que foi crescendo, foi se interessando pelo restante do processo de produção dos cordéis, aprendendo o ofício de imprimir (na época era com o pé, parecido com o funcionamento de uma máquina de costura); de organizar as capas dos cordéis; e de entalhar as gravuras. Quando tinha 17 anos, seu pai faleceu, e logo depois Stênio decidiu se aventurar por Brasília - DF e tentar ganhar com a sua arte. Encheu sua mala com algumas matrizes (figura gravada em madeira, possibilitando a reprodução da imagem sobre papel) e logo conheceu Brandão, um artista plástico que o orientou e incentivou a experimentar fazer gravuras maiores. Nessa época, a convite do professor Charles, teve sua primeira participação em uma exposição que aconteceu na Biblioteca da UNB - Universidade de Brasília.

Nesse período, seu avô, que ficara abalado com a morte do filho, também faleceu, e Stênio decidiu retornar a Juazeiro, para auxiliar sua avó que havia recebido a Tipografia como herança, assumindo o gerenciamento junto a ela. Em 1982, sua mãe vendeu a gráfica para o Estado do Ceará que a entregou para a Academia de Cordel, tornando-se a atual Lira Nordestina, ainda em funcionamento. Em 1983, Stenio assumiu novamente o gerenciamento da gráfica.

Em 1985, Stênio foi visitado por um grupo de alemães que conheceu seu trabalho e o convidou para fazer uma exposição na cidade de Colônia, onde chegou a ficar por quase um ano. Depois disso, voltou à Alemanha mais 13 vezes, para participar de exposições, festivais e dar oficinas de xilogravura para crianças e adolescentes alemães, mesmo com pouco conhecimento da língua. Chegou a compor música em alemão, que cantou em uma Igreja, se acompanhando ritmicamente com um garfo e uma faca. A mensagem era: O que é isso meu Deus? O que é isso, meu Senhor? Tem tanto pão nesse mundo e tanta fome. O que é isso, meu Deus, eu te amo, mas por que tanto pão nesse mundo e tanta fome? Tanto pão, tanto pão e tanta fome? Cantou tocando um ritmo com garfo e faca. E as pessoas choraram.

“Nunca abri um livro para aprender coisa nenhuma. Aprendi na marra, dia a dia”. 

Stênio Diniz não apenas aprendeu, como criou muitos recursos técnicos, enquanto xilógrafo, e marcou a história da xilogravura brasileira, com o seu olhar social e estético. A geração de xilogravuristas nordestinos, como Mestre Noza, não tinham o costume de representar o contexto nordestino, sendo mais comum a referência a artistas norte-americanos. Stênio foi um dos primeiros a propor temas de cordel, já na década de 1970, que giravam em torno de personagens emblemáticos para a história e a cultura nordestina, como o padre Cícero, Lampião, lendas carirenses, forró; assim como temas relacionados à vida regional, à política, e aos movimentos populares. 

As mãos que criam, criam o que?

A xilogravura se caracteriza por um dos métodos de impressão mais antigos, em que se esculpe uma figura em uma superfície de madeira, com o uso de goivas (instrumentos com lâmina afiada). Depois essa figura é coberta com tinta e impressa em papel ou tecido. Stênio trouxe importantes inovações técnicas, ao experimentar outros instrumentos, como o estilete e o bisturi cirúrgico e o prego, alcançando traços singulares em suas artes e ampliando a sua potencialidade expressiva.

Os temas abordados por Diniz são diversos e são concebidos a partir do que o artista sente que é importante ser abordado. Sempre muito atento aos contextos sociais e políticos, as xilogravuras de Stênio evidenciam desafios vividos pelos nordestinos, de forma geral, como a seca, a fome e o desamparo político, assim como aspectos culturais muito presentes nessa região do Brasil, como a religiosidade popular, nas figuras de Padre Cícero, nas romarias e procissões; o cangaço.

Na xilogravura de Stênio Diniz também aparecem construções mais complexas, fruto do encontro das diferentes experiências, andanças e dos estímulos artísticos pelos quais passou. Ele percorreu diferentes circuitos intelectuais no e fora do Brasil, como bienais, exposições e festivais, o que expandiu a sua percepção e suas referências, fazendo com que sua arte seja um diálogo fecundo entre o regional e o universal.

Onde cria?

A 490 quilômetros da capital Fortaleza, Juazeiro do Norte está localizado no coração do estado. A cidade mais importante do Cariri Cearense é considerada um dos três principais centros de religiosidade de matriz católica do país. Além disso, é um grande polo cultural, sendo o maior centro de artesanato e cordel do nordeste brasileiro. 

Juazeiro, árvore frutífera da vegetação predominante na região, dá nome ao município que antes da chegada de Padre Cícero, em 1872, era um povoado do Crato. O local ganhou relevância política ao ter legiões de fiéis peregrinos que lá chegavam após tomarem conhecimento do suposto milagre ocorrido em 1989, quando a hóstia ministrada à beata Maria de Araújo transformou-se em sangue através das mãos do padre. Ainda hoje a aura mística do religioso manifesta-se, sendo assim a Colina do Horto, onde está à estátua do Padre Cícero, medindo 25 metros de altura, o principal ponto de peregrinação do nordeste.